Putin diz que "um sistema de saúde maciço" é imprescindível para momentos de crise sanitária

O presidente da Rússia destacou na 17ª reunião anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais a importância de um sistema de saúde, assim como é o SUS no Brasil, tão atacado mas que se mostrou tão necessário durante a pandemia

(Foto: Sputnik/Alexei Druzhinin/Kremlin via REUTERS)
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Sputnik - O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez nesta quinta-feira (22) uma participação durante a 17ª reunião anual do Clube Valdai de Discussões Internacionais, dedicada à pandemia coronavírus, onde falou sobre diversos temas.

O Clube Valdai de Discussões Internacionais é um think tank com sede em Moscou, criado em 2004, cujo trabalho busca "formar a agenda global e fornecer uma avaliação qualificada e objetiva das questões políticas e econômicas globais". 

Veja a seguir alguns dos principais temas abordados pelo presidente da Rússia: 

COVID-19 

Em seu pronunciamento, Putin falou que a pandemia de COVID-19 evidenciou não somente a importância do desenvolvimento da ciência e da medicina, mas também que é imprescindível dispor de um sistema maciço de saúde que esteja ao alcance de todos.

"A vida mostrou que não é apenas importante o nível de desenvolvimento da ciência médica, suas conquistas, às vezes fantásticas, porque não menos importante é, e às vezes até mais, a organização e a disponibilidade de um sistema de saúde maciço", disse o presidente russo. 

Ao falar sobre como o país reagiu à pandemia, Putin assinalou que a Rússia conseguiu encontrar um equilíbrio entre priorizar a vida e a saúde dos cidadãos, ao mesmo tempo em que protegia a economia da crise provocada pelo novo coronavírus.

"A vida e a saúde dos cidadãos, sem dúvida, vêm primeiro. Naturalmente, a vida e saúde estão relacionadas aos sistemas de saúde, que necessitam de forte suporte do orçamento federal e de outras entidades. A economia deve funcionar para fazer com os recursos destinados ao orçamento estatal cresçam. Tudo está interconectado. É crucial atingir um equilíbrio. Eu acredito que nós conseguimos fazê-lo desde o princípio", disse o presidente russo. 

O presidente russo, no entanto, criticou a comunidade internacional, ao afirmar que ela poderia ter feito mais enquanto tentava mobilizar seus esforços para enfrentar a pandemia. 

"Ao confrontar essa ameaça [COVID-19], a comunidade internacional está tentando empreender certas ações para a sua mobilização, e algumas coisas já foram feitas em conjunto pelos países. No entanto, eu gostaria de dizer que nem tudo que é necessário [está sendo feito] em face deste desafio comum e colossal", disse. 

Além disso, Putin foi duro ao atacar as sanções econômicas impostas pelo Ocidente nos países que estavam em situação epidemiológica crítica causada pela COVID-19. 

"A Rússia instou a outros países e às Nações Unidas que suspendessem todas as sanções econômicas, ao menos temporariamente, com base em sentimentos humanitários. Não estou falando sobre as sanções contra a Rússia, eu não ligo, nós vamos sobreviver, mas existem muitos outros países que sofreram e estão sofrendo com a propagação do coronavírus e sequer necessitam de assistência econômica externa, mas apenas a suspensão dessas restrições, pelo menos na esfera humanitária, sobre suprimentos médicos, empréstimos, equipamentos e transferência de tecnologia. Essas são apenas questões humanitárias, ou não? No entanto, nenhuma restrição foi levantada por razões que nada tem a ver com questões humanitárias", disse Putin.

Corrida armamentista

Em sua participação, Putin também falou sobre a corrida armamentista, e opinou que o mundo não terá futuro se não houver restrições à mesma.

"Na minha opinião, o mundo não terá futuro se não houver limites na corrida armamentista. Todos devem pensar nisso, é o que pedimos", disse.

Putin assinalou que não é contrário em levar seus novos mísseis e ogivas em consideração ao discutir sobre o controle de armas com os Estados Unidos. 

"Quando negociamos e assinamos o tratado [Novo START], levamos todas as questões em consideração. Havia apenas uma coisa que não estava coberta, as armas que a Rússia desenvolveu em resposta à saída dos EUA do Tratado Antimísseis Balísticos, nosso novo sistema hipersônico de alta precisão. Os EUA, assim como outros países, não têm um sistema como esse, mas todo mundo está trabalhando nisso e o terá um dia. Eles nos dizem que temos esse sistema, enquanto eles não têm, então deveríamos adicioná-lo [ao tratado]. Mas nós não ligamos para isso, deixem-nos cobrir isso em termos de mísseis e ogivas", declarou.

Em relação ao Novo START, Putin deixou claro que a segurança da Rússia não depende dele, por isso Moscou não vai "se prender" à extensão do mesmo.

"Já disse isso e vou dizer outra vez, não vamos nos prender a esse acordo. Se nossos parceiros decidirem que ele não é necessário, então que seja. Não podemos impedi-los. Nossa segurança, a segurança da Rússia, não será afetada, especialmente porque temos as armas mais avançadas", declarou.

O presidente Putin também falou que a China não é o único país que deveria ser incluído nas discussões sobre o controle de armas, mas todas as potências nucleares. 

Os EUA têm sugerido que Pequim deveria tomar parte nas conversas que anteriormente incluíam apenas Washington e Moscou.

"Se você quer incluir a China neste processo e fazê-la assinar o tratado, então por que somente a China? Onde estão as outras potências nucleares? Onde está a França, que recentemente testou outro sistema de míssil de cruzeiro lançado por um submarino? Ela é uma potência nuclear também. Onde está o Reino Unido? Há outras potências nucleares que não são reconhecidas como tal, mas todos sabem que possuem armas nucleares [...] vamos envolvê-las também" sugeriu.

Nagorno-Karabakh

Sobre os enfrentamentos no Cáucaso envolvendo Armênia e Azerbaijão em torno do território de Nagorno-Karabakh, Vladimir Putin assinalou que espera que, nas conversas que acontecerão em Washington, os Estados Unidos atuem "em uníssono" com a Rússia e ajudem a solucionar o conflito.

Os ministros das Relações Exteriores de Armênia e Azerbaijão vão se encontrar na sexta-feira (23) em Washington para discutir meios para acabar com as hostilidades em Nagorno-Karabakh.

"Espero que nossos parceiros americanos atuem em uníssono com nossos esforços e ajudem em uma resolução. Vamos torcer pelo melhor", disse Putin.

O presidente russo acrescentou que Moscou sempre teve relações especiais com Erevan e Baku, que são dois parceiros estratégicos e importantes da Rússia, apesar do conflito em Nagorno-Karabakh. Além disso, o chefe de Estado comentou que mais de dois milhões de armênios e aproximadamente o mesmo número de azeris vivem na Rússia, e assinalou que essas populações têm relações muito próximas com a Rússia e seus cidadãos.

"É por isso que tanto a Armênia quanto o Azerbaijão são parceiros igualmente importantes, e é uma enorme tragédia para nós que as pessoas morram ali. Nós queremos construir relações de pleno-direito com Armênia e Azerbaijão", disse Putin, ao acrescentar que tem contato bastante próximo com o presidente azeri Ilham Aliev e o primeiro-ministro armênio Nikol Pashinyan. "Falamos pelo telefone diversas vezes ao dia" disse Putin.

Caso Navalny

Durante a sua participação no Clube Valdai de Discussões Internacionais, Putin também falou sobre o suposto caso de envenenamento do opositor Aleksei Navalny. Para o presidente, as autoridades russas jamais teriam deixado o opositor sair do país para receber tratamento na Alemanha se tivessem tentado envenená-lo, especialmente devido às restrições de viagens às quais ele está submetido por envolvimento em um caso criminal.

"Se as autoridades quisessem envenená-lo, jamais deixariam que ele viajasse para a Alemanha para receber tratamento. Assim que a esposa desse cidadão me enviou uma requisição, eu imediatamente pedi aos procuradores que checassem se ele poderia deixar o país para tratamento. Eles poderiam rejeitar o pedido porque ele estava submetido a restrições de viagem impostas pela Justiça, relacionadas a seu envolvimento em um caso criminal. Eu imediatamente solicitei ao Escritório do Procurador-Geral que permitisse que ele viajasse, e ele deixou o país", disse Putin.

O presidente reiterou que Escritório do Procurador-Geral da Rússia fez contato com a parte alemã para fazer com que os materiais do caso, incluindo materiais biológicos, fossem disponibilizados a Moscou para que uma investigação formal sobre o incidente pudesse ser aberta.

"Em seguida, eu ofereci com um dos líderes europeus para enviar nossos especialistas à Alemanha para que pudessem trabalhar em conjunto com os especialistas franceses, alemães e suecos e terem acesso aos materiais que poderiam ser usados para abrir um caso criminal investigá-lo, se realmente houve crime. Mas eles não nos deram nada", disse Putin.

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