Protecionismo pode barrar brasileiro na OMC

"Eu, como candidato e como diretor-geral, não estarei representando o Brasil", disse Roberto Azevedo, que concorre ao cargo máximo do comércio mundial. Questionado se considera o Brasil um país protecionista, Azevedo não quis comentar.

Protecionismo pode barrar brasileiro na OMC
Protecionismo pode barrar brasileiro na OMC (Foto: LUKE MACGREGOR)

Por Alonso Soto

BRASÍLIA, 1 Mai (Reuters) - O candidato brasileiro para chefiar a Organização Mundial do Comércio (OMC) rechaçou críticas de nações ricas de que seu país está tornando-se mais protecionista, afirmando que será um negociador neutro para os conflitos comerciais globais caso seja escolhido para o posto mais tarde neste mês.

Roberto Azevedo, um experiente diplomata que representa o Brasil na OMC há anos, está competindo contra o mexicano Hermínio Blanco, um importante agente na criação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta, na sigla em inglês), para se tornar o primeiro latino-americano a liderar a organização que regulamenta as relações comerciais globais.

Embora ambos os candidatos sejam originários da América Latina, eles representam nações com posturas bastante diferentes sobre o livre comércio. O México defende liberalização mais agressiva enquanto o Brasil prefere um enfoque gradual para derrubar barreiras comerciais e um grande papel para o governo na regulação do comércio.

A postura de mão pesada do Brasil em relação ao comércio tornou o país alvo de queixas de países ricos como os Estados Unidos e o Japão e de companheiros emergentes como a China e a Coreia do Sul, que reclamaram de o país sul-americano elevar tarifas para conter importações e proteger a indústria local. O Brasil tem dito que tais medidas são permitidas sob as regras da OMC.

Num documento circulado na OMC em meados de abril, a União Europeia, o Japão e os EUA disseram que o Brasil adotou medidas para elevar exigências de conteúdo local que "discriminam" bens importados, incluindo carros, celulares e até fertilizantes.

"Eu, como candidato e como diretor-geral, não estarei representando o Brasil", disse Azevedo em entrevista por telefone na terça-feira.

"Eu chequei à reta final dessa seleção do próximo diretor-geral com essas reclamações sobre a mesa, não muda nada. Significa que há um entendimento entre membros do OMC de que o candidato tem que ser independente de seu país e deve ser examinado à luz do mérito da sua candidatura".

Questionado se considera o Brasil um país protecionista, Azevedo não quis comentar.

Mesmo sendo respeitado em círculos diplomáticos por sua capacidade de construir consenso, Azevedo foi criticado por seus esforços para levar a OMC a discutir o impacto de flutuações cambiais sobre o comércio mundial.

Blanco foi o negociador, em meados da década de 1990, para a assinatura do acordo Nafta, envolvendo México, EUA e Canadá, e atuou como consultor em outros acordos de livre comércio. Em décadas recentes o México têm mostrado interesse neste tipo de pacto, assinando acordo do gênero com 44 países, de acordo com o Ministério de Comércio mexicano.

Esses fatores deveriam torná-lo a escolha certa para chefiar a OMC, cujo mandato não é apenas supervisionar o comércio mundial, mas também trabalhar para liberalizar os fluxos globais.

No entanto, a proximidade de Blanco com acordos de livre comércio firmados fora da OMC podem representar um obstáculo na rodada final da disputa, particularmente em meio ao mundo em desenvolvimento, que está cansado da dominância das nações ricas, como os EUA, na política comercial global.

A proximidade do México com o livre comércio ao estilo dos EUA tornam Azevedo um candidato de maior apelo para nações em desenvolvimento, disse Kevin Gallagher, professor de relações internacionais da Universidade de Boston.

"Muitos países em desenvolvimento estão em um estágio de liberalização do comércio mais próximo do Brasil do que do México", disse Gallagher. "Eu acredito que mais nações em desenvolvimento vão confiar no Brasil do que no México."

PROCURA-SE DIPLOMATA HABILIDOSO

Habilidades e influência diplomática para reavivar negociações comerciais globais terão peso maior na próxima rodada de seleção do que a nacionalidade do candidato, dizem alguns especialistas.

"As características da nação de origem da pessoa não são particularmente importantes, o que é mais importante é se o indivíduo tem poder e influência suficientes para levar países a liberalizar", disse o professor de negócios internacionais na Haas School of Business na University of California em Berkeley.

"Liderar a OMC não é uma posição particularmente visível, o que é bastante triste, porque a OMC deveria ser uma instituição muito mais efetiva e poderosa do que é."

A credibilidade da OMC sofreu um sério golpe em 2011 quando seus membros reconheceram que as discussões de 10 anos da Rodada de Doha --que deveriam culminar em um novo e arrojado acordo comercial-- estavam, se não mortas, pelo menos num impasse.

Tanto Azevedo quanto Blanco disseram que a reativação de Doha é vital para que o comércio global decole.

"Vamos ter que nos sentar à mesa com uma visão mais aberta, com um espírito construtivo e uma visão mais inovadora dos temas que estão sobre a mesa. O que só será possível se tivermos a vontade política para superar esse impasse. Essa vontade está presente", disse Azevedo.

Blanco disse que prioridades importantes incluem a eliminação de subsídios para exportações agrícolas que prejudicam países menores, redução de tarifas sobre produtos industriais e a implementação de novas regras sobre a maneira como disputas comerciais são resolvidas.

Desde que a crise financeira global de 2008 estourou, o comércio mundial sofreu bastante, crescendo míseros 2 por cento no ano passado, menor aumento anual desde o início da base histórica em 1981 e segundo menor dado após 2009, quando o comércio diminuiu. A OMC até mesmo cortou sua projeção de crescimento do comércio em 2013 para 3,3 por cento, ante 4,5 por cento, e alertou sobre a ameaça protecionista.

A Europa, fulminada pela recessão, e os Estados Unidos, num processo de lenta recuperação, estão enfrentando dificuldade para impulsionar suas exportações por meio de novos acordos comerciais regionais que, segundo alguns especialistas, podem minar a relevância da OMC.

"Essas negociações plurilaterais, bilaterais e multilaterais sempre aconteceram. O problema é que o multilateral parou de evoluir", disse Azevedo. "Temos um sistema de regras que reflete a realidade do mundo de negócios de 30 anos atrás, o que significa que o que deveria de ser o motor do comércio mundial parou".

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