Lava Jato foi um processo corrupto engolindo outro, aponta revista britânica

Artigo publicado na Prospect Magazine nesta semana revela como o combate à corrupção se tornou uma obsessão no Brasil; "A corrupção se estende continuamente na política brasileira e, como fica óbvio com essas mensagens, isso inclui aqueles que afirmam lutar contra ela", escreve Julia Blunck

A Polícia Federal prende o banqueiro Eduardo Plass em nova etapa da Operação Hashtag, desbodramento da Lava Jato no Rio de Janeiro.
A Polícia Federal prende o banqueiro Eduardo Plass em nova etapa da Operação Hashtag, desbodramento da Lava Jato no Rio de Janeiro. (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Por Julia Blunck, na Prospect Magazine (tradução voluntária de O. Ramos) - A corrupção ocupa o espaço de um pecado original na mente brasileira, da qual derivam todos os outros males da sociedade brasileira. Se há crianças dormindo na rua; se cenas de guerra ocorrem em bairros densamente povoados; se os hospitais não podem fornecer vacinas porque não receberam agulhas — é por causa da corrupção.

A ascensão do ministro [da Justiça] e ex-juiz federal Sergio Moro está intrinsecamente ligada a essa obsessão. Quando a Operação Lava Jato deixava de ser um dos menores escândalos em andamento do Brasil para se tornar um gigante que envolveu o governo, Moro se tornou o mais novo defensor do país contra a corrupção. Com seus ternos pretos e aparentemente inabalável retidão moral, havia algo fascinante sobre o modo como Moro encarcerava homens outrora vistos como intocáveis.

Toda semana, a Operação Lava Jato trazia uma nova lista de prisões, e o país ficava em êxtase, aguardando ansiosamente ver as fotos de políticos algemados. Essas eram as pessoas responsáveis ​​por tudo que deu errado e sempre foi errado no Brasil, e houve um grande prazer em vê-las sendo humilhadas, tentando ocultar os pulsos, desviando o olhar das câmeras. A Lava Jato viu a mídia como parte integrante de sua operação; somente com a mídia a seu lado [a operação] poderia se dar ao luxo de enfrentar o monstro da corrupção.

Durante essa fase da Operação Lava Jato, para um certo tipo de brasileiro — mais precisamente da classe média alta de direita — Moro se tornou não um emissário de justiça, mas um super-herói. Moro foi a antítese da figura do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva que, mesmo em 2015, lançou uma longa sombra sobre a política de sua sucessora, Dilma Rousseff.

Moro era discreto e Lula, expansivo; ele era elegante e Lula, áspero. Acima de tudo, Moro era juiz, cargo da elite suprema na sociedade brasileira, enquanto Lula ainda se enquadrava — e era enquadrado — como um sindicalista de baixa escolaridade que teve sorte. Para os aliados de Lula, Moro usou a corrupção como uma desculpa para processar politicamente o partido de esquerda mais importante do país; para os inimigos de Lula, Moro foi o escolhido para finalmente expor o coração podre do país, controlado pelo Partido dos Trabalhadores.

Entre 2015 e 2018, o confronto Moro vs. Lula foi uma guerra lenta, durante a qual a Operação Lava Jato avançou, centímetro por centímetro, em direção ao ex-presidente. Nesse meio tempo, Dilma Rousseff foi afastada; a Petrobras, amada estatal petrolífera do país, teve sua reputação arruinada; e muito do progresso feito durante os anos 2000 parou ou regrediu ativamente.

Moro finalmente venceria quando, a dois meses da eleição que levaria Bolsonaro ao poder, enviou os mandados de prisão de Lula. Para os que creem na Lava Jato, foi uma vitória não apenas por causa de um trabalho bem feito, mas uma derrota profundamente moral de um homem cujos crimes ficaram impunes nas urnas.

De lá para cá, Moro, de Super-Homem se transformou no incrível homem encolhido. Moro se juntou ao governo de Bolsonaro como ministro da Justiça quase tão logo o resultado foi anunciado. Ele, no entanto, não previu que os políticos enfrentam reveses que um juiz nunca enfrenta — particularmente quando aliado a um político tão instável quanto Bolsonaro. O novo ministro já havia passado por uma série de humilhações antes da mais recente: a exposição por parte do Intercept de suas mensagens com procuradores durante suas ações como juiz designado da Lava Jato.

O material é condenável e banal. Nas mensagens, Moro atua como promotor quase auxiliar, reclamando da defesa de Lula, compartilhando informações e aconselhando os próximos passos a serem dados. Essas não são as ações de um juiz imparcial e incorruptível: de fato, são em si mesmas, corrupção.

No entanto, nisso está a banalidade: todos os brasileiros sabiam, em algum nível, que Moro não era imparcial ou ético. Qualquer sinal remanescente dessa ilusão foi quebrado quando ele disse sim a um cargo no governo de Bolsonaro. Aqueles que o odeiam não estão surpresos; aqueles que o amam não se importarão.

Sergio Moro, com toda a probabilidade, sobreviverá a esse escândalo. Para Bolsonaro, Moro ainda tem utilidade, e nenhuma quantidade de cobertura negativa pode fazer com que um homem que elogia a tortura de dissidentes se sinta envergonhado. A corrupção se estende continuamente na política brasileira e, como fica óbvio com essas mensagens, isso inclui aqueles que afirmam lutar contra ela.

Talvez Lula pertença a uma cela de prisão, mas Moro não consegue ignorar o devido processo para dizê-lo. A Lava Jato, no final, era simplesmente um processo corrupto engolindo outro. Para o resto do país, não há salvadores.

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