Como os “conchetos” (coxinhas) de Buenos Aires estão sabotando a quarentena na Argentina

Marchas na capital têm característica de classe muito marcada; ricos portenhos parecem desprezar o sucesso do isolamento

(Foto: Reuters)
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Martín Fernández Lorenzo, no Socialista Morena

Os ricos portenhos estão sabotando o bom combate à pandemia na Argentina, que tem se destacado pelo baixo número de infectados e mortos pelo coronavírus em relação a outros países como o Brasil graças à atuação firme do governo federal. Orquestradas pelos grandes empresários e pela mídia comercial, as manifestações anti-quarentena dos conchetos (como são conhecidos os mauricinhos ou coxinhas no país) estão logrando fazer subir o número de infectados em Buenos Aires, enquanto outras regiões já relaxam o isolamento.

No mesmo dia em que o presidente Alberto Fernández estendeu o isolamento por mais 21 dias (de 7 a 28 de junho) somente para a região metropolitana de Buenos Aires e outras 4 províncias, a Argentina registrou recorde de casos: 929 infectados e 25 óbitos. O maior número (436) foi justamente na cidade de Buenos Aires, 422 no restante da província e 53 no Chaco.  A cidade de Buenos Aires e os 13 distritos que a rodeiam, um conglomerado de 14 milhões de habitantes, “concentra 85% dos casos”, afirmou o governador da província, Axel Kicillof.

São os setores mais humildes da Argentina que têm dado uma lição de humanidade e responsabilidade em relação aos seus e aos outros, diante de uma classe média e alta que orgulhosamente exibe sua profunda falta de empatia, com uma bandeira que pode ser resumida a um raciocínio torto: “Melhor mortos do que menos pobres”.

Nas zonas mais carentes da capital, como a Villa 31, uma das mais afetadas, houve uma queda nos últimos oito dias, segundo o prefeito Horacio Larreta, macrista. Entre as razões para a queda estão as críticas do movimento La Garganta Poderosa às autoridades da cidade de Buenos Aires pela grave situação e pelo abandono dos governantes, após a morte de uma de suas lideranças, Ramona Medina, que faleceu de coronavírus depois de pedir ajuda nas redes por ficar 12 dias sem água. O governo nacional recebeu, outro líder do La Garganta, Nacho Levy, para demonstrar prioridade à urgência vivida nos setores mais vulneráveis.

Enquanto as manifestações anti-quarentena têm uma característica de classe muito marcada, sem reivindicações por falta de comida ou necessidade de suprimentos, o movimento La Garganta Poderosa está realizando uma enorme campanha para levar ajuda aos mais carentes, que estão vivenciando na própria carne o vírus e o abandono. Na Argentina, como em outros países, a Covid-19 expõe o peso das desigualdades sociais e raciais no combate a uma pandemia.

Já nas marchas da ignorância e da indiferença, como acontece também no Brasil, só se veem pessoas da classe média e alta, cuja prioridade é voltar a restaurantes ou academias, enquanto nos setores mais precários as pessoas oram por algo tão básico quanto a água. Os que querem quebrar a quarentena são os mais privilegiados, e tem acontecido casos absurdos como o casamento “clandestino” para 150 pessoas realizado por um grupo de judeus ortodoxos; o chá de bebê que levou a criança a nascer com coronavírus; ou o empresário que entrou em seu condomínio com a empregada doméstica escondida no porta-malas do carro, são alguns dos exemplos.

Em 25 de maio, um grupo de irresponsáveis foi à Plaza de Mayo sob o lema da “liberdade” para pregar contra o isolamento. Em um dos bairros mais luxuosos de Tigre, cidade da Grande Buenos Aires, aconteceu a “revolução pacífica no carro pelos nossos direitos”, onde os conchetos, dentro de seus automóveis de luxo, protestavam para o país “não virar uma Venezuela”. Alguns dias atrás, uma marcha foi organizada no obelisco da capital, que felizmente foi um fracasso, mas conseguiu reunir um grupo de 200 pessoas “contra o totalitarismo”. Os slogans das marchas incluem desde teorias da conspiração à comparação entre Fernández e Stalin.


O infectologista Pedro Cahn, principal conselheiro do governo federal, assim resumiu as críticas à quarentena: “Se você acha que a quarentena é ruim, experimente terapia intensiva e morte”. O infectologista, que sempre afirma que o vírus não entra nas casas, mas que são as pessoas que saem para procurá-lo, foi criticado por Patricia Bullrich, ex-ministra da Segurança de Macri, que definiu suas declarações como “quase terroristas”.

O governo tem tido que lutar não só contra a pandemia e uma dívida monstruosa deixada pelo macrismo, mas com a mídia e os empresários que tentam sabotar a quarentena desde o primeiro dia. Da manhã à noite, economistas e empresários “liberais” percorrem todos os programas e meios de comunicação criticando ferozmente as medidas de Alberto Fernández e incitando à população a romper o isolamento, com os argumentos mais estapafúrdios.



Na semana passada, um grupo de 300 “intelectuais” de direita divulgou uma declaração alegando que o que está sendo experimentado na Argentina é uma “infectadura”, e alguns referentes do Macrismo compararam a quarentena na Villa Azul, favela de Buenos Aires que teve de ser isolada porque os casos estavam crescendo, com o “Gueto de Varsóvia”. Em 48 horas, 18 mil cientistas e intelectuais de peso repudiaram a a barbaridade de querer comparar a quarentena com a ditadura.

TN, a Globo da Argentina, também se referiu à Villa Azul com imagens de pessoas protestando nas ruas. Mas as imagens que mostraram eram do Chile. Nesta segunda, 8 de junho, com a redução no número de contágios, o confinamento na favela foi encerrado.

No final de março, o ex-presidente Macri (que hoje está envolvido em um caso de investigação de espionagem ilegal durante seu governo) havia aconselhado Alberto Fernández a seguir o modelo da Inglaterra e, em abril, assinou um pedido para suspender a quarentena. Muitos também sugeriram que a Argentina seguisse os passos da Suécia, onde nenhuma medida preventiva havia sido tomada.

Hoje são os próprios suecos que reconhecem que seu modelo falhou. A taxa de mortalidade por milhão de habitantes da Suécia é de 453,4 e a da Argentina, 13,6. Também houve quem destacasse as medidas de Bolsonaro no inicio da pandemia em comparação com as de Fernández, e a taxa no Brasil hoje é 12 vezes maior que a da Argentina: 162,2. O que teria acontecido aos argentinos se o governo tivesse seguido estas “sugestões”?

Todas as decisões sobre a pandemia que o governo toma são baseadas nas recomendações de infectologistas, epidemiologistas e especialistas em saúde. O próprio presidente admitiu que ele, como professor de Direito, não pode comentar sobre uma área em que não é especialista, bem ao contrário de Bolsonaro, que se comporta como médico e até indica um remédio como “cura”, a cloroquina.

Em uma de suas últimas entrevistas coletivas, Fernández foi questionado por uma jornalista sobre as angústias que as pessoas sentem com a quarentena e deu uma resposta demolidora. “É angustiante salvar-se? Angustiante é ficar doente, não se salvar. Angustiante é que o Estado te abandone e te diga para se virar como possa, que o Estado não esteja presente”, disse o presidente.

O fato é que, sabotagens à parte, a estratégia de Alberto Fernández está funcionando: após 75 dias de quarentena e com cerca de 22 mil casos e 670 mortes, 18 das 24 províncias já não têm circulação do vírus e estão passando para a fase 5 do “distanciamento social”, onde diferentes atividades serão permitidas, cumprindo as protocolos respectivos. O jornal Página 12 deu o apelido de “Cuarenflex” para a nova fase.

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