Bolsonaro e Trump têm discurso e estratégia combinados contra a China

Na pauta de Jair Bolsonaro e Donald Trump, há um casamento de discurso contra a China, envolvendo temas como vacina, 5G e comunismo. Reacionarismo e submissão de Bolsonaro estão a serviço da estratégia de Trump

Donald Trump, Jair Bolsonaro e Xi Jinping
Donald Trump, Jair Bolsonaro e Xi Jinping (Foto: Reuters)
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247 - Jair  Bolsonaro e Donald Trump andam de mãos dadas na retórica e na ação contra a China. O jornalista Jamil Chade, registra que "raramente uma semana passa sem que algum membro do governo de Jair Bolsonaro faça uma crítica à China".

A retórica e a ação contra a China está presente no conjunto da atividade diplomática no Itamaraty, seja pública ou nos bastidores. 

"O governo brasileiro aderiu de forma explícita a uma ofensiva de Donald Trump, em possível fim de mandato, para frear a expansão chinesa, seja no comércio, em sua influência em entidades internacionais, na questão tecnológica ou mesmo em vacinas", destaca Jamil Chade em sua coluna no UOL.

"A percepção americana é de que o que está em jogo hoje é uma disputa pela hegemonia nos próximos 30 anos. Negociadores que circulam pela Casa Branca confirmaram à coluna que, nesse aspecto, o momento é o de construir muros para impedir que o eixo do poder se transfira definitivamente para a Ásia", aponta.

O experiente jornalista, analista de política internacional destaca que essas mesmas fontes confirmam que, na administração americana, o papel do Brasil é considerado como estratégico na América Latina e nos organismos internacionais diante de um cenário de avanço da China em um mundo pós-pandemia.

O governo de Jair Bolsonaro se presta a desempenhar esse papel a despeito de a a China ser o maior parceiro comercial do país e seu maior investidor externo. 

Dados oficiais do governo brasileiro indicam que, entre janeiro e setembro de 2019, o saldo positivo na balança comercial brasileira era de US$ 35 bilhões. Desses, US$ 20 bilhões vinham da China. Naquele momento, o Brasil mantinha um déficit pequeno com os Estados Unidos (EUA), de menos de US$ 400 milhões. Hoje, o déficit do Brasil com os EUA superou a marca de US$ 3 bilhões. 

O Brasil está incorporado na estratégia dos Estados Unidos contra  a China, aliando-se com a superpotência do norte em temas sensíveis, como a vacina contra a Covid-19, o 5G e na pregação do anticomunismo, adotando o ponto de vista de Trump de que a República Popular da China e o Partido Comunista constituem uma "ameaça à democracia" e à paz no mundo. 

"Um dos aspectos mais críticos desse confronto é a tecnologia de comunicações, e a disputa por contratos de 5G seria apenas a primeira fase de uma crise maior entre as duas potências. O Brasil, portanto, é parte dessa guerra, ao ser cobiçado por ambos", aponta Jamil Chade. 

Quanto à vacina, o jornalista informa que na OMS (Organização Mundial da Saúde), "o Brasil também se aliou a uma proposta americana cujo objetivo é o de frear a influência chinesa na agenda de saúde global". A rejeição à vacina chinesa, portanto, faria parte dessa estratégia. "Não por acaso, qualquer aproximação entre o Ministério da Saúde e os chineses era alvo de sabotagem por parte de outras pastas do Executivo. À coluna, o ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, confirmou que cabia à diplomacia de Bolsonaro 'azedar' a relação sempre que o então chefe da Saúde fazia um gesto positivo. 'O Itamaraty jogava lenha na fogueira' ". 

Quanto à luta anticomunista, Chade enfatuza que se trata de uma forma encontrada para minar o avanço chinês e transformar o combate econômico e tecnológico em uma guerra cultural contra o comunismo. "Em diferentes palestras e textos, o chanceler Ernesto Araújo fez alertas neste sentido. Um dos momentos que mais gerou a irritação internacional foi quando ele usou uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para comemorar a derrota do nazismo para alertar sobre o perigo vermelho".

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