Europa combalida espalha crise ao resto do mundo

Itlia rebaixada; bancos franceses tambm; Grcia no se levanta; lderes limitam-se a fazer discursos; numa incrvel inverso de papis, Brasil coordena ajuda enfraquecida zona do euro; pode ser humilhante, mas providencial

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Roberta Namour, correspondente do 247 em Paris – Enquanto os ministros de Finanças europeus seguem apenas conversando, a avalanche de más notícias na zona do Euro ganha cada vez mais força. No final da tarde de ontem, a agência de classificação de risco Standard & Poor's (S&P) divulgou em um comunicado que rebaixou o rating de longo prazo da dívida soberana da Itália para A, de A+, e o rating de curto prazo para A-1, de A-1+. "O rebaixamento reflete nossa visão de enfraquecimento na perspectiva de crescimento da Itália e também a visão de que a frágil coalizão do governo italiano e as diferenças políticas dentro do parlamento vão continuar limitando a capacidade do governo para responder de forma decisiva aos ambientes macroeconômicos doméstico e externo", disse a S&P.

No mesmo dia, Portugal anuncia um "vende tudo", para tentar minimizar os efeitos da crise. O primeiro-ministro Pedro Passos Coelho disse que o governo português planeja privatizar todas as companhias de energia, petróleo e gás natural estatais, e que em seguida venderá a companhia aérea TAP, a operadora aeroportuária Ana, os correios e o grupo de rádio e televisão RTP. O processo deve terminar em 2012 e se espera obter 7 bilhões de euros com as privatizações.

O que começou com um problema localizado em economias frágeis como a Grécia, já contaminou ícones europeus como a Itália e a Espanha e segue ameaçando o bloco todo. A nota de dois bancos franceses, o Société Générale e Crédit Agricole, foi rebaixada pela agência Moody's. No caso do Crédit Agricole, que passou "Aa1" a "Aa2", a decisão está ligada com a situação da Grécia. Já no Société Générale, que teve a nota reduzida de "Aa2" a "Aa3", a revisão se refere a reavaliação da ajuda que poderia fornecer aos poderes públicos em caso de crise grave. Até países estáveis como a Suíça estão dando sinais de fraqueza. Para Rubens Ricupero, diretor da Faculdade de Economia da Faap, a recente decisão da Suíça de fixar o câmbio mostra a gravidade do cenário cambial no mundo. "Para a Suíça ter tomado essa decisão, é porque a situação está preta".

A crise da dívida se anuncia profunda e mais resistente do que a de 2008. E a falta de união e de um pulso firme para estancar essa hemorragia evidenciou as falhas da comunidade europeia. Ficou claro que sozinhos eles não conseguirão reencontrar o equilíbrio. O problema é que se o Euro desmoronar, o mundo inteiro será impactado, inclusive o Brasil. "Estamos claramente na segunda fase da crise financeira que começou em 2008. Isso criou desafios para as economias emergentes, com os quais tentamos lidar rapidamente", disse o presidente do Banco Central, Alexandre Tombini. Sem esperar uma decisão europeia, os BRICs decidiram agir e assumir uma inversão de papéis. Os "do terceiro mundo" se organizaram para ajudar "os do primeiro mundo". Ironia do destino, ou não, essa equação é vista com alívio pelo mercado. Em contrapartida, ela pode concretizar uma inversão de papéis no mundo. Segundo Robert Sinche, diretor de Estratégia do mercado de Moedas do Royal Bank of Scotland, os ministros de Economia do Brics, provavelmente, concluirão que o risco não é particularmente grande e verão que o apoio ao mercado de bônus da Zona do Euro será uma forma muito construtiva para o Brasil construir sua posição na economia internacional.

Sob essa perspectiva, o Brasil assumiu a dianteira nesse plano de salvação e vai propor aos outros países do Bric que disponibilizem bilhões de dólares em recursos ao Fundo Monetário Internacional (FMI) como forma de aliviar a crise na zona do euro, segundo uma informação da Reuters. O país poderia disponibilizar até 10 bilhões de dólares de seus próprios recursos através de vários canais, incluindo a compra de títulos soberanos da dívida. Isso, inclusive, já está acontecendo. Os países do Brics tem comprado títulos europeus emitidos pelo Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, segundo o jornal Valor Econômico de ontem.

A diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, afirmou que "este interesse por parte dos Brics é uma evolução muito interessante, mas espera que estas intervenções sejam de larga escala e não se limitem aos seguros bônus de determinados países apenas".

A China já saiu atrás de oportunidades de investimentos na Itália e na Grécia, assumindo praticamente o porto de Pireu. Na segunda-feira, circularam rumores de que o País compraria bônus italianos. Uma fonte do governo confirmou ter havido uma reunião, na semana passada, com o presidente da China Investment Corp. (CIC), Lou Jiwei, e representantes do Escritório Estatal de Câmbio da China. Os analistas ainda não acreditam nessa possibilidade. "A China é um país pobre com renda per capita de apenas US$4 mil. Pensar que ela vá socorrer países com renda per capita de US$40 mil é ridículo", disse o economista chinês Yu Yongding ao "New York Times".

De qualquer forma, a ajuda em conjunto dos primos pobres é vista na Europa como um milagre, humilhante, mas providencial.

 

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