Chiqui Ávalos estreia como colunista do 247

Escritor paraguaio e um dos principais intelectuais do continente, ele abordará temas ligados ao Mercosul e à política latino-americana; na estreia, uma análise precisa sobre o provável retorno de Michelle Bachelet à presidência chilena

Chiqui Ávalos estreia como colunista do 247
Chiqui Ávalos estreia como colunista do 247

247 - O escritor paraguaio Chiqui Ávalos, um dos principais intelectuais do continente, estreia nesta quinta-feira sua coluna no 247. No espaço, Chiqui abordará temas ligados ao Mercosul e à política latino-americana. Para estrear, uma análise precisa sobre o provável retorno de Michelle Bachelet à presidência chilena. Leia:

MICHELLE ESTÁ DE VOLTA

Por Chiqui Ávalos

(Santiago, Chile – Especial para o Brasil_247) O Chile nunca foi América do Sul como seus vizinhos. Ou nunca quis ser. Sempre foi diferente, a começar pelo castelhano ruim que fala e a orgulhosa relação direta que mantém com a Europa. Suíços, alemães, ingleses, escandinavos, fincaram raízes por todo país. Na cultura, na pujante economia, na estupenda culinária, na vida dessa gente que, definitivamente, é diferente de nós outros. Chileno sai de Santiago e não vai para Buenos Aires, Assunção, Lima ou São Paulo. Nos sobrevoa indo para Frankfurt ou Londres. Se pudessem, os chilenos se descolavam do continente e iam ser uma rica ilha do pacífico sul. Como não podem nos aturam como vizinhos e, quando os visitamos, nos tratam com fria educação, sorrisos de canto de boca e olhares desconfiados. Nos tratam bem, mas cobram caro. É o Chile.

Na praça diante do Palácio de La Moneda, a estátua de Salvador Allende. Jovens e velhos param respeitosamente diante do mártir das esquerdas latinas e o observam em grandes silêncios. Não tivesse sido vítima da mais vil das quarteladas e sucedido por um regime criminoso e repudiado pelos democratas de todo o mundo, Allende facilmente seria conhecido como o mais fraco dos presidentes num país reconhecido pela boa qualidade dos que o antecederam e o sucederam no comando do país. Ah, a história e seus caprichos. A poucos passos dalí, eternizado em outro monumento, o austero e respeitado Jorge Alessandri, um bom ex-presidente, filho e neto de também ex-presidentes, uma espécie de ícone intocável da direita chilena. Elegante e solteirão, com fama de homossexual enrustido, a cada ano na data de seu aniversário sofre a deliciosa provocação do grupo OpusGay que deposita vistosa corbeille de rosas vermelhas aos seus pés. Tirante o deboche, o gesto mostra como o velho e conservador Chile evolui em seus hábitos, ainda que bastante mais devagar que seus vizinhos.

Santiago é uma cidade encantadora, mas te adoece. Plantada num vale e espremida entre duas cordilheiras, a dos Andes e a do Mar, consegue ser uma linda cidade e, ao mesmo tempo, uma das mais poluídas do planeta. Os ventos não circulam na fria metrópole, impedidos pelos colossos que a circundam. Anos atrás, em uma de minhas vindas por aqui, discutiam apaixonadamente a proposta de um "engenheiro japonês" para acabar com a eterna fumaça cinzenta pairando solerte no ar pesado e rarefeito: abrir dois imensos buracos nas montanhas laterais e, com perfeição de incríveis cálculos matemáticos, precisão milimétrica e sapiência nipônica, "encanar" o vento que passaria a lufar sobre Santiago salvando-a das partículas assassinas do monóxido de carbono. Causou furor, todavia a obra jamais foi feita, é claro. Nunca soube se o tal japonês era um gênio incompreendido ou um perfeito embusteiro.

Difícil acreditar que num país conservadoríssimo e católico, onde senadores, ministros e grandes empresários se curvam para beijar a mão do Cardeal num Te Deum televisionado, uma mulher que foi casada três vezes, declaradamente socialista e agnóstica, esteja às vésperas de ser presidente da República pela segunda vez. Só um acidente de percurso, algo inimaginável até aqui, pode impedir que a médica Michelle Bachelet passe mais uma temporada no Palácio de La Moneda. E precisa ser um acidente de proporções andinas, pois os chilenos, tão frios e desconfiados, abrem a guarda e o sorriso quando o assunto é "la gordita".

Não existe em Michelle o dissimulado populismo da viúva de Kirchner, muito menos a não dissimulada rispidez de Dilma Rousseff. Porém – e aí está sua força – la Bachelet vale por duas. Jamais perde o sorriso franco ou altera o tom ameno de voz, mas ninguém tem dúvida alguma sobre quem manda em Michelle: ninguém. Sua mãe, a arqueóloga Angélica Jeria, confidente e conselheira, é tão discreta quanto a filha, mas nem ela exerce influência sobre Michelle.

Filha de um destacado general legalista da Força Aérea, preso após o golpe que derrubou Salvador Allende, a ex (e provável) futura presidente perdeu o pai após torturas num campo de prisioneiros na fria patagônia. Ela e a mãe foram presas e exiladas na Austrália. Michelle, que já havia se formado em medicina no Chile, especializou-se em cirurgia pediátrica em Berlim e Leipzig, na extinta Alemanha Oriental. Lá nasceu Sebastian, seu filho mais velho.

Macarena, nossa amiga comum, entre uma e outra taça de vinho no folclórico bar Ligúria, no coração de Providência (o bairro emblemático da classe média alta com aspirações à riqueza), traça rápido perfil de sua colega de profissão: "Michelle é uma das pessoas mais exigentes que conheci em toda vida, mas jamais a vi alterar a voz ou tratar mal a qualquer pessoa, pois também é uma das mais simpáticas e carinhosas".  Amiga desde a juventude da ex-presidente, ela recorda sua trajetória fulminante no governo de Ricardo Lagos, no início da década passada: ministra da Saúde e, depois, ministra da Defesa. "Os militares não tiveram tempo de achar que era uma provocação do Lagos. Michelle vestiu um uniforme camuflado e saiu inspecionando as unidades de norte a sul, sorridente, mas altiva. Foi um show! Todos perfilados batendo continência para a filha do companheiro que eles mesmos mataram. E ela fria, sorridente, impecável. Michelle eletrizou o país e conquistou o respeito até dos milicos".

Na campanha, duríssima, disputou voto a voto com o popular ex-prefeito de Santiago Joaquin Lavín (UDI) e o senador Sebastián Piñera (Renovación Nacional), o mais rico empresário do país. Apoiada pelos partidos da "Concertación", o Democrata-Cristão e o Socialista, foi para o segundo turno e precisou dos votos da extrema-esquerda e dos ecologistas para derrotar por 53% a 46% o dono da LAN-Chile e de empresas que vão de emissoras de TV até um dos melhores hospitais do país. Foi uma candidata surpreendente. Sem nunca ter disputado uma única eleição, compareceu a todos os debates e os venceu com evidente vantagem, além de percorrer a curiosa geografia chilena, de ponta a ponta, aldeia por aldeia, ilha por ilha, das glaciais do sul ao deserto de Atacama, com seu jeito ao mesmo tempo maternal e firme. Incansável, organizada, disciplinada e fria. Especialmente fria na perseguição dos seus objetivos.

O primeiro teste de fogo foi no funeral do ex-ditador Pinochet. Michelle não compareceu, não decretou luto, não deu qualquer declaração à imprensa. Desconheceu com calculada frieza. Sua ministra da defesa foi, já que se enterrava um oficial general. Entretanto, um neto do genocida, capitão do Exército, lê um discurso arrogante e desafiador em homenagem ao vovô. Poucas horas depois, no mesmo dia e com o defunto ainda fresco, Bachelet simplesmente o expulsou das Forças Armadas chilenas. Expulsou e pronto. E ninguém disse nada contra o gesto duríssimo da simpática e sorridente "gordita". Apenas se confirmou a desconfiança de todos: tratava-se de uma mulher de inabalável firmeza de atitudes e imensa coragem pessoal. Todos ficaram surpresos, menos os militares, que já a conheciam desde o Ministério da Defesa. Conheciam, respeitavam e não brincavam com ela.

Seus dois primeiros anos de governo foram difíceis, mesmo herdando um Chile renovado pelo excelente governo feito por Ricardo Lagos, que o transformou em um canteiro de grandes obras de infraestrutura. O país havia se tornado uma Nação rica, talvez a mais rica, proporcionalmente, da América do Sul. Sequer entraram para o Mercosul, achegando-se ao NAFTA e – uma vez mais – olhando para a Europa como parceira preferencial. A dívida social era extremamente pesada, com milhões de chilenos na pobreza. Os estudantes, historicamente belicosos nessa franja do pacífico, não lhe deram sossego. Milhares foram às ruas em ruidosas manifestações que ela reprimiu. Macarena, amiga minha e de Bachelet, é definitiva e cortante: "Se você colocar Harvard, Cornell, Yale, Oxford e a Sorbonne aqui no Chile, os estudantes chilenos vão dizer que elas não prestam".

Porém, "la gordita" e seus terninhos discretos, sorriso com as gengivas à mostra e permanente alegria, estava destinada a entrar para a história dos chilenos como uma notável presidente. Logo ela, uma mulher separada do terceiro marido e no mais machista dos países da América do Sul... Os dois últimos anos de seu governo foram, apenas e tão somente, consagradores. Uma economia fervilhante, políticas sociais de amparo aos que viviam abaixo da linha da pobreza, às crianças e aos idosos com amplo sucesso, uma equipe de governo afinadíssima, com metade dos ministérios ocupada por mulheres. A popularidade disparou. Não por obra de arroubos populistas. Por sinal, a polida Michelle não os tem. Mas aconteceu o que os expert's em pesquisas chamam de "o jacaré abrir a boca": a avaliação negativa do governo (que já era pequena) despencou, enquanto a positiva chegava aos píncaros, ultrapassando a do carismático brasileiro Lula e a do belicoso colombiano Álvaro Uribe, outros dois campeões de popularidade e aprovação.

Em março de 2010 ao passar a faixa presidencial para o megaempresário Sebastián Piñera, a quem havida derrotado na eleição anterior, Michelle exibia o mesmo e emblemático sorriso tão conhecido dos chilenos, só que com mais rugas ao lado dos olhos e o rosto quase sempre sem maquiagem estava bem mais vincado. Entretanto, o que "la gordita" exibia mesmo eram inacreditáveis 84% de aprovação contra míseros 9% dos que não a apoiavam. Que tal?

Michelle afivelou as malas e foi para Nova York, trabalhar na ONU, viajando pelo mundo como a principal figura da nascente 'United Nations Women'. Dominando com perfeição cinco idiomas, tirou leite da pedra e colocou a questão da mulher de uma forma mais consistente na agenda das Nações Unidas. E, principalmente, ficou longe, longe, muito longe do Chile, assistindo de camarote ao inesperado fracasso do governo de Piñera, eleito com a única e ridícula credencial de "maior empresário do país e um dos homens mais ricos do mundo", que deu vazão a libido primeiro-mundista e um evidente deslumbramento da classe média. Primeiro presidente de centro-direita depois de quatro (bons) presidentes eleitos pela "Concertación" ao impor sucessivas e dolorosas derrotas aos órfãos de Pinochet, Piñera chegou lá brandindo sua competência como gestor. A bem da verdade, ele sempre manteve asséptica distância do repulsivo tirano, tendo inclusive apoiado a campanha do "No" no plebiscito que enfraqueceu a ditadura nos anos 80. Mas, surpreendentemente, colecionou fracassos administrativos, expôs seu mandato à interminável ciranda de ministros que entram e saem sem que jamais encontrem o segredo de realizar uma gestão tão boa e eficiente quanto as de Patrício Aylwin, Eduardo Frei, Ricardo Lagos e, principalmente, da gorduchinha que o antecedeu e, muito provavelmente, o substituirá.

Sebastián Piñera teve alguns méritos. Não contemporizou a extrema-direita em momento algum. Negociou quando possível e cedeu o necessário com os irascíveis estudantes chilenos. Manteve o ritmo ascendente da economia e conseguiu não retroceder nos avanços alcançados. Comportou-se com correção e dignidade ao longo de seu mandato. Mas daí para um governo competente como o de Lagos, ou brilhante como o de Bachelet, ou respeitadíssimo como o de Aylwin... Nada a ver. Talvez o maior dos méritos do megaempresário seja o de ter desmoralizado cabalmente a tese ridícula de que os homens que sabem ganham dinheiro e argamassar fortunas incalculáveis, construindo impérios empresariais e figurando nas listas da Forbes ou da Fortune, serão grandes presidentes. Podem ter bons olhos para balancetes e pregões de Wall Street, mas são cegos para aposentados e crianças carentes. "Não raro, esses capitalistas vão ao cardiologista só para mostrar que tem coração", ironizava meu saudoso amigo, o jornalista e escritor paraguaio Hélio Vera, um gênio da raça.

Nas cercanias do La Moneda, no movimentado e barulhento centro da capital chilena, os primeiros sinais da campanha eleitoral. Nada da direita. O popular Laurence Golborne, ministro das Obras Públicas, um jovem e articulado engenheiro de 51 anos, com impressionantes 75% de aprovação num governo que acumula índices inversamente negativos, era o mais forte e quase unânime candidato da centro-direita. Era. Poderia, quem sabe, causar algum empecilho à volta de Bachelet. Poderia. Em fins de abril, tanto por obra de denúncias de irregularidades em empresas das quais foi diretor quanto pelas pesquisas que se renovam com a ex-presidente firme como uma rocha no primeiro lugar das preferências do eleitorado, Golborne arquivou seu sonho e o escolhido pode, talvez, ser o ex-senador Andrés Allamand, certamente a mais qualificada e decente figura da rançosa direita chilena. Certamente, vai ganhar muita experiência...

A direita, indiscutivelmente ainda forte, está vivendo o seu outono existencial em pleno outono chileno. Certa feita Pinochet, num arroubo de sinceridade, declarou que no Chile sequer uma folha caia no chão sem que ele ficasse sabendo. Pois as belas e largas alamedas – aquelas mesmas que rechearam de lirismo o último e histórico discurso de Allende naquele La Moneda em chamas – estão cobertas de folhas amarelecidas dos plátanos canadenses que cobrem toda Santiago, e a direita sequer sabe o nome de seu candidato na duríssima tarefa de perder para "la gordita".

Chiqui Ávalos é jornalista e escritor paraguaio. Foi correspondente do jornal ABC Color em Paris e é autor do best-seller "La Otra Cara de HC"

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