Índia reconhece existência de 'terceiro gênero'

Decisão da Suprema Corte permitirá que milhares de pessoas transgênero (operação cirúrgica de mudança de sexo, ou que adotam o modo de vida do outro gênero) e eunucos (homens que tiveram testículos removidos) tenham seus direitos reconhecidos; medida segue países como a Austrália

Decisão da Suprema Corte permitirá que milhares de pessoas transgênero (operação cirúrgica de mudança de sexo, ou que adotam o modo de vida do outro gênero) e eunucos (homens que tiveram testículos removidos) tenham seus direitos reconhecidos; medida segue países como a Austrália
Decisão da Suprema Corte permitirá que milhares de pessoas transgênero (operação cirúrgica de mudança de sexo, ou que adotam o modo de vida do outro gênero) e eunucos (homens que tiveram testículos removidos) tenham seus direitos reconhecidos; medida segue países como a Austrália (Foto: Roberta Namour)

AFP - A Suprema Corte da Índia reconheceu nesta terça-feira a existência de um terceiro gênero, que não é masculino, nem feminino.
A decisão permitirá que milhares de pessoas transgênero ( operação cirúrgica de mudança de sexo, ou que adotam o modo de vida do outro gênero) e eunucos (homens que tiveram testículos removidos) tenham seus direitos reconhecidos.

"O reconhecimento dos transgênero como terceiro gênero não é uma questão social ou médica, mas de direitos humanos", declarou o juiz K.S. Radhakrishnan ao emitir sua decisão.

O tribunal encarregou os governos estatal e federal de identificar os transgênero como um terceiro gênero neutro, que deve ter garantido o acesso aos mesmos programas sociais que outros grupos minoritários na Índia.

"Os transgênero são cidadãos deste país e têm direito à educação e a todos os outros direitos", declarou Radhakrishnan, o juiz principal dos dois que presidiram o caso.

As pessoas transgênero e os eunucos vivem à margem da sociedade indiana, tradicionalmente conservadora, e com frequência são obrigados a recorrer à prostituição, à mendicância e ou a empregos muito precários para sobreviver.

Na Índia, grande parte deles forma a comunidade dos "hijras", que são encarados com uma mistura de temor e respeito.

O recurso à Suprema Corte havia sido apresentado em 2012 por um grupo de pessoas, entre elas um conhecido eunuco e ativista, Laxmi Narayan Tripathi, para exigir direitos igualitários para a população transgênero aos olhos da lei.

Tripathi acolheu com satisfação o veredicto, e lembrou que os transgênero sofrem discriminação no país tradicionalmente conservador.

"Hoje, pela primeira vez, sinto-me muito orgulhoso de ser indiano", declarou Tripathi aos jornalistas reunidos em frente ao tribunal em Nova Délhi. "Minhas irmãs e eu nos sentimos como verdadeiros indianos e muito orgulhosos pelos direitos que a Suprema Corte nos garantiu", acrescentou.

A decisão foi tomada depois que esta mesma Corte voltou a proibir em dezembro passado as relações entre pessoas do mesmo sexo, em uma sentença que muitos encararam como um retrocesso do país ao século XIX.

O sexo entre homossexuais havia sido legalizado em 2009, quando um Tribunal Superior de Nova Délhi ditou que esta seção do código penal que proibia "as relações carnais contra a ordem da natureza" infringia os direitos fundamentais.

Terceiro gênero pelo mundo

O reconhecimento de um terceiro gênero é raro no mundo.

Antes da Índia, a Alta Corte da Austrália também decidiu no início de abril que uma pessoa pode ser reconhecida pelo Estado Civil como pertencente a um "gênero neutro".

Já Alemanha e Nepal autorizam seus cidadãos a escrever um X no campo "sexo" do passaporte.

Os transgêneros são pessoas que sofreram uma operação cirúrgica de mudança de sexo, ou que adotam o modo de vida do outro gênero sem ter mudado obrigatoriamente de sexo, explica Sanjay Srivastava, professor de sociologia do Instituto of Economics de Nova Délhi.

Calcula-se que existam milhões de pessoas transgênero na Índia.

No entanto, a Comissão Eleitoral só inscreveu 28.341 nesta categoria, o que ilustra o temor de muitos deles de serem estigmatizados.

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