Bresser Pereira aponta risco de golpe na Venezuela

"É preciso concluir que um golpe militar, como aquele intentado em 2002, é provável. Com a diferença de que, desta vez, não há um Hugo Chávez para ser trazido de volta ao poder pelo povo, como aconteceu então, mas um sucessor que está longe de possuir seu carisma e sua força vital", diz o cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira

"É preciso concluir que um golpe militar, como aquele intentado em 2002, é provável. Com a diferença de que, desta vez, não há um Hugo Chávez para ser trazido de volta ao poder pelo povo, como aconteceu então, mas um sucessor que está longe de possuir seu carisma e sua força vital", diz o cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira
"É preciso concluir que um golpe militar, como aquele intentado em 2002, é provável. Com a diferença de que, desta vez, não há um Hugo Chávez para ser trazido de volta ao poder pelo povo, como aconteceu então, mas um sucessor que está longe de possuir seu carisma e sua força vital", diz o cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira (Foto: Leonardo Attuch)
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247 - Em artigo publicado nesta quinta-feira, o cientista político Luiz Carlos Bresser Pereira aponta risco de golpe na Venezuela para depor Nicolas Maduro. Leia abaixo:

Crise econômica aumenta a chance de golpe

Erros na política de Hugo Chávez criaram oportunidade para a oposição liberal pedir a queda de Nicolás Maduro

LUIZ CARLOS BRESSER-PEREIRA

Nas bairros ricos de Caracas, jovens fazem manifestações gritando "fora o governo", ou então, conforme um de seus líderes, um ex-prefeito cassado por desvio de recursos públicos, adotam o slogan "A Saída", pedindo a derrubada do governo.

Enquanto isso, nas favelas e bairros pobres, entre aqueles que foram beneficiados com educação, saúde e transferências de renda pelo governo Chávez, os jornais informam que o que se vê é tranquilidade e o culto a Hugo Chávez, morto há um ano.

No comércio, temos a falta de bens importados, que vão dos automóveis ao papel higiênico, o desabastecimento nos supermercados e a inflação que aumenta. O que alimenta a demanda de golpe de Estado pela classe média e pela classe alta.

Diante desse quadro, qual a probabilidade de que tenhamos o clássico "golpe liberal e democrático" que é parte da história política das sociedades pré-industriais na América Latina para enfrentar governos democráticos e populistas como foi o de Chávez?

No Brasil, nós vivemos pela última vez essa experiência nos golpes de Estado feitos por liberais nos anos 1950 e 1960. Hoje, é um país plenamente capitalista, e esse tipo de golpe está descartado e a democracia, consolidada.

Não é o caso da Venezuela, onde a democracia é débil. Para que seja democrática, é necessária mais demanda popular e pressão conjunta de EUA e Brasil que estrutura social e política interna.

Antes de Chávez, havia na Venezuela uma oligarquia liberal que se revezava no poder e dividia as rendas do petróleo entre seus membros. O governo Chávez mudou esse quadro ao ampliar radicalmente os beneficiários das rendas do petróleo. Foi um governo populista de esquerda que usou os preços altos do petróleo para realizar uma forte distribuição de renda.

Mas não conseguiu superar a maldição dos recursos naturais ou a doença holandesa e, portanto, não conseguiu o desenvolvimento econômico do país.

Pior do que isso, praticou o populismo fiscal (a irresponsabilidade no gasto público) e o populismo cambial: a irresponsabilidade no gasto total do país, expresso nos deficit em conta corrente, que reduziram as reservas internacionais do país. Um absurdo sempre praticado por seus antecessores, mas que ele deveria ter sabido evitar.

Morto Chávez, seu sucessor democrático viu-se imerso na crise econômica. Está tentando resolver a apreciação exagerada do bolívar com um câmbio duplo, mas tem que fazer forte ajuste fiscal. O que não é provável que faça.

A crise econômica criou a oportunidade desejada pela oposição para, de forma antidemocrática, demandar a sua queda, com apoio no exterior. Demandar a quem? Só pode ser ao Exército. O que a oposição deseja é um golpe militar, mas, virtuosa, se declara democrática e acusa o governo de autoritário.

Diante de tudo isso, é preciso concluir que um golpe militar, como aquele intentado em 2002, é provável. Com a diferença de que, desta vez, não há um Hugo Chávez para ser trazido de volta ao poder pelo povo, como aconteceu então, mas um sucessor que está longe de possuir seu carisma e sua força vital.

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