Sobre médicos, escravos e idiotas

O que querem os colunistas da mídia corporativa é que o seu discurso monológico e monolítico seja incorporado pelos cidadãos. Não está funcionando, a maioria da população já apoia o Mais Médicos

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Um surto paranoico tomou conta dos barões da imprensa brasileira desde que souberam que médicos cubanos viriam trabalhar no Brasil, em locais onde não há médicos e em que os médicos brasileiros se recusam a ir.

Sempre fiéis a levar ao campo do discurso a paranoia de seus patrões, colunistas passaram a chamar os médicos cubanos, a maioria negros, de escravos.

Por que sempre esse recurso de associar a imagem de negros à escravidão?

Porque essa é a imagem que se tem do negro, essa é a imagem que não se desgruda da mentalidade da elite racista brasileira.

A colunista da Folha de São Paulo, Eliane Cantanhêde, disse que os médicos cubanos chegaram ao Brasil em um avião negreiro. Embora eles tenham chegando em avião de carreira, trouxeram cada um a sua bagagem e vieram para trabalhar, recebendo uma remuneração que eles consideram justa.

Não há a menor possibilidade de comparação com um navio negreiro, onde os negros eram trazidos contra a vontade deles e recebiam castigos durante a viagem, muitos chegavam a morrer de suplício e fome.

Reinaldo Azevedo foi mais longe e disse que os médicos cubanos são escravos voluntários do regime de Fidel. Escravo voluntário, todos o sabemos, é um oxímoro. Mesmo que Étienne de La Boétie no eu Discurso Sobre a Servidão Voluntária tente corrigir esse paradoxo, na ordem do discurso isso é apenas um jogo de palavras. Para La Boétie "todos os homens, enquanto têm qualquer coisa de homem, antes de se deixarem sujeitar, é preciso, de duas uma: que sejam forçados ou enganados." Os médicos que chegam de Cuba, como se vê, não se encaixam nessa definição.

Escravidão é uma prática social abjeta que reifica o homem, que coisifica o ser humano, tornando-o propriedade de outro ser que se pretende desigual, ou superior. Não se deve esquecer que a escravidão é imposta pela força.

E parece mesmo que é a fórceps que esse discurso desqualificador vem sendo extraído das regiões mais profundas do conservadorismo brasileiro. O presidente do Conselho Regional de Medicina de Minas Gerais, Dr. João Batista Gomes, afirmou ao jornal Estado de Minas, no dia 23/08, que mandaria a polícia prender os médicos cubanos que estivessem trabalhando no estado, como o faz com charlatães e curandeiros.

O diabo é que dos médicos cubanos que virão para o Brasil, o que se sabe é que 84% deles têm mais de 16 anos de experiência médica, 100% já cumpriram missões em outros países, 100% deles têm especialização em medicina familiar e comunitária e 24% têm mestrado em saúde. Por que charlatães e curandeiros?

Entregue ao corporativismo, ensimesmada, a classe médica se esquece do compromisso ético de sua profissão, esquece de servir ao próximo, aliás, esquece-se de servir aos que estão distantes.

Em julho, de jalecos brancos no meio da rua, médicos gritavam em protesto: "Somos ricos, somos cultos. Fora os imbecis corruptos." Acríticos, nada dizem sobre os profissionais que envergonham a profissão, os corruptos das máfias dos atestados, os falsários dos dedos de silicones, os que batem ponto no serviço público e correm para atender os particulares, os que agem como traficantes de medicamentos da grande indústria farmacológica, os tarados Abdelmassihs, as doutoras Virgínias que matam pacientes impiedosamente etc.

Heráclito definia como idiota todo aquele que só tem aspirações próprias, que não pensa na coletividade e nem no bem comum. O idiota é incapaz de enxergar o outro, não vê nada além de si mesmo. O "idiota é quem não sai de si. Age como se nada lhe fosse dado, como se os outros só existissem para servi-lo, como se viesse dele tudo o que ele é".

O homem só deixa de ser idiota quando sai do solipsismo em que se encontra, quando repara que há no mundo muitas coisas que não dependem dele e que ele depende de muitas coisas que estão no mundo, que há outros eus com direitos iguais aos dele, que ele não existe só, que ele se faz com os outros. Que para ser integral é preciso ser com-um, como queria Heráclito.

O que querem os colunistas da mídia corporativa é que o seu discurso monológico e monolítico seja incorporado pelos cidadãos. Não está funcionando, a maioria da população já apoia o Mais Médicos. A comunicação, em tempos de internet, é dialógica, há outras vozes e outros discursos na periferia da grande imprensa. Hoje a força da comunicação é centrípeta e não mais centrífuga, ela se dá da periferia para o centro.

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