Pesquisas indicam eleição equilibrada em reduto da oposição, Santa Cruz de La Sierra

A última pesquisa mostra que a rejeição a Morales no departamento de Santa Cruz, local onde parte da elite boliviana reside, é menor do que em outros anos. Segundo o instituto IPSOS, o atual presidente teria 24% das intenções na região

Brasil de Fato - Para participar de qualquer conversa sobre política no centro de Santa Cruz de La Sierra, região oriental da Bolívia, é preciso estar familiarizado com dois termos: “cambas” e “collas”. Muitas vezes, os que se julgam integrantes do primeiro grupo se referem ao segundo de forma negativa, com conotação racista e classista.

Para os “cambas”, moradores desta região, os “collas” são aqueles que vêm de La Paz, Cochabamba e Oruro, por exemplo. São indígenas e mestiços oriundos das chamadas “terras altas”, dos Andes, e vistos com desprezo por alguns locais.

Não por acaso, Santa Cruz é um reduto da oposição ao atual presidente Evo Morales, descendente de quéchua e aimara, nascido no departamento de Oruro e que despontou para a vida pública como líder dos cocaleiros em Cochabamba.

As últimas pesquisas, no entanto, vêm mostrando que a rejeição a Morales no departamento de Santa Cruz é menor do que em outros anos. Segundo o instituto IPSOS, o atual presidente teria 24% das intenções na região, empatado com o ex-presidente Carlos Mesa e três pontos atrás do senador “camba” Óscar Ortiz. Considerando a curva de crescimento e a margem de erro da pesquisa, é possível prever um empate técnico ou até uma vitória do Movimento ao Socialismo (MAS).

Não seria algo inédito. Em 2014, Morales venceu com 49% dos votos em Santa Cruz – embora não houvesse na época o impacto negativo da derrota no plebiscito sobre uma nova reeleição, nem um candidato opositor que representasse tão explicitamente os interesses dos empresários locais, como faz Órtiz em 2019.

Existem algumas explicações para a popularidade de Morales na região, apesar dos preconceitos. Primeiro, é preciso levar em conta os movimentos migratórios cada vez mais intensos de indígenas camponeses da região andina para as chamadas “terras baixas”. Santa Cruz é dividida em doze anéis concêntricos, e os indígenas predominam na periferia, do quarto ao décimo segundo anel.

Também é preciso levar em conta os esforços de Morales para pacificar a região, que quase se separou da Bolívia em 2009, em reação ao referendo que garantiu uma Constituição mais inclusiva para o país, transformando-o em Estado Plurinacional.

Além dos mais de cem artigos da Carta Magna que foram reescritos ou retirados, percebe-se um esforço visível por parte do governo para não bater de frente com os produtores de soja transgênica, que é ilegal, e com as cooperativas de garimpo de ouro, que se comportam como empresas capitalistas e pagam impostos irrisórios.

Em paralelo a esse jogo político, as condições de vida na cidade melhoraram. Quatorze anos atrás, havia dez edifícios com mais de quatro andares em Santa Cruz; hoje, são mais de 200. O mercado imobiliário reflete uma economia que não para de crescer, graças aos incentivos ao agronegócio e ao extrativismo.

No país recordista mundial de golpes entre os séculos 19 e 20, o MAS atingiu um nível de estabilidade política e econômica impensável. Obviamente, parte das oligarquias da região – inclusive latifundiários brasileiros – não tolera Evo Morales. Ainda assim, é possível prever que o aspecto econômico tende a prevalecer sobre os preconceitos étnicos na eleição do próximo domingo (20).

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