Salles foge da imprensa brasileira e só fala com jornalistas franceses em Paris

Ministro do Meio Ambiente não aparece para entrevista coletiva na embaixada do Brasil. Bolo deixou perplexo até os assessores da embaixada brasileira, que garantiram não terem sido prevenidos. Ricardo Salles, no entanto, deu entrevista ao jornal conservador Le Figaro

(Foto: Marcelo Camargo - ABR)
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Adriana Brandão, da RFI - A entrevista coletiva do ministro brasileiro do Meio Ambiente Ricardo Salles em Paris estava marcada para o final da tarde desta sexta-feira (27) na embaixada do Brasil. 

Sem nenhuma explicação, Salles não apareceu e enviou em seu lugar o embaixador Carlos Márcio Cozendey, delegado do Brasil junto a Organizações Internacionais Econômicas em Paris. Salles iniciou na capital francesa um giro pela Europa visando melhorar a imagem internacional do país, arranhada pelos incêndios e desmatamento acelerado na Amazônia.

O bolo de Ricardo Salles deixou perplexo até os assessores da embaixada brasileira, que garantiram não terem sido prevenidos. O assessor de imprensa do ministro, que também não apareceu, não respondeu às mensagens e telefonemas dos jornalistas presentes pedindo esclarecimentos. 

Carlos Cozendey também não soube explicar porque Ricardo Salles resolveu não falar com a imprensa e tão pouco onde ele estava. Disse apenas que o ministro lhe pediu para substituí-lo e detalhar sua participação em uma reunião nesta sexta-feira, na Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Ricardo Salles chegou a Paris na quinta-feira (25) vindo diretamente de Nova York, onde ocorreu a Cúpula do Clima da ONU. A capital francesa foi a primeira etapa de um giro europeu com o objetivo de “esclarecer a política ambiental brasileira”. Ele se encontrou com dirigentes de grandes empresas francesas, entre elas a petrolífera Total e companhias de energia EDF e Engie.

A reunião aconteceu na residência do embaixador brasileiro em Paris. No mesmo momento, do lado de fora, ativistas do Greenpeace protestaram contra a política ambiental do governo Bolsonaro e, segundo comunicado da ONG, contra a cumplicidade da “França e de empresas como a Total, que desenvolvem projetos destrutivos no Brasil".

OCDE

O embaixador Carlos Cozendey disse que o ministro apresentou na OCDE a política ambiental brasileira como parte do processo de adesão do Brasil à organização, sediada em Paris. A apresentação estava prevista há vários meses e ele decidiu vir pessoalmente defender a posição brasileira. Essa decisão foi tomada “antes da crise e dos incêndios na Amazônia”, garantiu Cozendey.

Ao comitê da OCDE, Salles “reafirmou o compromisso do Brasil com o acordo de Paris”. O ministro disse que defende a “bioeconomia”, o desenvolvimento sustentável e a busca de atividades produtivas que permitam aos 20 milhões de moradores da região amazônica de viver e não cair em atividades ilegais”.

Imprensa francesa

O ministro brasileiro fugiu da coletiva à imprensa na embaixada, mas falou com exclusividade a alguns jornalistas franceses. Le Figaro publicou nesta sexta-feira a entrevista com Ricardo Salles como o título: “Amazônia; o Brasil contra-ataca”. O ministro também conversou com a Agência France Presse. Aos dois veículos, ele afirmou as mesmas coisas.

O jornal conservador escreve que Salles veio “denunciar a desinformação das últimas semanas sobre a responsabilidade do governo Bolsonaro na aceleração do desmatamento da Amazônia”. À AFP ele declarou que veio "fornecer dados completos porque, nos últimos meses, muitas informações sobre os incêndios na Amazônia foram imprecisas". O desmatamento na floresta quase dobrou desde que Jair Bolsonaro chegou ao poder em janeiro de 2019, em comparação com o mesmo período do ano passado, mas à AFP Ricardo Salles declarou que é preciso examinar "todos os dados históricos" desde 2004 - 2005, quando "o desmatamento atingiu o triplo de hoje, antes de declinar e depois subir, ano após ano, a partir de 2012".

"Precisamos focar nas origens desse aumento", que ele aponta estar essencialmente ligado ao "desmatamento ilegal, que devemos combater". Segundo Le Figaro, o advogado de formação, contestado por suas posições a favor do agronegócio, recusa as críticas e as afirmações de que os drásticos cortes orçamentários em seu ministério contribuíram para o aumento dos incêndios. Para a Salvaguarda da Amazônia, Brasília propõe antes de mais nada uma resposta econômica. “Se quiserem ajudar o Brasil, invistam no país”, pediu.

Evolução da situação

Salles promete ao Le Figaro que a “situação dos incêndios na Amazônia vai melhorar rapidamente”. O jornal espera ver as provas fornecidas pelas imagens dos satélites.

Questionado sobre as acusações de "colonialismo" feitas pelo presidente Bolsonaro em seu discurso na ONU, implicitamente contra a França, o ministro do Meio Ambiente lembrou à AFP as "relações históricas e fortes" entre a França e o Brasil, especialmente "em termos de investimentos".

No entanto, nenhum encontro oficial ou reunião política com autoridades francesas foi programada durante a visita de Salles a Paris. Tudo indica que a tensão diplomática entre os dois países, provocada pela reação de Bolsonaro à posição do presidente Macron sobre os incêndios na Amazônia, ainda não foi superada.

Da França, o ministro brasileiro do Meio Ambiente viaja para a Alemanha, onde deve tentar relançar o financiamento alemão para o Fundo Amazônia. Por fim, ele vai ao Reino Unido.

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