Frio na Europa é fruto do aquecimento global

Concluso do instituto alemo Helmholtz Association: um dos invernos mais intensos da histria do continente europeu foi causado pela diminuio do gelo no rtico, ocorrida durante o ltimo vero; temporada de frio j matou mais de 300 pessoas

Frio na Europa é fruto do aquecimento global
Frio na Europa é fruto do aquecimento global (Foto: FELIX ORDONEZ/REUTERS)

Luis Pellegrini _247 - A Europa atravessa neste momento um dos invernos mais fortes desde que as temperaturas começaram a ser registradas com regularidade, no século 19. No início deste mês de fevereiro, até mesmo cidades mediterrâneas famosas pelo seu clima suave, como Roma, Atenas, Nápoles e Barcelona, estavam cobertas com camadas de neve que com frequência superavam um metro. Praticamente todo o Velho Continente passou semanas forrado por espesso manto branco. Em países mais sujeitos a invernos frios, como a Romênia e a Ucrânia, as temperaturas superaram os 30 graus negativos, causando a morte de centenas de pessoas menos protegidas. E o inverno no Hemisfério Norte ainda está longe do fim. Ninguém sabe quais surpresas ele ainda reserva para quem mora lá. Espera-se para amanhã, terça-feira, a chegada de uma nova onda de frio na Europa, possivelmente ainda mais intensa do que a atual.

FELIX ORDONEZ/REUTERS

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Qual a causa de tanto frio e tanta neve? Os primeiros estudos não deixam margem a dúvidas: a culpa reside na grande diminuição do gelo no Ártico que se verificou durante o último verão. Pesquisadores do Research Unit Potsdam do Alfred Wegener Institute for Polar and Marine Research, braço da Helmholtz Association (http://www.awi.de/en) descobriram um mecanismo segundo o qual a diminuição dos gelos que recobrem o Polo Norte, motivada pelo aquecimento global, provocou alterações importantes na pressão da atmosfera ártica, com fortes consequências no inverno da Europa.

A circulação do ar se altera

Explicamos: se, nos meses de verão, acontece uma abundante retração dos gelos do Polo Norte, como tem acontecido nos últimos anos (o verão de 2011 só não foi mais importante que o de 2007 em termos de retração do gelo), dois efeitos importantes acontecem. Em primeiro lugar, a retração dos gelos faz com que extensões muito maiores de água oceânica permaneçam na superfície, em contato com a luz do Sol; essa água é muito mais escura do que o gelo e, portanto, muito mais capaz de absorver e de reter o calor. Em segundo lugar, devido à redução da extensão dos gelos, o calor presente no oceano é liberado na atmosfera, sobretudo nos meses de outono e inverno. “Essas temperaturas mais elevadas podem ser medidas nas correntes oceânicas nas proximidades das regiões árticas”, explica o climatologista Ralf Jaiser, um dos responsáveis pela pesquisa.

Como consequência, os vetores de circulação do ar se alteram. O aquecimento do ar nas proximidades do mar determina processos de correntes aéreas ascendentes na atmosfera, tornando-a menos estável. “Analisamos os movimentos caóticos que se formam e demonstramos que eles surgem a partir de condições que alteram profundamente a circulação típica dessa área”, prossegue Jaiser. Uma dessas situações é a diferença de pressão entre o Ártico e as latitudes médias: a assim chamada “Oscilação Ártica”, caracterizada por notáveis diferenças de pressão entre os Açores e a Islândia. Se essa diferença estiver ligada a uma alta pressão sobre os Açores e a uma baixa pressão na Islândia, formam-se fortes ventos ocidentais que, no inverno, levam o ar atlântico frio e úmido em direção à Europa. Se as condições não se invertem, esse ar frio do Ártico consegue descer sobre a Europa, como aconteceu nos dois últimos invernos e está acontecendo também neste, em escala ainda mais elevada.

Vai continuar assim no futuro

No início do atual inverno, ainda não havia certeza de que esse novo modelo climatológico funcionasse perfeitamente, já que novembro e dezembro na Europa foram meses relativamente quentes para um período de inverno. Mas isso só aconteceu por causa de fatores eventuais e passageiros que bloquearam o ar frio do Ártico. A partir da metade de janeiro as coisas mudaram radicalmente no Velho Continente, e o frio polar chegou com grande quantidade de neve. O que é pior: tudo leva a crer que essa mesma situação se repetirá nos próximos anos.

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