Como a Venezuela tem contido a pandemia em meio às sanções feitas pelos EUA

Nem por um minuto durante esta pandemia os Estados Unidos pararam de tentar derrubar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela, escreve Vijay Prashad, historiador e jornalista indiano

Pandemia na Venezuela
Pandemia na Venezuela (Foto: Manaure Quintero/Reuters)
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Por Vijay Prashad - Nem por um minuto durante esta pandemia os Estados Unidos pararam de tentar derrubar o governo de Nicolás Maduro na Venezuela. Um elemento de crueldade perpassa a política dos Estados Unidos que, por seu regime de sanções, impede a Venezuela de abrir o comércio de seu petróleo para importar equipamentos médicos essenciais na luta contra a cadeia de contaminações e pela cura do coronavírus.

Bilhões de dólares do governo venezuelano estão retidos em bancos do mundo no Atlântico Norte, dinheiro que o presidente Maduro afirma ser necessário para combater o coronavírus. Apesar do governo venezuelano reiterar que o valor bloqueado pelo Banco da Inglaterra pode ser entregue às Nações Unidas para comprar bens para o país bolivariano, o governo britânico se recusa a liberar os fundos.

Apesar disso, o povo venezuelano tem sido capaz de manter baixa a taxa de contaminação no país, e seus trabalhadores da área médica têm sido capazes de ajudar na recuperação de um grande número das pessoas contaminadas.

A ex-embaixadora venezuelana no México, María Lourdes Urbaneja Durant, foi a segunda ministra da Saúde do governo do ex-presidente Hugo Chávez. Ela se formou nas áreas de medicina social e saúde pública, conhecimento que a tornou uma líder natural no esforço da Revolução Bolivariana mudar a base do atendimento médico do setor privado para o público.

Em meados de outubro, falei com a Embaixadora Urbaneja, que deixou seu posto na embaixada no México no ano passado para voltar à Venezuela, onde tem resistido a tempestade desta pandemia.

Ela me informou que a Venezuela tem sido capaz de enfrentar o desafio da pandemia por causa da "participação do povo" em todos os aspectos da luta contra a covid-19. A participação popular é, segundo Urbaneja, "um pilar da Revolução Bolivariana", e pode ser vislumbrada na forma como as organizações populares estão ajudando com testes e rastreamento de contatos, assim como na manutenção das funções básicas da vida diária.

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O governo desenvolveu a plataforma digital patria.org, onde 18 milhões de venezuelanos (de uma população de 28 milhões) participaram de pesquisas sobre o impacto do vírus e sobre suas necessidades nestes tempos difíceis; este processo permitiu ao governo direcionar seus recursos para as comunidades mais afetadas. A Venezuela beneficiou-se do apoio material da China, Cuba, Rússia e Turquia, assim como da Organização Pan-Americana da Saúde e da Organização Mundial da Saúde.

Medicina Social

Desde 1999, quando Chávez se tornou presidente, a Revolução Bolivariana tem lutado para criar um robusto setor de saúde pública. A Embaixadora Urbaneja entrou para o Ministério da Saúde como diretora de cooperação internacional, sob o comando do Dr. Gilberto Rodríguez Ochoa. O setor médico da Venezuela havia sido assaltado pelas políticas de ajuste estrutural do Fundo Monetário Internacional, com a privatização da saúde definindo o setor. Enquanto o Dr. Rodríguez Ochoa tentava fortalecer as instituições de saúde pública, os sindicatos de médicos pró-privatização tanto em hospitais públicos quanto privados resistiram às reformas; mas o governo foi inflexível em afirmar que o país precisava de um forte sistema de saúde pública.

A Embaixadora Urbaneja sucedeu ao Dr. Rodríguez Ochoa como ministra da Saúde. Veterana do Movimento Revolucionário de Esquerda na Venezuela, a Embaixadora Urbaneja estudou no Instituto de Neurocirurgia e Pesquisa Cerebral do Chile com o Professor Alfonso Asenjo Gómez de 1970 a 1973, durante o mandato do governo de Unidade Popular do Presidente Salvador Allende. Durante o golpe contra Allende, ela foi presa, libertada por um camarada quando estava sendo levada para o Estádio Chile (hoje Estádio Víctor Jara), e embarcada em um avião de ajuda humanitária de volta à Venezuela. Ela então se formou como epidemiologista na Escola Nacional de Saúde Pública (Fiocruz), no Brasil, onde teve uma participação de primeira linha quando o Brasil criou seu Sistema Único de Saúde (SUS).

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O compromisso da Embaixadora Urbaneja com a medicina social a levou à Associação Latino-Americana de Medicina Social (Alames), que ela encabeçou, e cujos conhecimentos sobre a necessidade de prestação de cuidados de saúde onde as pessoas vivem definiram sua abordagem. A criação da Misión Barrio Adentro em 2003 levou à construção de milhares de clínicas médicas em toda a Venezuela. A experiência seguiu para a Constituição Venezuelana de 1999, que consagrou os princípios da Alames, tais como a criação de um sistema de saúde descentralizado e participativo, com controle comunitário sobre as políticas do sistema.

A privatização do sistema foi proibida pela Constituição. Este foi o sistema que foi criado pelo processo do qual a Embaixadora Urbaneja participou. A estrutura desenvolvida, desde então, continua a desempenhar um papel vital - apesar da escassez - para atender as pessoas na pandemia.

Resiliência

Após deixar o Ministério da Saúde e do Desenvolvimento Social em setembro de 2003, a Embaixadora Urbaneja foi nomeada Embaixadora da Venezuela no Uruguai (2004-2006), Chile (2006-2012), Equador (2012-2015), Brasil (2015-2016) e depois México (2016-2019). Seu mandato como Embaixadora começou com a eleição do governo Frente Amplio no Uruguai e terminou com a eleição do partido Morena no México: uma longa onda através da maré rosa da América Latina. Durante este período, a Embaixadora Urbaneja participou da construção da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), que tinha como objetivo promover a soberania da região. Em uma crise como a da pandemia, esta plataforma poderia ter reunido os países da região; mas a Unasul foi sabotada  pela ascensão ao poder dos governos de direta ligados  às oligarquias.

Quando a Embaixadora Urbaneja relembra seu tempo de estudante no Chile - que acabou de votar para reescrever sua constituição da era da ditadura - ela se lembra de um slogan – ‘estou com fome e o que fazer! Eu ainda sou do PU’. O PU é o governo da Unidade Popular, que apesar dos desafios impostos pelos Estados Unidos, ainda mantinha a fé do povo. Muito do mesmo espírito governa a Venezuela, diz ela; apesar da pressão dos Estados Unidos e seus aliados, o povo da Venezuela continua comprometido com o projeto democrático posto em marcha pela vitória eleitoral de Hugo Chávez em 1998.

* Vijay Prashad é historiador e jornalista indiano. Diretor geral do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.
* Publicado originalmente na Globetrotter - Independent Media Institute
*Tradução Franklin Frederick

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