Netanyahu é apenas uma tonalidade diferente da mesma supremacia judaica

"O regime de apartheid e ocupação de Israel é inextricavelmente vinculado a violações dos direitos humanos", diz o site do B'Tselem

www.brasil247.com -
(Foto: Reuters)


Artigo de opinião de Hagai El-Ad* (B’Tselem, Jerusalém), originalmente publicado no jornal Haaretz em 14/11/22. Traduzido da versão em inglês por Rubens Turkienicz com exclusividade para o Brasil 247.

“O regime de apartheid e ocupação de Israel é inextricavelmente vinculado a violações dos direitos humanos. B’Tselem empenha-se para acabar com este regime, porque esta é a única maneira para seguir adiante na direção de um futuro no qual os direitos humanos, a democracia, a liberdade e a igualdade são asseguradas a todas as pessoas, tanto palestinos quanto israelenses, que vivem entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo.” – declaração de B’Tselem no seu website.

NÃO É UMA “DEMOCRACIA VIBRANTE”. ISTO É APARTHEID.
NÃO É UMA “DEMOCRACIA VIBRANTE”. ISTO É APARTHEID.(Photo: Reprodução)

Ahmad Zahi Bani-Shamsa foi a primeira fatalidade na aldeia de Beita, na Cisjordânia, na sua confrontação com a colônia de Evyatar, sob a guarda do governo israelense que sai. Ele foi morto antes de conseguir celebrar o seu 16º aniversário, depois de ter alvejado pelas costas com um tiro na cabeça. Ele foi alvejado quando tentava pendurar uma bandeira palestina numa oliveira. Ele morreu no dia seguinte, no quinto dia do fim da “mudança de governo” de Israel.

O processo de legitimação do roubo de terra em Beita, para benefício de Evyatar, começou durante o mandato do governo que sai e provavelmente continuará e será acelerado sob o novo governo por todo o norte da Cisjordânia, bem como o resto daquela área. Pode-se presumir que, dentro de alguns dias, um soldado israelense disparará um tiro e matará a primeira vítima do 37º governo de Israel. Isto será seguido por mais fatalidades. Sob um regime de supremacia judaica, algumas coisas jamais mudam entre o Mediterrâneo e o rio Jordão. 

No entanto, um momento antes que o governo que sai afunde no esquecimento, ele merece uma reflexão adicional. Na verdade, o quê  transpirou no último ano e meio, e o que isto diz sobre o futuro?

Numa entrevista no canal 12 da televisão israelense, a âncora Yonit Levi e Jonathan Freedland, do jornal The Guardian, Shimrit Meir, conselheira política do ex-primeiro ministro Naftali Bennett, explicou que a precondição para a existência do governo que sai era a suspensão do conflito Israel-Palestina, porque no momento em que esta questão é levantada, o destino do governo estava selado. O lance de abertura no estabelecimento da coalizão era que não se podia discutir “ideologia”, sem a anexação nem o estabelecimento de um estado palestino, e nenhuma mudança do caráter “judaico e democrático” do estado. Vale a pena alongar-se nas palavras de Meir, devido a grande franqueza com a qual, à partir do próprio centro do escritório do primeiro-ministro, ela descreveu a realidade política que persistiu “durante quase um ano de normalidade”, o período do governo que sai e até o colapso da coalizão.

O alegado, na verdade, foi que a realidade em Beita, e em todas as área controladas por Israel, não é uma questão de “ideologia”, já que o regime de supremacia judaica não é uma questão política, nem ideológica. Esta é simplesmente a maneira como as cosas são, a maneira que era e a maneira que seguirá sendo. Uma situação na qual os sujeitos palestinos são alvejados à morte um após o outro, em Beita e em todos os lugares, é parecida com um conflito latente, já que não se pode ter um regime dos superiores sem um derramamento de sangue comedido dos inferiores. Mais um ano de controle israelense total é simplesmente uma expressão de normalidade.

Na visão dela, Meir expressou a concepção política predominante assumida por amplas faixas do público judaico em Israel. Uma concepção que não considera a realidade da supremacia judaica, do apartheid ou da ocupação como algo incomum, mas como uma realidade normal que está ocupada com o seu entrincheiramento, expropriando cada vez mais terras palestinas, numa tentativa de concentrar os palestinos em enclaves que são mais fáceis de controlar, gerenciando-os através de subempreiteiros que são financiados por fontes internacionais.

Esta postura, esta visão de mundo, não é apenas imoral no sentido mais profundo da palavra, mas é também algo desconectado da realidade. Ao final de contas, aquilo que é chamado de “conflito” – literalmente a relação inequívoca de poder pela qual a metade israelense-judaica da população que vive entre o rio Jordão e o mar Mediterrâneo controla a terra, a demografia e o poder político, às custas da metade palestina – não foi “suspenso” sequer por um momento. Ele está vivo e muito bem todo o tempo, nos momentos em que balas vivas de armas matam um palestino e em momentos de uma burocracia sem fim, com autorizações e postos de controle, injunções e decisões judiciais que dominam as vidas dos palestinos em nome de um regime supremacista judaico.

Neste contexto, se deve referir ao futuro membro do gabinete Itamar Bem-Gvir e ao ex-chefe de estado maior das forças armadas israelenses Gadi Eisenkot, o protagonista e o antagonista das eleições recentes. Eisenkot fala de uma maneira de estadista sobre a “governança”, enquanto Bem-Gvir pergunta, sem rodeios: “Quem é que manda aqui?” Mas o tom de estadista é apenas um código transparente que todos compreendem, já que quando os judeus em Israel reclamam de uma falta de “governança” no deserto do Neguev e na Galileia, nas áreas C e em Jerusalém, eles querem dizer que não se sentem como “os que mandam” naquelas áreas.

Na verdade, o argumento não é sobre o fim da democracia. Ao fim e ao cabo, não existe aqui uma democracia, por virtude do fato que todos os palestinos são excluídos, parcialmente ou completamente, do processo político. Este é um argumento sobre a maneira e a extensão dó uso da força contra os palestinos. Eisenkot e a sua laia acreditam que este processo pode ser acelerado, e um crescente número de eleitores concordam com eles. Porém, a grande maioria das pessoas que têm reservas sobre esta última abordagem, aceitam a situação existente e os seus processos, encontrando um lar para esta visão em qualquer partido sionista. Ao final de contas, os partidos Yesh Atid [Há Um Futuro], os trabalhistas e Meretz [a suposta esquerda] fizeram parte do 36º governo, quando um jovem palestino pendurou uma bandeira numa oliveira e a terra absorveu o seu sangue.

Isto não quer dizer que “eles são todos a mesma coisa”. O fato de que a realidade já era intolerável para os palestinos, mesmo antes da eleição, não quer dizer que as coisas não possam piorar, e rapidamente, tornando-se mais horrorosas e empapadas em sangue. O movimento de direita Otzma Yehudit (Poder Judaico) é um ponto no espectro político; dizer isso não significa que a variedade de posições neste espectro seja uma questão marginal que não mereça reflexão. O espectro de posições tem um significado, porém a questão da afinidade entre as diversas posições dentro deste espectro também tem um significado.

Se pode gritar, e as pessoas gritam, contra a ascensão de Bem-Gvir. Mas quem é precisamente responsável por isso? Não apenas no sentido estrito da conjunção política que produziu isto, mas num sentido mais profundo. O que causou o colapso do governo que sai não é o descongelamento do conflito devido a um congelamento imaginário. O que sobrelevou Bem-Gvir não foi algum evento limitado. A força motriz disto foi a própria realidade. Esta realidade deve ser mudada. A partir do seu alicerce.

[*] Hagai El-Ad é o diretor executivo do B’Tselem.

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247