Neoliberalismo deu cadeia. "Populismo" gerou um mito

Cobertos de elogios pela mídia tradicional em seus tempos de presidente, Carlos Menem, da Argentina, acaba de ser condenado a 25 anos de prisão por tráfico de armas; e Alberto Fujimori, do Peru, cumpre pena de 100 anos em seu país por corrupção e violação de direitos humanos; atacado desde sempre, Hugo Chávez morre como maior ídolo popular da Venezuela; mas a ótica dos grandes grupos de comunicação a favor do neoliberalismo e contra alternativas econômicas e socias, sem dúvida, vai continuar a mesma

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Neoliberalismo deu cadeia. "Populismo" gerou um mito (Foto: Montagem 247)


247 – Uma tripla coincidência envolveu este ano três dos mais famosos políticos da América do Sul nas últimas décadas. Em janeiro, depois de tempos sem que fosse alvo de alguma notícia, o jornal La Republica, do Peru, mostrou de maneira inédita imagens do ex-presidente Alberto Fujimori na prisão em que cumpre, dentro do país, penas de 25 anos por violação dos direitos humanos e de 75 anos por corrupção (assista vídeo abaixo).

Nesta semana, o também ex-presidente Carlos Menem, da Argentina, foi condenado pela Câmara de Cassações a 25 anos de prisão pelo tráfico de 6,5 toneladas de armas para o Equador e a Croácia. Cumprindo, aos 85 anos de idade, um mandato de senador em seu país, igualmente havia tempos que Menen não frequentava o noticiário do continente.

Dias antes, na terça-feira 5, o governo da Venezuela anunciou a morte do então presidente Hugo Chávez. Sabia-se, até ali, que seu estado de saúde era grave, na tentativa de recuperação de um câncer, mas não havia informações objetivas sobre ele e seu estado de saúde desde dezembro.

Em 1999, Fujimori, Menen e Chávez viveram outra coincidência. Ele foram líderes, naquele anos, de Peru, Argentina e Venezuela, respectivamente. Fujimori governou seu país por 10 anos, entre 1990 e 2000. Menen também ficou uma década no mando da Argentina, de 1989 a 1999. E foi neste ano que Chávez iniciou seus quatro mandatos na Venezuela, cumprindo 14 anos no poder até sua morte.

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O que sempre distingüiu os três presidentes foi o tratamento dedicado a cada um deles pela mídia tradicional. Tanto em seus países como no Brasil. O neoliberalismo econômico de Fujimori e Menem foi saudado como o melhor caminho que poderia ter sido percorrido por Peru e Argentina. Chávez, com suas prática na contramão do mercado, foi desde logo tachado de 'populista', 'caudilho' e 'esquerdista'. Nunca houve imparcialidade na análise de seus governos, bem ao contrário. Toda a torcida favorável a Fujimori e Menen, em seus respectivos anos de poder, foi proporcionalmente inversa diante do desempenho de Chávez.

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A julgar pelo noticiário e por editoriais dos grandes jornais, Chávez era praticamente um ditador no governo venezuelano. Lembra-se forçosamente agora, porém, que das 14 eleições que disputou pelo voto, venceu 13 – a que perdeu, por dois por cento dos votos (um plebiscito sobre a reforma da Constituição do país), teve o resultado reconhecido por ele imediatamente após sua proclamação. Ao fim dos 14 anos em que exerceu o poder, a mortalidade infantil caiu pela metade, o analfabetismo foi considerado erradicado, o número de professores multiplicado por cinco e a Venezuela tornou-se o país sul-americano que alcançou, junto com o Equador, entre 1996 e 2010, a maior redução da taxa de pobreza em todo o continente.

O neoliberal Carlos Menen, agora condenado a 25 anos de prisão por tráfico de armas – pena que só deverá cumprir se for submetido a processo político no senado argentino –, pilotou um plano econômico que congelou os recursos da população, o que derrubou temporatiamente a inflação, pelo que passou a ser saldado. No campo político, anistiou o ex-ditador Jorge Videla e o comandante militar Eduardo Massera. Mais tarde, deixou o governo com taxa de desemprego acima dos 20 por cento e uma situação de recessão da qual até agora a Argentina, quase 15 anos depois de sua gestão, não consegue se recuperar.

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Alberto Fujimori, que chegou a ficar preso no Chile numa área de 10 mil metros quadrados só para si, com direito a casa com sala de visitas e telefone particular, ainda hoje cumpre pena no Peru sob denúncias de desfrutar mordomias inexistentes para qualquer outro preso no país. Em seus governos, ele conseguiu baixar a taxa de inflação de mais de 7mil por cento, em 1990, para já no ano seguinte promover um crescimento do PIB de mais de 12%, alcançando um dos maiores índices de elevação em todo o mundo. As condições de vida da maioria da população, no entanto, se deterioraram e o sucesso econômico festejado pela mídia se mostrou socialmente inútil. Em 2000, cercado por denúncias de corrupção e violações dos direitos humanos, Fujimori aproveitou uma viagem ao Brunei para dali fugir de seu país, pedindo asilo no Japão, onde tinha cidadania. Só veio a ser preso anos depois, ao vajar para o Chile e, dali, ser exilado para o Peru.

Um com o final de carreira entre as grades, outro com prisão determinada pela justiça, Fujimori e Menem venceram Chávez em vida na batalha pelas preferências da mídia tradicional. O presidente venezuelano, porém, ainda agora é velado pelo povo do seu país, que em mais um sinal de gratidão tende a eleger o sucessor que ele indicou no pleito a ser marcado para dentro de 30 dias. Na mídia tradicional, no entanto, o neoliberalismo econômico do qual Fujimori e Menen foram duas grandes expressões na América do Sul continua valendo muito mais que o caminho alternativo de resultados sociais trilhado por Chávez. Essa miopia econômica e social sem dúvida vai continuar vigindo dentro dos grandes grupos de comunicação do continente.

 

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