Maringoni: 'governo venezuelano está matando um leão por dia'

Em meio às ameaças de golpe contra o governo de Nicólas Maduro, a Venezuela busca medidas para a crise econômica impulsionada pelo bloqueio econômico norte-americano que vem impondo retrocessos em aspectos da sociedade venezuelana marcados por avanços e conquistas sociais alcançados pelo chavismo a partir de 1999, o professor e jornalista Gilberto Maringoni avalia que  "o governo venezuelano está matando um leão por dia. Enquanto ele conseguir matar um leão por dia e não ser engolido pelo leão, ele vai continuar"

Maringoni: 'governo venezuelano está matando um leão por dia'
Maringoni: 'governo venezuelano está matando um leão por dia'

Pedro Aguiar, Brasil de Fato - Em meio às ameaças de golpe contra o governo de Nicólas Maduro, a Venezuela busca medidas para reverter a desvalorização do salário mínimo e a redução da capacidade de consumo dos venezuelanos, que carecem de alimentos básicos e medicamentos. A crise econômica impulsionada pelo bloqueio econômico norte-americano vem impondo retrocessos em aspectos da sociedade venezuelana marcados por avanços e conquistas sociais alcançados pelo chavismo a partir de 1999.

Sem a liderança de Chávez e com o fim de governos progressistas na América Latina, a Venezuela se tornou uma nação isolada. Como agravante, o país preserva a dependência financeira do petróleo - 96% da receita do país vem da exportação do recurso - e não consolida outras culturas produtivas que possam surgir como alternativas.

Embora tenha superado a pretensão golpista da fraca oposição liderada por Juan Guaidó, o maior desafio para o governo venezuelano ainda está por vir. É o que avalia o professor e jornalista Gilberto Maringoni, após ministrar um espaço de análise conjuntural sobre a Venezuela ao lado da Jornalista Laura Capriglione, neste sábado (13), em São Paulo. A atividade ocorreu no Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo (SJSP) e fez parte da programação do Curso: O que está acontecendo na Venezuela? organizada pelas entidades que compõem o Comitê Brasileiro pela Paz na Venezuela.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o professor de Relações Internacionais da UFABC analisa os aspectos atuais do processo venezuelano. Maringoni é autor do livro "A Venezuela que se inventa – poder, petróleo e intriga nos tempos de Chávez", além de doutor em História Social pela FFLCH-USP. Em 2014, foi candidato ao governo de São Paulo pelo PSOL.

Confira a entrevista na íntegra.

Brasil de Fato: quais os próximos desafios para o governo de Nicolás Maduro? Como você avalia o cenário que está por vir?.

Gilberto Maringoni: Me parece que o governo venezuelano está matando um leão por dia. Enquanto ele conseguir matar um leão por dia e não ser engolido pelo leão, ele vai continuar. Mas está muito difícil você fazer uma projeção de médio prazo. O Maduro teve uma vitória espetacular em 23 de fevereiro, que era o dia anunciado do golpe, de uma invasão externa. Aquilo deu fôlego a ele porque desarranjou as forças da direita e da extrema direita. Quanto tempo ele vai conseguir aguentar é o tempo pra ele conseguir reorganizar, minimamente, a economia, o abastecimento e o bem-estar das pessoas. Não tem segredo. As pessoas têm que ter comida, um mínimo de renda, salário, emprego. No mínimo, as pessoas têm que conseguir sobreviver, porque ninguém vai para uma guerra com base na tese de que é contra os americanos e contra o imperialismo. Você vai muito pelo bolso e pelo estômago. E isso é a grande batalha.

Você acha que a força de oposição na Venezuela tem alguma capacidade de insurreição sem depender dos Estados Unidos?

Zero. O Guaidó acabou. Acabou a liderança. Ele era uma fraude. Ele só consegue com ajuda externa. E isso ficou claro para a população: Guaidó queria uma invasão externa. Imagina se nos Estados Unidos o Bern Sanders convoca uma invasão chinesa.
Você acredita que o processo bolivariano ainda pode prosperar?

O problema para que o processo bolivariano prospere é a superação de obstáculos importantes que tem pela frente. Primeiro, a séria ofensiva externa capitaneada pelo governo Trump, e ajudada pelos governos de extrema direita do Ivan Duque na Colômbia e do Bolsonaro no Brasil. Além disso existe um problema interno: a crise econômica é real. Embora o petróleo tenha aumentado de preço nos últimos tempos, isso não supriu o rombo da economia venezuelana. Mas o cerco econômico dos Estados Unidos à economia venezuelana tem se apertado.

Maduro conseguiu vencer uma batalha ao impedir o golpe, em 23 de fevereiro, com um líder falso que é Juan Guaidó, tendo obtido apoio russo e chinês para se manter. Mas crise não está superada e essa é a principal questão a se resolver agora.

O chavismo fortaleceu o poder comunal. Ainda hoje ele é considerado pelo governo como um dos campos mais importantes de participação popular e o instrumento central de construção do socialismo. Você acha que essas estruturas podem voltar a ganhar força?

O problema é que os poderes comunais em tempos de guerra estão todos voltados para a defesa do país. Isso faz com que a vida comunal esteja totalmente voltada para essa defesa. É preciso ver depois desse processo como será quando eles conseguirem retomar uma vida não digo normal, mas menos tensa do que essa de real ataque externo ao país.

A Venezuela tem um histórico de lutas populares importantes, como o Caracazo em 1989 e o levante popular que tomou as ruas da capital contra o golpe de Estado sofrido por Chávez em 2002. Como você avalia o apoio cívico-militar do povo venezuelano, dos levantes populares em defesa do território da Venezuela em relação ao histórico brasileiro?

O povo brasileiro sempre lutou. Isso não é uma questão de povo. O governo venezuelano procurou o enfrentamento desde o início. O governo brasileiro, no caso do PT, procurou fazer uma composição defensiva com a direita e com a extrema direita achando que ia dar a volta. Queria enganar a extrema direita que não existia mais luta de classe, não existia mais interesses inconciliáveis. Deu no que deu no Brasil e deu no que deu lá na Venezuela. Os dois processos são sofridos, mas aqui a derrota é uma derrota estratégica. Lá não, existe enfrentamento.

Aqui você nomeia a direita para a suprema corte, você promete à população desenvolvimento e pratica um programa recessivo como foi o caso do [segundo] governo Dilma. Então isso desarma, desanima a população que passa a ver na política algo sujo que não resolve seus problemas cotidianos. Isso abre espaço para a extrema direita vir com tudo no Brasil.

Como você diferencia a presença militar com uma atuação muito efetiva no governo venezuelano e os militares aqui no Brasil. Qual é a diferenciação dos militares no poder em cada nação?

Depende muito do tipo de diretriz que você coloca nas forças armadas. Lá se colocou uma diretriz francamente anti-imperial, nas escolas de formação, na questão de soberania nacional. Aqui, passada a ditadura, as forças armadas ficaram intocadas, o currículo das escolas militares ficou o mesmo. E nos anos petistas, não se levantou uma palha para punir os crimes da ditadura, exemplarmente, nos quais, a cúpula do Exército foi cúmplice. Então quando você não avança, o inimigo te põe em recuo. Não tem essa de ser malandro com quem é inimigo de classe, você tem que derrotar.

A questão da guerra elétrica, com os boicotes. Você acha que tem surpresa norte-americana de não ter conseguido dar o golpe já em fevereiro, ou que o bloqueio não tenha derrubado...

É preciso ver que, de fato, o sistema, dentro da estrutura venezuelana, por conta da crise, carece de investimentos há alguns anos. Toda essa questão da crise venezuelana se expressa na própria empresa de petróleo, a PDVSA, como no sistema elétrico. Agora, é bem possível que tenha havido uma sabotagem, não posso te garantir, eu não estou lá. Mas é preciso cuidar, com muito afinco, dessa questão que afeta diretamente o dia a dia da população.

 

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