'Lula deve estar triste por ter escolhido Barbosa'

Jornalista Hélio Chaves criticou a condução da Ação Penal 470 pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa; segundo ele, o ex-presidente Lula, que indicou o juiz para ocupar o cargo de ministro do STF em 2009, deve estar decepcionado, "não por ver correligionários presos, pela escolha em si ou pelos posicionamentos do ministro, mas por ver no que ele se transformou: uma autoridade amarga, encolerizada e um homem inebriado pelo poder dos holofotes que o arrebataram"

Jornalista Hélio Chaves criticou a condução da Ação Penal 470 pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa; segundo ele, o ex-presidente Lula, que indicou o juiz para ocupar o cargo de ministro do STF em 2009, deve estar decepcionado, "não por ver correligionários presos, pela escolha em si ou pelos posicionamentos do ministro, mas por ver no que ele se transformou: uma autoridade amarga, encolerizada e um homem inebriado pelo poder dos holofotes que o arrebataram"
Jornalista Hélio Chaves criticou a condução da Ação Penal 470 pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa; segundo ele, o ex-presidente Lula, que indicou o juiz para ocupar o cargo de ministro do STF em 2009, deve estar decepcionado, "não por ver correligionários presos, pela escolha em si ou pelos posicionamentos do ministro, mas por ver no que ele se transformou: uma autoridade amarga, encolerizada e um homem inebriado pelo poder dos holofotes que o arrebataram" (Foto: Aquiles Lins)
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247 – Não há um último degrau de moralidade a descer, em se falando do comportamento do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, na condução da Ação Penal 470. A opinião é do jornalista Hélio Chaves, em artigo publicado no blog Radio do Moreno. Segundo Chaves, para o "Supremo Barbosa", "é pouco mandar um profissional da imprensa livre chafurdar no lixo. Também é preciso desprezar nomes e arranhar biografias de quem não pense como ele."

O jornalista questionou a suspeição lançada pelo presidente do STF aos ministros Luis Roberto Barroso e Teori Zavascki, que votaram contrários à condenação do crime de formação de quadrilha de oito condenados no chamado processo do mensalão.

"Para o ministro, discordar do seu ponto de vista significa constituir uma maioria circunstancial. Esquece-se de que durante a maior parte do julgamento da AP 470, primeiro como relator e depois como presidente da Casa, agiu como um déspota, uma espécie de bússola jurídica que aponta rumos a serem seguidos, não questionados ou contrariados. Período em que também fez parte de uma maioria circunstancial."

Confira na íntegra o artigo do jornalista Hélio Chaves:

"O 'Supremo' triste

Plagiando uma atriz da qual não me recordo o nome, digo: "tenho medo". Tenho medo de homens forjados por holofotes, que surgem do nada, saem de cartolas mágicas num piscar de olhos e que, da noite para o dia são vertidos como salvadores da pátria, do mundo ou um pseudo caçador de marajás. Figuras que se transformam em seres soberbos, prepotentes, de egos inflados e que dizem ter "aquilo roxo". Se alguém viu algo parecido, sabe muito bem onde isso vai dar ou como tudo termina. Os holofotes se afastam, a luzes se apagam e produto sucumbe na escuridão.

O presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Joaquim Barbosa, deveria saber que nossa sociedade também anda muito triste e desconfiada dos políticos, de seus métodos que ainda persistem e da forma como são feitas escolhas para circunstancialmente ocupar cargos. Muito já foi dito, visto, lido e ouvido sobre o "Mensalão" e os desdobramentos da Ação Penal 470 que condenou e prendeu. O Resultado saciou temporariamente a sede dos brasileiros ávidos por justiça, principalmente ao verem trancafiados quem usufruia de foro privilegiado.

A AP 470 embrulhou e jogou na arena tubarões e peixes pequenos. Misturou no balaio cobras e lagartos, mas é sempre bom desconfiar do todo alardeado. Sem entrar no mérito da culpa, da inocência, das penas ou do tamanho do crime cometido, a justiça já foi feita. Então, cumpra-se a sentença da Lei.

Pessoas e biografias foram parar na latrina, mas não basta: e preciso que os réus continuem sendo julgados, condenados e vigiados no dia a dia, para aplacar as revoltas das massas que saíram as ruas em protesto contra a corrupção, todas as mazelas vividas e contra alguns setores da sociedade. Cidadãos que empunharam bandeiras de esperança e descrença com seus líderes, sejam eles ocupantes de postos no Executivo, Legislativo ou Judiciário. Gente que só acreditava em prisão de ladrão de galinha, passou a ver na AP 470 uma luz no fim do túnel. Ponto para a Justiça.

Estranho e bizarro, para não dizer triste, como prefere o presidente do STF, é vê-lo descer ao mais baixo degrau do comportamento civilizado da história do Supremo Tribunal Federal. Barbosa pôs sob suspeição, ao vivo e em cores, o método de escolha de seus pares para compor o time da Casa. Para ele, é pouco mandar um profissional da imprensa livre como se quer, chafurdar no lixo. Também é preciso desprezar nomes e arranhar biografias de quem não pense como ele.

Para o ministro, discordar do seu ponto de vista significa constituir uma maioria circunstancial. Esquece-se de que durante a maior parte do julgamento da AP 470, primeiro como relator e depois como presidente da Casa, agiu como um déspota, uma espécie de bússola jurídica que aponta rumos a serem seguidos, não questionados ou contrariados. Período em que também fez parte de uma maioria circunstancial.

Como presidente do Supremo, deveria saber que está circunstancialmente ocupando o trono como ministro da mais alta corte de nosso país. Não faria mal a ele uma autocrítica por também ser fruto do esquema de escolha que hora condena e que o levou ao posto. É pouco provável que o faça ou tenha ficado triste com a indicação de seu nome. Nossa sociedade vive muito triste com a formula usada para preencher funções em ministérios, em tribunais de justiça, tribunais de conta, conselhos de estatais e agências reguladoras. Pior é condenar o método e não mover uma palha para muda-lo, evitando que no futuro outros fiquem sob suspeição.

Creio que o ex-presidente Lula ao indicá-lo para o STF, quis, entre outras coisas, homenagear, reconhecer e valorizar suas raízes. Não é difícil imaginar Lula muito triste com a escolha que fez. Não por ver correligionários presos, pela escolha em si ou pelos posicionamentos do ministro, mas por ver no que ele se transformou: uma autoridade amarga, encolerizada e um homem inebriado pelo poder dos holofotes que o arrebataram. O que é muito triste e não só por uma tarde!

"Sinto-me autorizado a alertar a nação brasileira de que este é apenas o primeiro passo..."

Quem canta seus males espanta, afinal, é Carnaval!

"Tristeza
Por favor vai embora
A minha alma que chora
Está vendo o meu fim
Fez do meu coração
A sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar aquela
Vida de alegria
Quero de novo cantar... "

(Tristeza (1966) Niltinho e Haroldo Lobo)

Hélio Chaves é jornalista colaborador da Rádio do Moreno."

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