‘América Latina não é prioridade para Biden’, destaca James Green

Historiador faz balanço do governo democrata, destaca força da extrema-direita e não acredita em mudanças na política externa da Casa Branca

Joe Biden e James Green
Joe Biden e James Green (Foto: Reuters/Evelyn Hockstein | Felipe L. Gonçalves/Brasil247)
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Opera Mundi - No programa 20 MINUTOS INTERNACIONAL desta quinta-feira (23/09), o jornalista Breno Altman entrevistou o historiador, escritor e professor estadunidense James Green, especialista em temas vinculados à história brasileira e latino-americana. O especialista falou sobre os primeiros oito meses do governo de Joe Biden e disse que a América Latina não é prioridade para Washington.

“Infeliz ou felizmente, a América Latina não é prioridade para Biden nesse momento. Isso não significa que, na medida do possível, ele não vá tentar aumentar sua influência na região por meio do soft power. A pressão sobre Venezuela, Nicarágua e Cuba vai continuar”, ponderou o professor.

Com relação ao Brasil, ele acredita que Biden quer manter certo distanciamento político, “pois quem ele representa quer fortalecer laços econômicos com o Brasil, então Biden não se alia claramente a Bolsonaro, mas não rompe com o Brasil”.

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Pensando nas eleições de 2022, para os democratas o ideal é que se estabeleça um governo da chamada “terceira via”, de acordo com o professor, mas “acho que eles vão se ajustar a Lula”.

“Não acho que Biden teria simpatia por Lula, mas aceitaria um governo seu. Alguns podem achar minha análise ingênua, mas acho que na conjuntura atual, não tentarão derrubar um governo petista”, refletiu.

Por outro lado, Green não descarta tentativas de desestabilização de um governo progressista, principalmente se o Brasil voltar a se reaproximar de outras nações emergentes como a China. 

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“Tudo depende das forças internas brasileiras. Se a terceira via não tiver nenhuma presença eleitoral, se a esquerda continuar mobilizada, vai ser muito difícil que tentem interferir num governo de Lula. Eles tentarão influenciá-lo para não ter uma aliança direta com a China, mas não acho que farão nada”, reforçou.

Bolsonarismo e Trumpismo

Comparando a situação brasileira à estadunidense, Green alertou que, mesmo se for vencido nas urnas, o bolsonarismo não acabará, assim como o trumpismo, que não desapareceu quando Donald Trump foi derrotado.

“Bolsonaro, aliás, sabe que vai perder as eleições, então está preparando o roteiro para mostrar para a sua base que ainda é uma força política no país, como fez Trump, que ainda é a principal liderança do Partido Republicano”, argumentou.

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Além disso, mesmo com o retorno dos democratas à Casa Branca, o Senado continua totalmente dividido, com os senadores republicanos bloqueando as iniciativas democratas e boicotando as políticas de Biden.

Isso pode representar um grave risco para Biden nas próximas “midterms”, quando a Câmara dos Deputados norte-americana renova um terço de suas cadeiras. Historicamente, o partido que ocupa a presidência perde o controle do Congresso nas eleições de meio termo.

“Vão ser eleições muito disputadas. Vão ajudar a popularidade de Biden as medidas de combate à pandemia, mas os orçamentos que ele quer aprovar estão sendo bloqueados pelos republicanos e alguns democratas conservadores. Se ele não conseguir aprovar nada e encontrar uma saída para as questões econômicas do país, vai ter um grande problema para conseguir popularidade até 2022”, defendeu Green

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Oito meses de Biden

O professor discorreu sobre tudo que fez Biden até o momento, em oito meses de mandato. Segundo ele, o grande diferencial de seu governo foi ter mudado a maneira de se relacionar com o povo, principalmente comparado a Donald Trump, “que mentia e precisava ficar inflando o próprio ego”.

“Em termos políticos, Biden está tentando responder à sua base negra, latina e sindical. Mas algumas de suas medidas não estão fazendo isso, como a sua política migratória totalmente republicana e desumana”, apontou. 

O Plano Biden é outra novidade. Até o momento, o presidente só conseguiu aprovar o capítulo que diz respeito à infraestrutura, encontrando resistência para aprovar os capítulos sobre meio ambiente e infraestrutura social. Green, que disse ter votado em Biden, apesar de não apoiar seu governo, se mostrou otimista de que o mandatário vá conseguir aprovar seu plano, negociando uma redução do orçamento.

Muitos analistas comparam o plano do democrata com o New Deal, de Roosevelt. Green vê a semelhança apenas no sentido de que ambos são de cunho reformista, não de ruptura. Apenas um partido verdadeiramente de esquerda poderia romper com o neoliberalismo nos EUA, “e o Partido Democrata não é de esquerda, apesar de ter membros ali que são realmente socialistas”.

O problema, como o professor explicou, é que o sistema eleitoral norte-americano não permite que surjam outros partidos, de modo que candidatos de esquerda precisam se candidatar pelo Partido Democrata, como o fez Bernie Sanders. 

“A gente precisa de uma revolução para criar novas formas de eleição porque, mesmo que eu não tenha muita simpatia pelo Partido Democrata, eu não tenho outra alternativa, vivemos em um sistema parcialmente democrático, com eleições que funcionam de forma absurda”, defendeu.

Ele destacou que o sistema político dos EUA ainda é reminiscente da época da independência, criado para beneficiar os pequenos Estados rurais e conservadores: “Há uma tentativa de ser democrático, temos tradições democráticas, mas tudo isso faz parte da construção de um mito. Assim como no Brasil existe o mito da democracia racial, nos EUA existe o de que somos a maior democracia do mundo”.

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