Livro de John Bolton, ex-assessor de Trump, confirma uso de tática de guerra contra Venezuela

Em publicação, John Bolton relata o passo a passo das ações golpistas acordadas entre Juan Guaidó e Donald Trump

Mike Pompeo, Nicolás Maduro e Juan Guaidó
Mike Pompeo, Nicolás Maduro e Juan Guaidó (Foto: Reuters)
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Brasil de Fato - Nesta semana, foram divulgadas algumas partes do livro de John Bolton, ex-assessor de segurança nacional da Casa Branca. Faz parte do conteúdo tornado público um capítulo chamado "Venezuela Livre", que detalha as expectativas da administração de Donald Trump em relação a um possível golpe de estado contra o presidente venezuelano Nicolás Maduro.

Além de confirmar denúncias do governo bolivariano, o documento revela um passo a passo das ações desestabilizadoras dos Estados Unidos contra a Venezuela, como parte da estratégia de "guerra híbrida".

Bloqueio e apropriação dos ativos no exterior

Os Estados Unidos bloquearam todos os bens públicos da Venezuela que estavam depositados ou construídos no território estadunidense. Começando pela empresa Citgo Petroleum, filial estadunidense da PDVSA, a empresa estatal de petróleo venezuelana. No livro, Bolton confirma que a diretoria nomeada pelo deputado Juan Guaidó foi indicada por ele e seus assessores.

O autoproclamado presidente também indicou para representar interesses venezuelanos em processos judiciais nas cortes estadunidenses o procurador José Ignácio Hernández, outro nome vinculado às empresas que queriam se apropriar da estatal venezuelana .

O áudio interceptado de uma ligação telefônica entre Hernández e David Malpass, presidente do Banco Mundial, mostra que o representante da oposição venezuelana concordava com a entrega dos bens estatais em processos judiciais impetrados por empresas estrangeiras.

Antes de ser procurador de Guaidó, Hernández havia sido testemunha em favor da Crystallex, mineradora canadense, em outro processo que cobrava US$ 1,4 bilhão da petroleira venezuelana.

A Citgo, com valor de mercado estimado em US$ 7 bilhões, possui cinco mil estações de serviço e é responsável pelo refino de 4% do combustível consumido nos Estados Unidos. Além disso, a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, com 309 bilhões de barris.

As sanções contra a indústria petroleira venezuelana são debatidas desde antes da autoproclamação de Guaidó, em janeiro de 2019, como confirma Bolton no seu livro – “Trump queria garantias de acesso aos recursos petroleiros pós Maduro”, escreve.

Depois das revelações feitas pelo governo bolivariano, José Ignácio Hernández renunciou ao cargo.

Nas últimas semanas também se tornaram públicas algumas transações financeiras de transferências dos ativos venezuelanos a contas da Reserva Federal dos Estados Unidos.

Trump utilizou US$ 600 milhões do Fundo de Dinheiro Confiscado do Departamento do Tesouro – onde estão depositados os ativos venezuelanos bloqueados -- para a construção do muro fronteiriço com o México.

“A guerra contra Venezuela é impulsionada por grandes corporações que têm interesses de expropriação dentro do território venezuelano. E são essas corporações que realmente movem os senadores, os congressistas e a própria administração dos Estados Unidos”, assegura Laila Tajeldine, advogada e professora da Universidade Bolivariana da Venezuela (UBV).   

Desde 2015, o presidente Barack Obama declarou a Venezuela como uma ameaça “inusual” à segurança do seu país. Em agosto de 2019, Donald Trump declarou o bloqueio total, emitindo uma Ordem Executiva que prevê multas a empresas e nações que comercializem com os venezuelanos.

“Os Estados Unidos, independente do presidente, consideram que toda a América é parte do seu território. E qualquer país que pretenda atuar de maneira soberana e independente leva esse golpe, através de sanções, bloqueios, invasões, todo tipo de ataques”, afirma Tajeldine.

Ouro venezuelano na Inglaterra

Além dos Estados Unidos, a União Europeia também congelou bens venezuelanos e tenta, através das suas instâncias jurídicas, confiscar permanentemente esse dinheiro.

No dia 30 de junho será realizada outra audiência que deverá definir se o Estado venezuelano consegue recuperar 31 toneladas de ouro, estimadas em cerca de US$ 1 bilhão, depositados no Banco da Inglaterra.

No livro, Bolton confirma a disposição das autoridades britânicas para a apropriação desses bens ainda em 2019. “O ministro de Assuntos Exteriores do Reino Unido, Jeremy Hunt, que estava em Washington para reuniões, estava encantado em cooperar com medidas que eles poderiam, por exemplo, congelar as reservas de ouro venezuelano no Banco da Inglaterra, assim o regime não poderia vender o ouro para seguir de pé. Estas foram as medidas que já estávamos aplicando para pressionar financeiramente o presidente Maduro”, descreve a professora.

O governo bolivariano tentou reverter essas ações assinando um acordo com a oposição e a Organização Pan-Americana de Saúde para criar um fundo de combate à covid-19, com o dinheiro bloqueado no exterior.

Relação com o governo brasileiro

O ex-assessor da Casa Branca revela novamente relações do governo brasileiro com os planos golpistas na Venezuela. Bolton afirma que o ministro de defesa, Fernando Azevedo e Silva confirmou que o fim de Maduro já era visível em dias prévios ao episódio de entrada forçada de ajuda humanitária pelas fronteiras com a Colômbia e com o Brasil, em fevereiro de 2019.

Recentemente foi publicado o contrato assinado entre Juan Guaidó e a empresa militar estadunidense Silvercorp, no qual estava previsto o livre acesso das tropas paramilitares ao território brasileiro.

Isolamento de Guaidó

O fracasso da série de planos desestabilizadores postos em prática em 2019, assim como a Operação Gedeón -- tentativa de invasão paramilitar a Venezuela, executada em março de 2020 – têm levado à perda de popularidade de Guaidó, ao isolamento dentro do seu bloco opositor e à perda do suporte estadunidense.

No livro, Bolton deixa claro que Trump tinha sérias dúvidas sobre a liderança de Guaidó, afirmando que ele parecia “um menino que ninguém conhecia, enquanto Maduro era um homem duro”. O presidente dos Estados Unidos também havia pedido que seu vice, Mike Pence, deixasse claro ao autoproclamado que este devia total lealdade aos Estados Unidos.

Pence havia transmitido a mensagem durante uma reunião com o deputado opositor venezuelano, celebrada na Colômbia, em fevereiro do ano passado, depois do episódio da entrada de ajuda humanitária, como relata Bolton em seu livro.

Enquanto se revelam mais provas sobre as últimas tentativas de golpe de Estado, a Venezuela também avança num calendário eleitoral. Na última semana foi definido um novo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) como um primeiro passo para a convocatória das eleições legislativas, previstas para dezembro de 2020.

Segundo o próprio presidente Nicolás Maduro, a reforma do poder eleitoral foi acordada com todos os partidos do campo governista e opositor. Tanto é, que dois dos partidos que conformam o chamado G4 – grupo das quatro maiores organizações opositoras: Primero Justicia, Voluntad Popular, Acción Democrática, Un Nuevo Tiempo – tiveram rachas internos em torno a decisão de participar do processo eleitoral.

Tanto no partido Primero Justicia, como Acción Democrática, os militantes de base se rebelaram contras as direções, exigindo que abandonassem o discurso de fraude e de abstenção nas legislativas desse ano.

Para a analista Laila Tajeldine, todo o debate dentro da oposição e seu discurso midiático faz parte da estratégia de campanha. “Eles não querem perder todas as cadeiras na Assembleia Nacional”, afirma.

Além disso, Bolton detalha no livro e Donald Trump afirmou publicamente outra vez que teria disposição de se reunir com o presidente Nicolás Maduro. Em menos de uma semana, o mandatário se contradisse mais de uma vez sobre as intenções desse encontro.

“Estados Unidos estão em um período de campanha presidencial e para qualquer presidente digamos que isso 'espantaria' alguns patrocinadores. Por isso é possível que mesmo que Trump esteja preparado para uma reunião com o presidente Nicolás Maduro, talvez não aconteça pela possível perda de apoio econômico a sua campanha”, analisa a advogada venezuelana.

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