Edição genética. No Reino Unido, sinal verde à manipulação de embriões humanos

Acaba de ser aprovada Na Grã-Bretanha a utilização da técnica CRISPR/Cas9 para a edição genética em um restrito número de células-ovos (zigotos) fecundadas, no âmbito de uma pesquisa sobre as causas dos abortos espontâneos. Mas há quem se preocupe com as possíveis derivações eugenéticas dessa tecnologia.

Acaba de ser aprovada Na Grã-Bretanha a utilização da técnica CRISPR/Cas9 para a edição genética em um restrito número de células-ovos (zigotos) fecundadas, no âmbito de uma pesquisa sobre as causas dos abortos espontâneos. Mas há quem se preocupe com as possíveis derivações eugenéticas dessa tecnologia.
Acaba de ser aprovada Na Grã-Bretanha a utilização da técnica CRISPR/Cas9 para a edição genética em um restrito número de células-ovos (zigotos) fecundadas, no âmbito de uma pesquisa sobre as causas dos abortos espontâneos. Mas há quem se preocupe com as possíveis derivações eugenéticas dessa tecnologia. (Foto: Luis Pellegrini)
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A engenharia genética deverá revolucionar nossos conhecimentos nas áreas da biologia, da medicina e das técnicas de fertilização.


 

Por: Equipe Oásis

 

Um grupo de biólogos ingleses recebeu da Human Fertilisation and Embryology Authority (HFEA) – a entidade do Ministério da Saúde britânico que regulamenta  as pesquisas sobre embriões, células-ovos, espermatozoides e fertilidade e decide sobre as autorizações para a realização de experiências de edição genética em embriões humanos.

Pela primeira vez no Ocidente - A equipe, guiada pela cientista Kathy Niakan, do Instituto Francis Crick, de Londres, será o primeiro grupo de pesquisa fora da China a  tentar a prometedora porém controvertida técnica CRISPR/Cas9 no âmbito humano. O objetivo do projeto é compreender, com a desativação dirigida de fragmentos específicos de DNA, quais genes governam as primeiras fases do desenvolvimento celular do embrião, e remontar desse modo às causas de numerosos abortos espontâneos que acontecem nas primeiríssimas fases de uma gravidez.

Quatorze dias apenas – A pesquisa será com embriões doados por casais que terão feito tratamentos de fecundação in vitro, os quais serão estudados nos primeiros sete dias de desenvolvimento, durante a passagem de uma única célula-ovo fecundada até a formação de um conjunto de 250 células. Os embriões estarão disponíveis por apenas 14 dias e unicamente com o objetivo de pesquisa, e não será permitida a implantação deles em nenhuma paciente.

 

Uma célula humana fertilizada – ou zigoto -, vista ao microscópio eletrônico um dia após a concepção. Science Photo Library

 

Tentativas dirigidas - Niakan e seus colegas poderão utilizar a CRISPR/Cas9 – uma técnica já testada em animais, que permite intervir com precisão molecular sobre partes especificas do DNA – para ativar e desativar genes escolhidos em embriões com um dia de vida, e verificar, sete dias depois, os efeitos da intervenção.

O que está errado? - Durante a primeira semana de desenvolvimento do embrião as células começam a se diferenciar. Algumas formarão a placenta e o saco vitelino, outros o feto. Os biólogos acreditam ter identificado os genes que presidem essa forma de organização, e disfunções dos mesmos poderiam ser a origem dos abortos espontâneos que podem ocorrer logo depois da implantação. O único modo de ter certeza a respeito das suas funções é tentando desativá-los: a técnica servirá para verificar o papel de três ou quatro genes, em particular o gene OCT4.

As reações – Grande parte dos médicos britânicos que se ocupam de infertilidade acolheu favoravelmente a notícia, por causa da importância do projeto e das repercussões que os dados obtidos poderão ter na cura das interrupções espontâneas da gravidez.

Implicações éticas – Outros criticam a decisão, porque acreditam que a experiência de Niakan seja um primeiro passo para a produção de embriões sob medida, e inclusive abra a estrada para experiências de eugenética, com modificações do DNA que teriam consequências imprevisíveis se fossem desenvolvidas em laboratórios.

No âmbito da genética, o termo eugenética se refere a métodos voltados para o aperfeiçoamento da espécie humana através da seleção ou modificação das características genéticas.

Parte da comunidade científica teme, por outro lado, que o debate suscitado por esse projeto possa retardar outros usos, menos controvertidos, da mesma técnica, por exemplo dos tratamentos para condições como a distrofia muscular ou a anemia falciforme.

 

Wendy (esquerda) a famosa fêmea whippet geneticamente modificada pelos chineses, comparada a um whippet normal.

 

A China está bem mais adiantada

Na China, desde o ano passado, cientistas conduzem experiências com edição de genes para corrigir embriões que carregam uma desordem no sangue. Porém, de acordo com o consultor do órgão que regula a fertilidade no Reino Unido, Robin Lovell-Badge, o país ainda não tem uma regulamentação precisa sobre o assunto.

“A China tem orientações, mas não há clareza sobre quais elas são até que faça algum experimento e acabe passando por cima de alguma delas”, disse ele à rede britânica BBC. “Esta é a primeira vez que esse tema passou por uma regulamentação adequada e foi aprovado”, destacou o especialista.

Infertilidade - As experiências com edição de genes ocorrerão nos primeiros sete dias depois da fertilização. Durante esse período, o óvulo fertilizado se transforma em uma estrutura chamada de “blastocisto”, contendo entre 200 e 300 células. O trabalho será liderado por Kathy Niakan, especialista que passou a última década pesquisando a área.

“Nós realmente gostaríamos de compreender os genes que permitem um embrião humano se transformar em um bebê saudável”, explicou ela, em uma entrevista à BBC no início do ano. “Abortos espontâneos e infertilidade são muito comuns, porém, mal compreendidos, razão pela qual o estudo é tão importante”, afirmou.

 

Embrião humano nos primeiros dias de desenvolvimento.

 

Células - De um total de cem óvulos fertilizados, menos de 50 chegam ao estágio de blastocisto, 25 se implantam no útero e somente 13 se desenvolvem para além de três meses. No estágio de blastocisto, algumas células se organizam para fazer determinados papéis: vão para a placenta, para o saco vitelino ou para a formação do bebê propriamente dito. Como e por que essa divisão ocorre ainda é desconhecido, mas os cientistas observam que certas partes do DNA são extremamente ativas nesse estágio.

Esses são os genes que os estudiosos pretendem modificar em embriões de doadores. Com a aprovação das pesquisas, os trabalhos devem começar nos próximos meses.

Acompanhamento. Segundo a professora Sarah Chan, da Universidade de Edimburgo, os aspectos éticos desses estudos devem ser acompanhados de perto.

“O uso de tecnologias de edição de genoma em pesquisas com embriões toca em algumas questões sensíveis, então é apropriado que esses estudos e suas implicações éticas tenham sido cuidadosamente considerados pela HFEA antes de terem dado a aprovação. Devemos ficar confiantes de que nosso sistema regulatório nessa área está funcionando bem para manter alinhados ciência e interesses sociais”, disse a especialista.

 

Super homens geneticamente modificados. Novas técnicas permitirão modificar características físicas como cor dos olhos e dos cabelos, estatura, musculatura.

 

Alteração cura leucemia em paciente

Londres - A edição genética resultou na cura de uma menina britânica, em novembro passado. Layla Richards venceu a leucemia graças a um tratamento com células imunes manipuladas geneticamente.

O tratamento foi feito no Great Ormond Street Hospital (GOSH), de Londres. “Como era a primeira vez que era realizado, não sabíamos se funcionaria. Comemoramos muito o sucesso do tratamento”, disse Paul Veys, diretor de transplantes de medula no GOSH.

 

À esquerda, um boi normal. À direita, um exemplar geneticamente modificado da mesma raça.

 

Especialista ‘freia’ procedimento que aperfeiçoa pessoas

No fim do ano passado, uma técnica nova de edição genética virou alvo de extenso debate ético pela comunidade científica. Atualmente, as aplicações clínicas estão paralisadas, aguardando mais pesquisas que provem os resultados da edição genética que a “CRISPR-Cas9” propõe.

“É importante saber que a tecnologia CRISPR nos dá uma ferramenta para fazer tais mudanças (melhoramentos genéticos em humanos). Isso levanta uma série de questões éticas que precisamos abordar. Foi por isso que meus colegas e eu pedimos uma pausa mundial em qualquer aplicação clínica da tecnologia CRISPR em embriões humanos: para nos dar tempo de realmente considerar todas as implicações de se fazer isso”, declarou Jennifer Doudna, uma das criadoras da CRISPR-Cas9, em uma palestra na Universidade de Londres.

“Pesquisas básicas e pré-clínicas intensivas são claramente necessárias e devem continuar, sujeitas a regras éticas e legais apropriadas”, trouxe o comunicado emitido pelo grupo. “Seria irresponsável proceder qualquer utilização clínica de edição da linha germinativa”, a menos que as questões de segurança sejam compreendidas.

A possibilidade da edição genética levanta também uma preocupação social. “‘Melhorias’ genéticas permanentes para os subgrupos da população poderiam exacerbar as desigualdades sociais ou serem usadas coercivamente”, consideraram os especialistas.

O parecer do grupo foi avaliado por especialistas como muito “responsável”.

 

Um cão da raça whippet com genes modificados por cientistas chineses (à esquerda), e à direita um exemplar normal de cachorro da mesma raça.

 

Aplicação técnica - A CRISPR-Cas9 já foi usada em alguns casos. Entre eles, está um experimento de cientistas chineses que usaram a técnica para criar cães das raças beagle, whippet e outras com o dobro de massa muscular de um animal comum.

 

 

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