Paraguai vai às urnas: República ou máfia?

Chiqui Ávalos, um dos mais conhecidos jornalistas do Cone Sul, em artigo exclusivo para o Brasil 247, analisa as eleições presidenciais de amanhã, 21 de abril, em seu país, com a contundência e a coragem que o tornaram uma referência no jornalismo e na literatura paraguaia; depois de Fernando Lugo e Federico Franco, o favorito é o colorado Horácio Cartes, que propõe "roubar menos"

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Paraguai vai às urnas: República ou máfia?


Por Chiqui Ávalos, especial para o 247

A República vive suas horas mais difíceis. Em pouco tempo mais deverá eleger o condutor de seus destinos, em uma decisão que requer a participação de todos os cidadãos preocupados com o seu futuro. Os anos da ditadura adormeceram a consciência do povo, e os ares de liberdade do 2 e 3 de fevereiro de 1989 se perderam no pântano de uma dilatada transição que até agora não encontrou seu rumo.

Os diferentes mandatários que se sucederam não conseguiram responder as necessidades do país. O general Andrés Rodriguez, cujo único mérito foi o de acabar a canhonaços com uma quartelada, de forma alguma significou uma revolução, com a idéia de “blanquear” seu passado demasiadamente identificado com o narcotráfico. Co-sogro de Stroessner, o traiu depois de locupletar-se por décadas. Vivia numa mansão em bairro chique da capital, cópia em miniatura do Palácio de Versailles, um monumento ao mau gosto e um deboche à pobreza do povo. Não tinha nem talento nem imaginação para governar o Paraguai. Foi sucedido por um milionário herdeiro das negociatas de Itaipu, Juan Carlos Wasmosy. Começou a vida nos canteiros de obra de Itaipu, pouco mais que um mestre-de-obras protegido pelo coronel Gustavo Stroessner e pela empreiteira brasileira Camargo Correia, tornou-se empreiteiro milionário.   Através de trapaças nas prévias do Partido Colorado e com o apoio da camarilha militar, despojou de seu autêntico triunfo eleitoral o jurista Luis Maria Argaña e se refestelou no poder em meio a descalabros financeiros, expedientes lamacentos de apoio a bancos falidos, enredado numa disputa de poder e interesses econômicos com o general Lino Oviedo, seu ex-padrinho. Impediu a chegada de Oviedo à presidência mediante o uso arbitrário de normas legais e da cumplicidade de um tribunal eleitoral genuflexo, que não duvidou em buscar caminhos tortuosos para impedir tal candidatura.

OUTRA CONSPIRAÇÃO

Outra vez o infortúnio golpeou as portas do Paraguai, quando uma conspiração, até agora inexplicada pela conveniência dos fatos, derrubou o governo de Raul Cubas Grau, um técnico alheio aos meandros da política. Cubas assistiu – impávido - uma revolta popular com mortes nas ruas e praças, prisioneiro de sua própria inépcia, trancado em seu gabinete no Palácio de Lopez, sem comunicação com o mundo exterior, perdido em sua debilidade e imerso em seu computador, numa atitude autista e distante. Fernando Henrique Cardoso, ao receber um telefonema com pedido de ajuda, não se negou a fazê-lo: mandou-lhe um jato da Força Aérea Brasileira para que saísse do país...

Luis González Macchi foi o próximo presidente paraguaio. Fruto do azar das composições políticas, o então presidente do senado assumiu cargo que não conhecia e que não o merecia. As partidas de futebol às tardes, as alegres noitadas de sábado e sua displicência durante os dias, levaram a economia à beira do ‘default’. Enquanto isso, com atitudes circenses, ele dirigia uma BMW roubada no Brasil pelas ruas de Assunção, acompanhado da esposa, uma ex-miss, além de sua “displicência” em receber mais de US$ 1 milhão em sua conta bancária na Suíça em troca de graciosas concessões comprovadas pela Justiça.  Explicou sua rapinagem com uma saída esquizóide: “não sabia que isso era proibido”. Era, portanto, verdadeiramente um inimputável!

Quando um jornalista, que se supõe familiarizado com a verdade, chegou a Mburuvichá Rocha (“A Casa do Grande Chefe”, vetusta e austera residência oficial onde vivem os presidentes paraguaios), houve esperança. Teve uma equipe econômica formidável, que evitou a quebra do país. Nicanor Duarte Frutos, com seus pouco mais de quarenta anos, estava destinado a entrar para a história. Porém, logo as humanas debilidades foram invadindo sua complexa personalidade, dividida em uma bipolaridade que festejava tanto o influente embaixador norte-americano James Carson, qaunto Fidel Castro, vestindo uniforme e boina a lá Hugo Chávez... A salada ideológica que se instalou em sua cabeça – que nem os psicanalistas consultados resolveram - se completou com um implacável saqueio às arcas do tesouro público, tornando-se muito rico em poucos anos, depois de haver convivido com a pobreza total por décadas ao sobreviver com seu minguado salário de jornalista.

A CLEPTOCRACIA

Entretanto, essa voracidade pelo alheio, converteu o mandato de Nicanor Duarte Frutos em uma verdadeira cleptocracia, onde se beneficiaram impunemente os membros de seu círculo de áulicos. O descaramento, a obviedade do roubo, eram vergonhosos em todas as repartições públicas. Tentou, como Menem, FHC e Fujimori, mudar a Constituição e ficar mais um pouquinho. Mas, quando se desfez a quimera da continuidade, tentou impor sua sucessora, a quem manejaria como continuadora da cleptocracia, num governo títere. A escolhida foi Blanca Ovelar, opaca ministra da Educação e ex-jogadora de basquete. Milhões de dólares gastos em vão na primeira derrota do até então imbatível Partido Colorado... Seus dois últimos anos contemplaram um tour constante a especialistas, que com forte medicação o mantinham lúcido ainda que mais distante da realidade que de costume. A recomendação era a de que trocasse o palácio por uma clínica psiquiátrica, onde estaria melhor cuidado.

A passagem do ex-bispo Fernando Lugo pela presidência foi um autêntico pesadelo. Não tinha a mínima idéia, nem tampouco queria sabê-lo, do que é um governo. Abandonou o poder em mãos de uns picaretas, aproveitadores e delinquentes, que manejavam as burras do Erário enquanto ele se preocupava em desfilar em possantes motocicletas levando “modelos” conhecidas e vulgares na garupa, mandou instalar uma enorme banheira Jacuzzi que compartilhava com elas, além de carregar as prediletas em suas 73 viagens presidenciais ao redor do mundo. Não trouxe sequer um investimento para o Paraguai, mas distribuiu dezenas de passaportes diplomáticos para prostitutas! De seu passado de pregações na distante e empoeirada prelazia de San Pedro à suíte do Plaza Atheneé, em Paris, reservada a xeques árabes e ladrões de paraísos fiscais, ficou a severa suspeita de que, sem muito esforço, o ex-bispo esquerdista já possa ser identificado entre os últimos. Foi um verdadeiro imbecil, com todo o significado etimológico da palavra. Vem do latim ´bacille´, ou ´bastão´. O prefixo ‘im’ significa negativa, ou seja, quem carece de sustentação, não para apoiar-se, mas de habilidade para manejar as coisas. Ainda agora, desacreditado, é figura secundária no cenário político, e divide seu tempo entre palanques em praças vazias na tentativa de ser senador e rápidas fugas de oficiais de justiça com ordens de levá-lo para vários exames de DNA. Fernando Lugo, um verdadeiro imbecil.

PARAGUAI, REPÚBLICA OU MÁFIA

Depois de tão dolorosas memórias, repito que a República passa por suas horas mais difíceis. E, lamentavelmente, um de nossos candidatos, o bilionário Horácio Cartes, tem todo o perfil do que NÃO deve ser um presidente da República. Soberbo, homofóbico (“se tiver um filho gay, dou um tirou nos testículos”, disse em recente entrevista), admirador confesso de Strossner. Sua biografia é um verdadeiro prontuário policial, onde se empilham processos judiciais, passagem pela penitenciária de Tacumbu, acusações de lavagem de dinheiro (no Paraguai e no Brasil), de tráfico de drogas, de homicídio culposo, de evasão de divisas. O DEA norte-americano o indica como cabeça de uma organização encarregada de lavagem do dinheiro do narcotráfico, conclusão a que chegou depois de uma paciente investigação de meses que chegou ao requinte de um informe produzido por agente infiltrado em sua “organização criminosa” (sic). Sua campanha, comandada pelo mefistofélico Francisco Javier Cuadra, ex-ministro do assassino Augusto Pinochet, é uma orgia de gastos, um acinte à pobreza de nosso povo.

Essas eleições serão um divisor de águas para a sociedade paraguaia. Os que pretendem construir com honestidade e transparência um país melhor que deixaremos para nossos filhos, de um lado. Do outro, os que continuarão preferindo os caminhos sombrios da delinqüência.

Shakespeare, um iluminado, sem saber, definiu com 500 anos de antecedência a situação que hoje vivemos em nosso país. Ser ou não ser, essa é nossa alternativa. Não há meio termo, ou seremos honestos e decentes, ou seremos malfeitores.

Paraguaios, República ou máfia.

(*) Chiqui Ávalos é jornalista e escritor paraguaio. Combateu a ditadura de Stroessner, tem vários livros publicados, um deles é o best-seller “A Outra Cara de Horácio Cartes”, e é um das personalidades mais conhecidas de seu país.

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