Evo se aproxima do quarto mandato fortalecido pela economia, enquanto oposição ameaça não reconhecer resultados eleitorais

Em uma sociedade em movimento contínuo e próxima de decidir seu futuro, a maior parte dos bolivianos indica continuar a enxergar em Evo o líder que colocou o país no cenário mundial como uma nação soberana e respeitada, em que pese o receio sobre o tempo de permanência no poder

Presidente da Bolívia, Evo Morales
Presidente da Bolívia, Evo Morales (Foto: Manuel Claure/Reuters)

Por Murilo Matias, de La Paz (Bolívia), pelo canal Vozes Latinas

O Movimento ao Socialismo (MAS) desenvolvido na Bolívia ao longo dos últimos 13 anos se caracteriza pelo baixo preço da comida, dos transportes e da energia: com R$3,50 é possível comer carne, arroz, batata e salada; o gás de cozinha custa R$15,00, mesmo valor de uma viagem de seis horas entre qualquer região do território. O futuro seguro projetado pelo presidente Evo Morales se baseia na drástica redução da pobreza e na estabilidade econômica alcançada, colocando o primeira indígena a governar o país novamente como favorito para conquistar a quarta vitória consecutiva nas eleições deste 20 de outubro diante das propostas conservadoras dos adversários, o principal deles o ex-presidente Carlos Mesa.

No marco dos dez anos da Constituição do Estado Plurinacional na qual se reconhece a autonomia das comunidades indígenas e com a expansão de programas sociais as pesquisas indicam que a aprovação ao MAS é superior ao desgaste. O alcance do renda dignidade, repasse mensal universal aos idosos acima de 60 anos no valor de 350 bolivianos - benefício que atinge 10% dos 11 milhões de bolivianos - e o bono Juancito Pinto, pago anualmente a aproximadamente dois milhões de estudantes são medidas de impacto para jovens e idosos. 

No início dos anos 2000 depois da renúncia de presidentes - incluindo Mesa - e marcada por conflitos internos de grande repercussão como a guerra da água em Cochabamba e a guerra do gás em El Alto, na qual morreram mais de 70 pessoas na tentativa de evitar a privatização do recursos naturais era improvável admitir que a Bolívia lideraria o crescimento econômico da América Latina. Os bolivianos quadruplicaram seu PIB, a renda per capita e o salário mínimo dentro de um contexto de inflação controlada ao longo das três gestões de Evo, a quem o povo chama de hermano presidente.

"Com os ex-presidentes Goni (Sanchez de Lozada) e Quiroga houve matança. Banzer (ex-ditador e ex-presidente) nos matou de fome, havia filas para comprar pão, não havia macarrão. Agora com pouco se alcança uma vida digna. Evo esteve em  lugares em que nenhum governante havia chegado perto. Nos rincões levou água, luz, moradias aos agricultores", compara a vendedora Alicia, que trabalha nas ruas de Villazon e fatura de 150 a 200 bolivianos ao dia.   

As mudanças na área rural se assentam também no acesso a crédito, à titularidade da terra a mais de dois milhões de bolivianos, a metade para mulheres, e pela estratégia de garantia da soberania alimentar com a Emapa, empresa estatal responsável por comprar itens dos produtores com preços superiores aos do mercado, razão pela qual Evo encontra apoio massivo no interior. O desenvolvimento do campo se mostra tão intenso  a ponto de o presidente classificar o que acontece nas terras da Bolívia como o mais sólido movimento campesino antiimperialista da América Latina, situação que desagrada parte da sociedade, os considerados "desclassados" pelo socialismo.

"Antigamente se ia a uma feira e os vendedores chamavam caserito (expressão do comércio para agradar o comprador ), venha, por favor. Nos últimos anos não é mais assim, eles mal nos olham, mudou o tratamento porque o governo os protege", reclama Nancy Garrildo, dona de uma lanchonete em Potosí, local que concentra críticas a Evo devido a divergências sobre o repasse de impostos à província, produtora de divisas no segmento energético.

A nacionalização das riquezas naturais e a projeção em relação ao lítio, cuja maior reserva mundial está no Salar de Yuni, colocam a questão energética como grande aposta do país, que investe pesado ainda em hidrelétricas, parques eólicos e solares - em Oruro mais da metade do consumo provém de painéis solares. A já iniciada industrialização do gás se qualificará com a construção de unidades de processamento em parceria público privada com uma empresa alemã, que deve atuar na exploração do lítio pelas seguintes décadas.

Da condição de coração energético da América do Sul à valorização das línguas ancestrais, o quechua e o aymara, idioma primeiro de muitos bolivianos, passaram a ser ensinados a fim da permanência da cultura originária nas escolas, provocando um símbolo de descolonização na educação. Outra transformação, a paridade de gênero no parlamento e no judiciário se impôs a partir do protagonismo feminino e serviu para evidenciar um dos maiores problemas atuais, o número de feminicídos e de violência doméstica, apesar do endurecimento da legislação para esses crimes. "Estamos mudando a Bolívia, agora precisamos mudar nossas famílias", declarou o vice Álvaro Linera em relação ao tema. 

A improvável virada de Mesa

O ex-presidente Carlos Mesa, vice de Goni, que fugiu do país em meio à guerra do gás, repetiu sem cessar o bordão "já é demasiado" no encerramento de sua campanha em La Paz. O principal candidato da oposição agrega o voto antigoverno, mas a possibilidade de um homem branco voltar a comandar o país de maioria indígena não anima nem alguns de seus eleitores.

"Vamos criar nesses anos lideranças indígenas para as próximas eleições, mas o que necessitamos agora é sacar Evo e esse governo corrupto", aponta Augusto Oblitas candidato a deputado pelo Comunidade Cidadã, de Mesa. A preocupação com o resultado faz com que setores da oposição ameacem não reconhecer a contagem neste domingo. O discurso alardeado por críticos de que o país viola a democracia não encontra respaldo diante das nove candidaturas presidenciais , do amplo tempo de exposição na televisão e no garantido direito à livre manifestação. 

Por outro lado, a inflamação de alas conservadoras se transformou em violência como a registrada em Santa Cruz quando militantes do MAS foram atacados em um ato de campanha, injetando tensão a disputa. A revelação de Evo de que militares e civis estariam tramando um golpe em caso de sua vitória aumenta ainda mais a expectativa para os próximos dias. 

A pressão na esfera política se alastra para o terreno social. A criação do Sistema Único de Saúde, uma das principais medidas anunciadas pelo governo neste ano, encontra problemas em sua implementação ao enfrentar uma greve de médicos que se acerca dos dois meses sem solução. Apesar da construção de hospitais e centros médicos como o oncológico em El Alto, a postura dos profissionais de saúde tem emperrado o início do plano de atender a seis milhões de cidadãos pelo SUS.

Em outras regiões do país agrupações de mineiros bloqueiam estradas associados à oposição, que por seu turno aproveitou a realização dos chamados Cabildos, reuniões de cidadãos para propor políticas públicas, para amplificar o descontentamento com a gestão em cidades como Santa Cruz, berço da elite e do candidato Ortiz, da Bolívia Disse Não, que sem resultado centrou sua campanha em questionar a repostulação de Evo em função do plebiscito em que a reeleeição de autoridades perdeu por margem estreita em 2016. O resultado é alvo de questionamentos, afora o fato de que a fórmula Evo Morales e Álvaro Garcia Linera ser considerada essencial para a unidade do MAS e a continuidade do processo de câmbio.

Os incêndios na área da Chiquitania foram outro ponto de desestabilização registrado à beira da eleição mesmo com o investimento oficial de 200 milhões de bolivianos para evitar a as queimadas. "Criticam Evo, o tratam de tudo pois nosso presidente é muito humilde por ser indígena. O caluniam como todo político, mas o povo sabe o valor dele. Evo se criou na pobreza, conhece nossas necessidades e governa bem. Nós vamos votar por ele pois é o único que nos aponta o futuro", diz a trabalhadora do mercado Lanza de La Paz, Mery Cortes. 

Nas cidades, aliás, a remodelação de mercados em diversos locais e a impressionante obra do teleférico mais alto do mundo entre La Paz e El Alto permitiram ao país um salto de qualidade nas áreas sensíveis das condições laborais e do transporte público. A modernização para o próximo período, defendem os governistas, se estende pela criação do Ministério da Ciência e Tecnologia à concessão de créditos para a compra de casas e para a abertura de empresas direcionados aos jovens. Em relação ao judiciário a novidade está no limite de um ano e meio para a finalização dos processos em qualquer instância, incluindo o Tribunal Supremo de Justiça cujos magistrados são eleitos em voto direto e com mandato de seis anos - o mais alto salário de um membro do judiciário na Bolívia é de 10 mil reais.

Em uma sociedade em movimento contínuo e próxima de decidir seu futuro, a maior parte dos bolivianos indica continuar a enxergar em Evo o líder que colocou o país no cenário mundial como uma nação soberana e respeitada, em que pese o receio sobre o tempo de permanência no poder. No domingo se saberá se a ideia inscrita na parede, "aqui o povo manda e o governo obedece" seguirá seu rumo em direção à justiça social ou se os conservadores apegados às suas teses sobre corrupção e favorecimento às elites conseguirão derrotar o caminho ao socialismo de um dos governos mais bem sucedidos da história recente da América Latina.

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