Brasileira morta em atentado terrorista em Nice deve ser enterrada na França, diz parente da vítima

Trabalhando como cuidadora de idosos, Simone de Barreto Silva imigrou para a França ainda adolescente quando integrava a companhia de dança Oba Brasil. "Era uma mulher guerreira", afirmou sua prima Ana Paula

(Foto: REUTERS / Simone Barreto Silva)
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Sputnik Brasil - Nesta quinta-feira (29), o governo brasileiro confirmou que a brasileira Simone de Barreto Silva está entre as vítimas mortais do atentado terrorista de Nice. Artista, cozinheira e cuidadora, Simone deixa três filhos e saudades na comunidade brasileira na França.

Na noite desta quinta-feira (29), o Ministério das Relações Exteriores brasileiro confirmou que uma das vítimas do atentado à Basílica de Notre-Dame de Assunção é brasileira.

Nascida em Salvador, Simone Barreto Silva, que tinha dupla cidadania – francesa e brasileira, tinha 44 anos e deixa três filhos.

Chefe de cozinha, Simone era uma figura conhecida pela comunidade brasileira na França, por participar ativamente da promoção de festivais culturais em Paris e em Nice.

"Perdemos uma alegria de vida na família", disse a prima da vítima, Ana Paula Roudeilla, à Sputnik Brasil. "Uma irmã, uma prima, uma amiga, uma mãe [...] um sorriso na nossa família."

Segundo ela, a família ainda está "em estado de choque" e os três filhos de Simone, de 7, 10 e 14 anos teriam sido encaminhados a atendimento psicológico em hospital da cidade.

O enterro de Simone deve ser celebrado na França, que atualmente se encontra em regime de lockdown, em função da pandemia de Covid-19.

"Seria uma missão impossível tentar ir para o Brasil. Os filhos dela são todos daqui e são pequenos, então faremos tudo aqui mesmo", disse Roudeilla.

"Simone era uma pessoa maravilhosa e sua morte machucou todos aqui em Nice. Ela merece, sim, todas as homenagens", disse a amiga da vítima Suzanne Barreiro, à Sputnik Brasil.

"A gente não entende como isso pode acontecer", disse Barreiro. "Ficamos na insegurança de saber que uma coisa dessas aconteceu com uma amiga nossa."

"Ainda estamos sem acreditar e revoltados [...] Ninguém consegue se expressar. Ficamos com a cabeça baixa, sem palavras", relatou Barreiro.

Felizmente, a família de Simone conta com uma rede de apoio de amigos e familiares na França.

"Como organizamos as festas culturais brasileiras, somos uma família conhecida", disse Roudeilla.

Todos os anos, Simone dançava na Ala das Mulheres no evento cultural brasileiro Resistência da Lavagem da Madeleine, em Paris.

Em Nice, onde residia com seus três filhos e suas irmãs, Simone e sua família organizavam a Festa de Iemanjá da cidade.

"Toda comemoração que tinha aqui da comunidade brasileira ela estava conosco", lembrou Barreiro. "Cada vez que a gente se via era uma alegria, um café, uma comemoração."

Atualmente trabalhando como cuidadora de idosos, Simone imigrou para a França ainda adolescente quando integrava a companhia de dança Oba Brasil. "Era uma mulher guerreira", concluiu sua prima Ana Paula.

O atentado

Nesta quinta-feira (29), Simone sofreu um atentado à faca enquanto aguardava o início da primeira missa matutina da Basílica de Notre-Dame de Assunção, no centro de Nice.

Um homem identificado pela procuradoria antiterrorismo francesa como Brahim Aioussaoi atacou Simone e outros fiéis, a aproximadamente 09h00 no horário local (05h00, no horário de Brasília).

De acordo com o promotor antiterrorismo da França, Jean-François Ricard, o agressor carregava consigo uma cópia do livro sagrado do islã, o Alcorão, dois telefones, e três facas.

Gravemente ferida, Simone buscou refúgio em um restaurante próximo à igreja. O dono do estabelecimento disse à Radio France Internacional que seu filho e um funcionário abrigaram a brasileira.

"Ela atravessou a rua, toda ensanguentada, e meu irmão e um dos nossos funcionários a recuperaram, colocaram-na no interior do restaurante, sem entender nada, e ela dizia que havia um homem armado dentro da igreja", disse Brahim Jelloule.

De acordo com testemunhas ouvidas pelo canal BFMTV, antes de morrer, Simone teria dito: "Digam a meus filhos que eu amo eles."

Segundo Jelloule, Simone faleceu cerca de uma hora e meia depois do ataque. A família teria sido notificada somente às 18h30 no horário local (14h30, no horário de Brasília).

Muçulmano, Jelloule se diz indignado com o ataque perpetrado na basílica. "Isso não é o islã. Eu conheço o Corão de cor, e não é isso que ele prega", disse.

Em declaração, o governo brasileiro informou que "deplora e condena veementemente o atroz atentado ocorrido hoje [29] dentro da Basílica de Notre-Dame de Nice, na França".

O Ministério das Relações Exteriores afirmou que o "Brasil expressa seu firme repúdio a toda e qualquer forma de terrorismo, independentemente de sua motivação, e reafirma seu compromisso de trabalhar no combate e erradicação desse flagelo, assim como em favor da liberdade de expressão e da liberdade religiosa em todo o mundo".

Terrorismo

Além da brasileira, o ataque vitimou uma senhora de 60 anos, que teria sido praticamente degolada, e Vicent Loques, de 55 anos, que deixa duas filhas.

Após o ataque, o agressor teria tentado se esconder em um banheiro dentro da igreja, informou o jornal francês Le Parisien. O agressor foi baleado pela polícia e encontra-se hospitalizado. 

O chefe da procuradoria francesa antiterrorismo confirmou que o agressor portava documentos da Cruz Vermelha italiana em nome de cidadão tunisiano nascido em 1999.

Ele teria chegado à Europa pela ilha italiana de Lampedusa no dia 20 de setembro e se dirigido a Paris no dia 9 de outubro.

Câmeras de segurança mostram o homem chegando à estação de trem de Nice às 06h47 (02h47, no horário de Brasília). Ele troca de sapatos, vira o casaco do avesso e dirige-se à igreja, onde mudaria a vida das famílias das vítimas e da comunidade de Nice para sempre.

Em nota, o Conselho Francês da Fé Muçulmana condenou o ataque e expressou sua solidariedade às vítimas e suas famílias.

No mesmo dia (29), outros dois ataques foram registrados: um em Montfavet, na França, e outro na cidade saudita de Jeddah, onde um segurança do consolado francês foi atacado.

Os ataques ocorrem após dias de protestos em países de maioria muçulmana contra o presidente da França, Emmanuel Macron, que defendeu a publicação de caricaturas do profeta Maomé, prática considerada blasfêmia por muitos muçulmanos.

 A declaração de Macron veio após o professor de história francês, Samuel Paty, ter sido degolado por um extremista islâmico, por exibir caricaturas do profeta durante uma aula na qual debatia a liberdade de expressão.

A redação da Sputnik Brasil expressa suas mais sinceras condolências aos amigos e familiares da vítima.

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