Presidente paraguaio sabia de acordo sobre Itaipu, mostram mensagens

Segundo uma série de mensagens de WhatsApp vazadas e reveladas nesta terça pelo jornal ABC Color, Abdo Benítez sabia das negociações do acordo firmado com o Brasil sobre Itaipu e ainda pediu para que não se "polemizasse" sobre o texto e se "guardasse silêncio"

247 com Opera Mundi - Segundo uma série de mensagens de WhatsApp vazadas e reveladas nesta terça pelo jornal ABC Color, Abdo Benítez sabia das negociações do acordo firmado com o Brasil sobre Itaipu e ainda pediu para que não se "polemizasse" sobre o texto e se "guardasse silêncio".

Nas mensagens, trocadas entre Abdo e Pedro Ferreira, então presidente da Ande (Administração Nacional de Eletricidade), aponta-se que o governo brasileiro pressionava para o cumprimento do acordo, assinado em maio e tornado público somente há duas semanas. O documento previa elevar os custos para a empresa paraguaia em mais de 200 milhões de dólares.

Os termos da ata levaram à renúncia do então ministro das Relações Exteriores, Luis Castiglioni, e do embaixador paraguaio no Brasil, Hugo Saguier. Importantes funcionários do setor de energia do país vizinho também pediram demissão do cargo: o titular paraguaio da usina hidrelétrica de Itaipu, José Roberto Alderete, e o atual presidente da Ande, Alcides Jiménez, que havia assumido o cargo poucos dias antes com a renúncia de seu antecessor (Ferreira), também por discordâncias em relação ao pacto.

As conversas

As mensagens divulgadas foram trocadas entre Abdo e o então presidente da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), Pedro Ferreira, que depois renunciou ao cargo por não concordar com as negociações.

Desde o início das conversas mostradas, em fevereiro, o então presidente da ANDE, Pedro Ferreira, alerta o presidente de que os termos acordados com o Brasil poderiam aumentar o preço das tarifas de energia do Paraguai.

Abdo, por sua vez, pede várias vezes a Ferreira que resolva o impasse sobre a compra de energia de Itaipu. Após uma negociação de Ferreira com o ministro de Energia brasileiro, o presidente paraguaio escreve:

"Me preocupa. Isso afeta nosso governo. E muito. Aqui ninguém vai ganhar se o governo enfraquecer. E se chegamos a um ponto em que a negociação está sob aparente pressão. Deve ser resolvido o mais breve possível.

No dia 5 de março, em várias mensagens consecutivas, o presidente paraguaio pede a Ferreira que "busque uma solução" para o impasse de Itaipu.

"Pedro, apure uma solução. Ande, Eletrobras, está tudo parado. Temos que mover a economia. Itaipu é uma ferramenta. Não se pode ganhar tudo em uma negociação", diz.

Pedro Ferreira responde: "Faremos nosso melhor presidente, mas eles só proporão soluções que impliquem aumento de tarifas para nossos consumidores", diz.

No dia 11 de junho, Pedro Ferreira escreve: "Ata assinada em Brasília agora, em Itaipu."

Abdo responde: "Tem que se manter em silêncio e não polemizar".

Em 4 de julho, Ferreira escreve novamente ao presidente: "Não me agrada como alguns querem que a ANDE assuma o que outros assinaram, sem sequer participar."

Abdo responde: "Temos que passar esta crise e que Itaipu financie o que a ANDE necessitar. Isto tem que passar. E então nós vemos. Faça com sabedoria. Estamos em um momento difícil. O Brasil congelou relações conosco por não cumprir o que assinamos (...)."

Ferreira também diz, reiteradas vezes, que não sabe como a ANDE teria dinheiro para arcar com os custos de ter que usar mais energia contratada de Itaipu (a mais cara).

No mesmo dia, ele afirma ainda que, durante uma das reuniões sobre Itaipu, "homens de confiança de Bolsonaro" perguntaram, de forma reiterada, "como estava o apoio político" do presidente do Paraguai. Alguns, escreve Ferreira, foram mais específicos - questionaram o apoio a Abdo dentro do próprio partido.

"Deduzi que é uma pergunta que Bolsonaro pediu a eles que sondassem", escreve.

Na mensagem em resposta, o presidente paraguaio responde, apenas, "está bem." 

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