O golpe em Zimbabue

O jornalista Jaime Sautchuk relata as impressões que tem do Zimbabue, onde há mais de 40 anos entrevistou o líder guerrilheiro Robert Mugabe, que ainda hoje possui influência no país; "O fato é que Zimbabue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos", diz

O jornalista Jaime Sautchuk relata as impressões que tem do Zimbabue, onde há mais de 40 anos entrevistou o líder guerrilheiro Robert Mugabe, que ainda hoje possui influência no país; "O fato é que Zimbabue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos", diz
O jornalista Jaime Sautchuk relata as impressões que tem do Zimbabue, onde há mais de 40 anos entrevistou o líder guerrilheiro Robert Mugabe, que ainda hoje possui influência no país; "O fato é que Zimbabue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos", diz (Foto: José Barbacena)
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247 - O jornalista Jaime Sautchuk relata as impressões que tem do Zimbabue, onde há mais de 40 anos entrevistou o líder guerrilheiro Robert Mugabe, que ainda hoje possui influência no país.

Veja abaixo os relatos do jornalista:

Por Jaime Sautchuk

Robert Mugabe era líder guerrilheiro no combate ao governo racista da antiga Rodésia, colônia britânica, hoje Zimbabue. Eu estava em Dar Es-Salam, capital da Tanzânia, que servia de ancoradouro aos movimentos de libertação da África Austral (inclusive Angola e Moçambique), e Mugabe me recebeu no hotel em que estava, após alguma insistência minha.

Em verdade, eu havia pedido a entrevista a uns companheiros dele que eu identifiquei por puro faro no saguão do hotel. No entanto, ele recebeu primeiro um correspondente do NY Times que havia pedido depois de mim. Aí, eu argumentei:

-- O sujeito que é do jornal porta-voz do imperialismo ianque vocês recebem rapidinho, e eu, que sou solidário à sua luta, fico esperando, né?!

Os caras se tocaram e num piscar de olhos eu estava diante de Mugabe. Cheio de formalismos e vigilância no início, após uns minutos de papo ele descontraiu, tirou as botas e as armas, botou os pés sobre a mesinha e a coisa andou. Foi por mais de uma hora, em inglês. A entrevista foi publicada, à época, no semanário Movimento.

Quase quatro décadas se passaram. E vejo que a grande mídia trata dos acontecimentos atuais em Harare, a capital de Zimbabue, com grande dose de amnésia.

Desde logo, se esquece de falar do que era a Rodésia, o regime fascista que lá vigorava, do apartheid de triste memória, que foi derrubado por Mugabe. E do regime socialista por ele implantado no início, com reforma agrária e pesados investimentos em educação, do ensino fundamental à universidade, o que virou exemplo à África inteira.

Mugabe aparecia como um nativo de boa formação, professor de História desde muito jovem e formado em Economia pela Universidade de Londres. Seguia uma linha marxista, influenciado por outras lideranças africanas. Era, contudo, um brigador nato contra a segregação racial e as injustiças em geral.

Era um revolucionário autêntico, que conseguia superar também os problemas étnicos (ou tribais) com que se deparava pelo caminho. Por isso tudo, amargou dez anos (1964/1974) nas cadeias malcheirosas do poder colonial, mas enfrentou o apartheid até tirá-lo do poder.

Nos seus últimos 15 anos, a minoria branca do país se julgava independente do Reino Unido, mas a independência só ocorreu em 1979. Foram convocadas eleições diretas e Mugabe foi eleito primeiro-ministro pela União Nacional Africana de Zimbabwe (ZANU), partido que era uma frente de esquerda.

A partir de então, ele foi sendo eleito chefe do poder por sucessivas eleições, recentemente contestadas por oposicionistas do regime. De qualquer modo, sempre exigiu muita habilidade política num país de muitos povos que buscam se afirmar – pra se ter uma ideia, sua Constituição declara 15 línguas oficiais, além do inglês.

O fato é que Zimbabue vem passando por severa crise econômica, agravada por uma corrupção desenfreada e por uma elite negra que ao longo dos anos se tornou muito conservadora. Desfez os avanços sociais e promoveu a concentração de renda em mãos de poucos, que antes eram brancos e agora são pretos.

O comando militar do país, sempre alinhado a Mugabe, resolveu retirá-lo do poder, através de um golpe lento e gradual, mas é visível que ele, hoje com 93 anos de idade, ainda conta com forte apoio popular, em especial nas cidades do interior. Isso, embora em Harare, com seus 1,4 milhão de habitantes, tenha havido algumas manifestações de rua a favor do golpe.

No campo externo, Zimbabue é hoje aliada da China e enfrenta a disputa internacional pelas suas riquezas naturais, especialmente ouro e amianto. Sua população atual é de perto de 15 milhões de pessoas.

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