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Estatais de petróleo devem acelerar transição energética, aponta estudo

Estudo indica Petrobras entre empresas com maior potencial para liderar mudança global no setor de óleo, gás e renováveis

Estatais de petróleo devem acelerar transição energética, aponta estudo (Foto: Divulgação)
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247 - As empresas nacionais de óleo e gás, responsáveis por parcela decisiva da produção e das reservas mundiais, devem ocupar papel central na transição energética, desde que deixem de tratar a mudança como um ajuste marginal e passem a adotar planos robustos de diversificação, descarbonização e investimento em fontes renováveis.

As informações são do Valor Econômico, que destacou na sexta-feira (22) um estudo encomendado pela Global Gas and Oil Network (GGON), rede internacional formada por mais de 300 organizações da sociedade civil em 60 países. O levantamento analisou 33 companhias nacionais de petróleo e gás, conhecidas pela sigla NOCs, e classificou a Petrobras entre as empresas com melhores condições para liderar uma transição energética global.

Segundo o estudo, essas companhias controlam 55% da produção mundial de petróleo e gás e cerca de dois terços das reservas conhecidas. Apesar desse peso, o relatório aponta que a maioria ainda não dispõe de planos de transição considerados viáveis. Mesmo as empresas vistas como mais avançadas no processo têm adotado movimentos classificados como discretos.

O relatório “Caminhos para uma transição justa para as empresas nacionais de petróleo” foi coordenado pelo pesquisador Adriàn Correa-Florez, professor da Universidad Distrital Francisco José de Caldas, na Colômbia, e ex-diretor da Unidade de Planejamento de Mineração e Energia do país. O trabalho teve três objetivos principais: classificar as empresas conforme suas realidades nacionais, propor rotas de transição e identificar como atores internacionais podem apoiar essa transformação.

“Precisávamos do máximo de informação sobre as reservas de petróleo e gás das NOCs, produção e estilos de governança, indicadores de transição energética justa, métricas de eficiência e de padrões ambientais”, afirmou Correa-Florez.

O pesquisador destacou que a dificuldade para obter dados completos das companhias já revelou um problema relevante. “Isso já nos levantou uma questão: é incrível que, em pleno século XXI, empresas que, em muitos casos são responsáveis pelas finanças nacionais, não forneçam informações completas de suas operações”, disse.

A análise partiu da constatação de que as empresas nacionais de petróleo e gás não formam um bloco homogêneo. Elas diferem em resiliência fiscal, perfil de produção, exposição a mercados globais, obrigações sociais e ambientais, além do grau de dependência que seus países mantêm em relação à renda dos combustíveis fósseis.

“Há diferenças estruturais entre elas. O que quer dizer que não existe um caminho de transição único que sirva para todas”, afirmou Correa-Florez.

O estudo dividiu as companhias em cinco grupos, com apoio de um algoritmo de inteligência artificial. No primeiro, foram colocadas empresas com grandes reservas, mas com operações menos eficientes e problemas de governança, como as estatais de Irã, Iraque, Venezuela e Líbia. No segundo grupo, ficaram empresas sem reservas tão amplas, mas localizadas em países fiscalmente vulneráveis ou muito endividados, caso da Pemex, do México, e das estatais da Nigéria, Argélia, Egito e Equador.

Um terceiro grupo reúne companhias de países importadores de energia, sem grandes reservas e voltadas principalmente à segurança energética doméstica, como empresas da China, Índia, Indonésia, Ucrânia e África do Sul. O quarto grupo inclui empresas com grandes reservas e operações mais eficientes, como as da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Abu Dhabi, Qatar, Kuait e Omã.

A Petrobras aparece no quinto grupo, formado por companhias consideradas mais próximas da vanguarda da transição ou com maior capacidade de avançar. Também estão nesse bloco Ecopetrol, da Colômbia, ENI, da Itália, Equinor, da Noruega, Petronas, da Malásia, PTT, da Tailândia, e YPF, da Argentina.

Correa-Florez, no entanto, evitou apresentar o grupo como exemplo acabado de transição. “Não sugerimos que estão bem posicionados, têm vários desafios à frente”, afirmou. Em seguida, resumiu a posição relativa dessas empresas: “São os alunos que mais fazem suas tarefas em uma classe de estudantes ruins”.

O relatório sustenta que cada empresa precisa adotar uma estratégia compatível com sua realidade nacional. Isso inclui reformas fiscais, diversificação produtiva e redirecionamento de investimentos para negócios sustentáveis. O texto também defende que as políticas públicas deixem de priorizar a preservação da renda fóssil e passem a construir resiliência econômica de longo prazo.

O estudo afirma ainda que argumentos segundo os quais a expansão da produção reduz pobreza ou garante segurança energética perderam força em um mercado global em rápida transformação. Para os autores, governos devem envolver trabalhadores do setor e comunidades afetadas no planejamento, com programas de requalificação profissional, proteção de renda e benefícios sociais.

Para Correa-Florez, a falta de planejamento pode elevar custos econômicos e sociais. “A transição acontecerá pela via do planejamento ou pela via do desastre”, afirmou. Segundo ele, países como Brasil, Noruega, Itália, Colômbia e Arábia Saudita têm economias complexas e capacidade de migrar para setores mais diversos, produtivos e sustentáveis.

Ex-presidente da Petrobras entre 2023 e 2024, Jean-Paul Prates avaliou que o relatório acerta ao colocar as companhias nacionais de petróleo e gás no centro da discussão climática e energética. “O estudo mostra que as empresas de petróleo precisam fazer a transição e são as grandes responsáveis pela transição”, afirmou.

Prates defendeu que o desafio não se limita à troca de matriz energética. “São empresas que não têm que fazer uma transição, mas uma metamorfose. Ao longo de 40 ou 50 anos estas estatais terão que se transformar em empresas de energia soberanas. É uma complicada mudança de natureza”, disse.

Para o ex-presidente da Petrobras, a questão central não é decretar o fim das NOCs, mas compreender quais delas serão capazes de se adaptar. “A pergunta não é se as NOCs devem desaparecer, mas quais tipos continuarão sendo relevantes em 40 ou 50 anos, quais perderão relevância e quais irão se transformar em outra coisa”, afirmou. “Não existe transição energética realista sem discutir o futuro destas empresas”.

Prates preside atualmente o conselho do Centro de Estratégias em Recursos Naturais e Energia (Cerne), entidade que reúne empresas de petróleo, mineração, renováveis e água. Para ele, o relatório reconhece a importância da infraestrutura acumulada por essas companhias. “O relatório gradua, sem fazer rankings, como estas plataformas gigantescas, que tiveram décadas de investimentos em engenharia, capacidade operacional, infraestrutura e capital podem ser estratégicas como empresas de energia e para minerais críticos também”, disse.

O ex-presidente da Petrobras afirmou que parte das empresas globais de óleo e gás já percebe o risco de adiar a transição. “Porque a realidade grita”, declarou. Sobre o Brasil, ele mencionou o potencial das fontes renováveis. “No caso do Brasil, pelo próprio potencial que a energia renovável tem. Como é que ficaremos de fora de algo que em 50 anos será o mais importante? É preciso se dirigir neste caminho. Evoluir em direção a um mix de geração energético mais composto”.

A advogada Suely Araújo, ex-presidente do Ibama e coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, também afirmou que as empresas nacionais podem exercer papel relevante na descarbonização. “É preciso entender a realidade destas empresas e ter propostas que olhem para isso”, disse.

Para Suely, as NOCs não devem ser vistas apenas como produtoras de petróleo, porque também integram estruturas de Estado e influenciam diretamente o planejamento energético. “São produtoras de petróleo, mas também são parte dos governos. Têm um lado importante no planejamento energético. Representam uma área com potencial para que se consigam avanços e políticas públicas ganhem força”, afirmou.

Ela ponderou, porém, que a diversificação precisa avançar em ritmo mais acelerado. “A atitude não pode ser a de explorar petróleo até o fim dos dias. Vamos ficar até quando expandindo a produção? Este cronograma não fecha”, disse.

Ao comentar o caso brasileiro, Suely defendeu a interrupção da abertura contínua de novas frentes exploratórias. “Se pare de fazer leilão toda hora. Não precisamos abrir fronteiras, vamos explorar nas áreas já abertas”, afirmou. Sobre a diferença em relação à visão de Prates, ela acrescentou: “No cronograma dele, o petróleo se extende por muito tempo. Temos que atuar rápido. Não podemos esperar”.

O estudo coloca a Petrobras em posição de destaque, mas condiciona esse potencial à adoção de políticas consistentes de redução da dependência dos combustíveis fósseis, ampliação de investimentos em renováveis e eletrificação. A conclusão é que as estatais de óleo e gás, por seu peso econômico, tecnológico e político, podem ser decisivas para uma transição ordenada, desde que a transformação deixe de ser tratada como promessa futura e passe a orientar decisões de investimento, governança e planejamento energético.

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