Fim do complexo de vira-latas

Os brasileiros devem se manifestar contra a espionagem americana no país e liderar uma campanha no Mercosul contra o sistema eletrônico de escuta dos EUA

O que foi denunciado pelo jornalista do jornal britânico The Guardian sobre uma rede de espionagem montada pelos EUA no Brasil não tem nada a ver com  parceria para o repasse de informações entre países para o combate do crime internacional organizado.

A Folha de São Paulo, que assim como outros grandes jornais do país está demitindo jornalistas por não saber como agir diante da grande expansão do consumo de noticias online, tenta desesperadamente vender jornais.

Nesta segunda-feira quis provar que descobriu a América. Citou fontes da Polícia Federal no intuito de convencer que o governo brasileiro tinha conhecimento da ação de espionagem dos EUA.

Para impressionar citou a Lei de Acesso à Informação e revelou que os EUA repassou ao Brasil, na vigência de seis acordos assinados de 1999 a 2008, um total de R$ 140 milhões. Grande descoberta.

Uma coisa não tem nada a ver com a outra. Obviamente que informações coletadas pelos serviços de inteligência dos Estados Unidos e repassadas ao governo brasileiro em relação ao narcotráfico, terrorismo, tráfico de mulheres e crianças são ações louváveis e necessárias. Em muitos casos ajudam na elucidação de crimes e no desbaratamento de quadrilhas internacionais.

O que é inaceitável, no entanto, é a espionagem de dados privados de cidadãos brasileiros, do governo do Brasil, da nossa biodiversidade, do nosso subsolo e do nosso mar. E isso vem ocorrendo há anos e anos e de forma sistemática. Com o avanço tecnológico e a era da informação via satélite esta espionagem acontece de forma cada vez mais sofisticada.

O que pretendem fazer com toda a informação que rastreiam de várias formas sobre as riquezas brasileiras, descobrindo e pesquisando vegetais, minerais e substâncias sobre as quais nem mesmo, em alguns casos, os cientistas brasileiros tem conhecimento? É claro e cristalino que apenas para ampliar o conhecimento que os americanos tem do planeta não é. Nas escolas americanas eles não aprendem nem os nomes das capitais de países sul americanos ou africanos, por exemplo.

A intenção americana sempre foi e continua sendo, mesmo na era Obama, a de dominação imperialista. O que pretendem espionando dados brasileiros, sejam eles quais forem? O mesmo que fizeram em inúmeros países, inclusive no Brasil em eras de triste lembrança. Montar estratégias de forma a criar uma situação que justifique a "ajuda americana", que todos sabemos nada mais é do que a invasão institucionalizada, como aconteceu no Iraque, no Afeganistão, na Líbia, para ficar apenas nos casos mais recentes.

Se pudéssemos montar uma fórmula para a política externa americana de dominação talvez não ficasse muito distante da realidade a seguinte: espionagem das riquezas naturais + colaboração nos atos de desestabilização política do país = necessidade de apoio das tropas americanas para a pacificação e sua estadia indefinida no país para futura dominação em vários campos.

A exemplo da Folha de São Paulo, o tablóide conservador e sensacionalista alemão, Bild, cujas vendagens vem também caindo sensivelmente na última década, tentou incrementar suas vendas nesta segunda-feira. Insinuou que Angela Merkel sabe muito mais do que deixa transparecer sobre a espionagem americana e que a agência de inteligência externa da Alemanha tem conhecimento sobre o monitoramento e armazenamento pelos EUA de dados alemães durante anos, fazendo uso  deles em casos de sequestros de alemães no exterior.

Diante de todos estes acontecimentos, o que mais me preocupou foi a postura indigna de um chanceler por parte do ministro da Relações Exteriores do Brasil, Antonio Patriota, ao declarar que não responderá ao pedido de asilo do jovem americano Snowden, com apenas 25 anos de idade e coragem suficiente para enfrentar a CIA, por acreditar que a humanidade devia tomar conhecimento de fatos que considerou criminosos.

Sem ter pra onde ir e vivendo há vários dias na área de trânsito do aeroporto de Moscou, Snowden é perseguido pelo governo americano após  ter revelado, em vazamentos separados, que os EUA faz operações de espionagem por meio de um sistema eletrônico de acesso ilegal a  dados de usuários do Google, Facebook, Skype de vários países, além de divulgar vídeos de atrocidades cometidas por soldados americanos em países ocupados.

Manifestantes brasileiros simpáticos à causa da divulgação da verdade chamam uma manifestação diante do Itamaraty em apoio a Snowden. Enfrentar os EUA é o mínimo que podemos fazer. Este é o momento de perdermos o "complexo de vira-latas" incorporado por muitos políticos  brasileiros.

Devemos manter nossa capacidade de indignação diante de afrontas à Nação brasileira. O Brasil e os brasileiros deveriam liderar uma ação junto ao Mercosul para que juntos exigíssemos o fim da espionagem na América do Sul e no mundo por parte dos EUA.

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