Escândalo de espionagem envolve governo de ex-presidente Mauricio Macri

Material teria sido produzido contra Cristina Kirchner sob a órbita da AFI durante o governo Macrista, diz ‘La Nacion’

Pobreza dispara com Macri e atinge 32% dos argentinos
Pobreza dispara com Macri e atinge 32% dos argentinos (Foto: Ricardo Mazalan)
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RBA - Durante o governo de Mauricio Macri, a Agência Federal de Inteligência (AFI) da Argentina teria montado um esquema de espionagem ilegal cujos alvos eram opositores, religiosos, jornalistas e organizações sociais. A atual vice-presidente da República, Cristina Fernández de Kirchner, e sua filha Florencia também estavam na mira do esquema. O presidente da Corte Suprema de Justicia de la Nación, equivalente ao Supremo Tribunal Federal brasileiro, era outro espionado.

Segundo a AFI, agora sob o governo de Alberto Fernández, 403 jornalistas foram investigados. No total, o esquema de espionagem envolveu 1.500 dossiês, fazendo uso de fotos, vídeos e áudios sobre políticos de diferentes setores, homens da igreja, jornalistas e organizações sociais.

Segundo o jornal Página12, a denúncia “incrível” partiu da confissão de um traficante “muito poderoso” em Almirante Brown, departamento da Argentina, localizado na província do Chaco. De acordo com o jornal, o esquema de espionagem envolvia policiais, advogados, jornalistas, narcotraficantes e ‘barrabravas’, como são conhecidas as torcidas organizadas violentas que frequentam os jogos de futebol na Argentina.

De Mendoza, cidade a oeste da Argentina, aos pés dos Andes, o também pesquisador Rogério Tomaz Jr. disse, em postagem no YouTube, que a rede de fake news na Argentina, alimentada pela espionagem, é semelhante ao “Gabinete do Ódio” no Brasil, comandado pelo vereador do Rio de Janeiro Carlos Bolsonaro (Republicanos).

Além de fakes e robôs a favor do presidente Macri, a rede tinha “uma série de estratégias aprendidas desde antes de 2015”. Segundo Thomaz Jr., a Cambridge Analytica estava no país desde 2015. A empresa prestou serviços para o setor militar, foi conselheira do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e operacionalizou a estratégia de disseminação de “mensagens políticas” a serviço de causas de ultradireita, nas campanhas do próprio Trump e do brasileiro Bolsonaro, que utilizou os métodos de Bannon em larga escala.

O esquema de espionagem argentino também “abasteceu” a imprensa com áudios de Cristina Kirchner de conversas informais, “com o objetivo de expor a ex-presidente”, disse Thomaz Jr.

Segundo o jornal La Nacion, a ex-presidente Cristina e o prefeito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta, estiveram nos tribunais de Lomas de Zamora, acompanhados de advogados, nesta quarta-feira (10), para tomar conhecimento “do material de inteligência que teria sido produzido contra eles sob a órbita da AFI durante o governo Macrista”.

O pesquisador Javier Tolcachier, do Centro Mundial de Estudos Humanistas, escreveu para o Barão de Itararé que as informações sobre jornalistas incluíam “não apenas possíveis vozes dissonantes e críticas ao governo, simpáticas à oposição ou ao movimento ‘antiglobalista’, mas também atingiu muitos jornalistas de veículos que praticaram uma verdadeira ‘blindagem midiática’ ao governo de Macri, como o grupo Clarín, o La Nación e o Infobae”.

“Para além dos necessários julgamentos, a história já emitiu sua sentença: o povo argentino eleva a sua voz e exige ‘nunca mais!’ a este tipo de prática e seus protagonistas”, escreveu Tolcachier.

Mauricio Macri chegou à presidência da Argentina após uma campanha em que afirmou que o objetivo era levar o país à “pobreza zero”. Ao final de seu mandato, o Instituto Nacional de Estatísticas e Censos da Argentina (Indec) mostrava que a Argentina tinha naquele momento o mais alto índice de pobres da década, 35,4%.

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