O poder da sociedade civil. Quatro lições da guerra contra as drogas e a violência armada

Quando desenvolvia uma carreira na rede bancária, a “transformadora política” carioca Ilona Szabó de Carvalho nunca imaginou que estaria um dia na cabeça de um movimento social. Mas morando no Brasil, campeão mundial em índices de violência homicida, ela percebeu que não poderia continuar apenas como espectadora desse processo.

Quando desenvolvia uma carreira na rede bancária, a “transformadora política” carioca Ilona Szabó de Carvalho nunca imaginou que estaria um dia na cabeça de um movimento social. Mas morando no Brasil, campeão mundial em índices de violência homicida, ela percebeu que não poderia continuar apenas como espectadora desse processo.
Quando desenvolvia uma carreira na rede bancária, a “transformadora política” carioca Ilona Szabó de Carvalho nunca imaginou que estaria um dia na cabeça de um movimento social. Mas morando no Brasil, campeão mundial em índices de violência homicida, ela percebeu que não poderia continuar apenas como espectadora desse processo. (Foto: Gisele Federicce)

 

 

Vídeo: TED – Ideas Worth Spreading

Tradução: Túlio Leão. Revisão: Leonardo Silva 

A ativista social e política carioca Ilona Szabó de Carvalho entendeu que o consumo e o tráfico de drogas e a violência homicida cada vez mais transformavam o Brasil num país à parte. Decidiu então participar ativamente da criação de uma organização, o Instituto Igarapé (en.igarape.org.br), no Rio de Janeiro, cujo foco principal é a segurança do cidadão e a política do desenvolvimento. Nesta palestra, Ilona Szabó de Carvalho revela quatro lições cruciais que ela aprendeu quando abandonou o seu emprego confortável e assumiu um postura destemida contra o status quo.

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Tradução integral da palestra de Ilona Szabó de Carvalho:

 

Há cerca de 12 anos, eu desisti de minha carreira bancária para tentar tornar o mundo um lugar mais seguro. Isso envolveu uma jornada em advocacia global e nacional e encontros com algumas das pessoas mais extraordinárias do mundo. No processo, me tornei diplomata da sociedade civil.

Diplomatas da sociedade civil fazem três coisas: expressam as preocupações do povo, não são influenciados por interesses nacionais e motivam mudanças através de redes de cidadãos, não apenas redes estatais. E se quisermos mudar o mundo, precisamos de mais deles.

Mas muitos ainda perguntam: "Será que a sociedade civil pode fazer tanta diferença? Será que os cidadãos podem influenciar e moldar a política global e nacional?" Nunca achei que fosse me perguntar isso, mas cá estou para compartilhar algumas lições sobre os poderosos movimentos da sociedade civil em que me envolvi. Eles defendem questões pelas quais sou apaixonada: controle de armas e política de drogas. E essas são questões que importam aqui. A América Latina é o marco inicial para ambas.

 

 

O Brasil, por exemplo, este lindo país sediando o TEDGlobal tem o recorde mundial mais feio. Somos o campeão, o número um, em violência homicida. Uma em cada dez pessoas mortas ao redor do mundo é brasileira. Isso resulta em mais de 56 mil pessoas morrendo violentamente a cada ano. A maioria delas são jovens garotos negros, mortos a tiro. O Brasil também é um dos maiores consumidores de drogas do mundo, e a Guerra às Drogas tem sido especialmente dolorosa aqui. Cerca de 50% dos homicídios nas ruas brasileiras são relacionados à Guerra às Drogas. O mesmo vale para 25% dos presos. E não é só o Brasil que é afetado pelos problemas irmãos de drogas e armas. Praticamente todos os países e cidades das Américas Central e do Sul estão em apuros. A América Latina tem 9% da população mundial, mas, globalmente, 25% das mortes violentas.

Esses não são problemas dos quais podemos correr. Eu certamente não poderia. Então a primeira campanha com a qual me envolvi começou aqui, em 2003, para mudar a lei brasileira de porte de armas e para criar um programa de desarmamento. Em apenas alguns anos, não apenas mudamos a legislação nacional, que dificultou o porte de armas por civis, mas também coletamos e destruímos quase meio milhão de armas. Esse foi um dos maiores programas de desarmamento da história. (Aplausos) Mas também lidamos com contratempos. Perdemos um referendo em 2005 que proibiria a venda de armas a civis.

A segunda iniciativa também foi caseira, mas é hoje um movimento global para reformar o regime de controle de drogas. Sou a coordenadora executiva de algo chamado: A Comissão Global de Política de Drogas. A comissão é um grupo de alto nível que reúne líderes globais para identificar abordagens mais humanas e efetivas à questão das drogas. Desde que começamos em 2008, o tabu das drogas está quebrado. Por toda a América, desde EUA e México até Colômbia e Uruguai, a mudança está pairando.

Mas em vez de contar a vocês toda a história desses dois movimentos, quero compartilhar quatro pontos-chave. Eu os chamo de lições para mudar o mundo. Há certamente muitas mais, mas essas são as que se destacam para mim.

 

 

Então a primeira lição é: mude e controle a narrativa. Pode parecer óbvio, mas o principal ingrediente para a diplomacia da sociedade civil é primeiro mudar e então controlar a narrativa. Isso é algo que políticos veteranos sabem, mas que grupos da sociedade civil normalmente não realizam direito. No caso da política de drogas, nosso maior sucesso foi mudar a discussão de realizar uma Guerra às Drogas para colocar a saúde e segurança das pessoas em primeiro lugar. Num relatório inovador que acabamos de lançar em Nova Iorque, mostramos que os grupos que mais se beneficiam desse mercado de 320 bilhões de dólares são as quadrilhas e cartéis. Então para que possamos tirar o poder e lucro desses grupos, temos de mudar a conversa. Temos de legalizar as drogas ilegais. Mas, antes de deixá-los animados demais, não quero dizer que as drogas devem ser um vale-tudo. O que estou falando, e o que a Comissão Global advoga, é criar um mercado altamente regulado, onde diferentes drogas seriam reguladas com diferentes severidades.

Já para o controle de armas, tivemos sucesso em mudar, mas não muito em controlar a narrativa. E isso me leva à próxima lição: nunca subestime seus oponentes. Se quiser ser bem-sucedido em mudar o mundo, você tem de saber quem está enfrentando. Tem de aprender as motivações e pontos de vista deles. No caso do controle de armas, subestimamos muito os nossos oponentes. Após um programa de desarmamento extremamente bem-sucedido, estávamos exultantes. Tínhamos o apoio de 80% dos brasileiros, e acreditávamos que isso nos ajudaria a ganhar o referendo para banir a venda de armas a civis. Mas estávamos completamente errados. Durante a transmissão de um debate público de 20 dias, nosso oponente usou nossos próprios argumentos contra nós. Acabamos perdendo o voto popular. Foi terrível. A Associação Nacional de Rifles, sim a NRA americana, veio ao Brasil. Eles inundaram nossa campanha com seus próprios ideais, que, como vocês sabem, relacionam o direito de portar armas com ideias de liberdade e democracia. Eles simplesmente usaram tudo contra nós. Eles usaram nossa bandeira nacional, nosso hino de independência. Eles invocaram os direitos da mulher e usaram impropriamente fotos do Mandela, da Praça da Paz Celestial e até do Hitler. Eles ganharam ao brincar com o medo das pessoas. De fato, as armas foram quase que completamente ignoradas na campanha deles. Seu foco era em direitos individuais. Mas pergunto a vocês qual direito é mais importante: o direito à vida ou o direito de ter uma arma que a tira? (Aplausos)

 

 

Pensávamos que as pessoas votariam em defesa da vida, mas em um país com histórico recente de ditadura militar, o recado antigovernamental de nossos oponentes ressoou, e não estávamos preparados para reagir.

Lição aprendida. Nós tivemos mais sucesso no caso da política de drogas. Se há dez anos você perguntasse às pessoas se o fim da Guerra às Drogas era possível, a maioria teria achado graça. Afinal, há enormes prisões militares policiais e estabelecimentos financeiros se beneficiando dessa guerra. Mas hoje, o regime internacional de controle de drogas está desabando. Governos e sociedades civis estão tentando novas abordagens. A Comissão Global de Política de Drogas realmente conhece a oposição e, em vez de lutar com ela, nosso presidente, o ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, dialogou com líderes de todo o espectro político, desde liberais até conservadores. Esse grupo de alto escalão concordou em discutir honestamente os méritos e falhas das políticas de drogas. Foi essa discussão fundamentada, informada e estratégica que revelou a triste realidade da Guerra às Drogas. A Guerra às Drogas falhou catastroficamente em cada métrica. As drogas estão mais baratas e acessíveis do que nunca, e o consumo global aumentou. Mas, pior ainda, também gerou massivas e indesejadas consequências negativas. É verdade que algumas pessoas já levantaram esses argumentos antes, mas fizemos a diferença ao antecipar os argumentos de nossos oponentes e ao potencializar as vozes poderosas que há alguns anos teriam resistido à mudança.

 

 

Terceira lição: use dados para conduzir os seus argumentos. Armas e drogas são questões emotivas, e como aprendemos de forma dolorosa no referendo sobre armas no Brasil, algumas vezes é impossível se libertar das emoções e enxergar os fatos. Mas isso não significa que não devamos tentar. Até recentemente, simplesmente não sabíamos quantos brasileiros eram mortos a tiro. Incrivelmente, foi uma novela chamada "Mulheres Apaixonadas" que deu o pontapé para a campanha de controle de armas no Brasil. Em um episódio muito assistido, a protagonista da novela foi morta por uma bala perdida. Avós e donas de casa ficaram enfurecidas, e em um caso de arte imitando a vida, esse episódio incluiu uma filmagem real de uma marcha sobre o porte de armas que havíamos organizados bem aqui, na praia de Copacabana. As marchas e morte televisionadas tiveram grande impacto na opinião pública. Em algumas semanas, nosso Congresso aprovou a lei de desarmamento que estava tramitando há anos. Fomos então capazes de mobilizar dados para mostrar o resultado positivo das mudanças na lei e no programa de desarmamento. Eis o que quero dizer: pudemos provar que, em apenas um ano, salvamos mais de 5 mil vidas. (Aplausos)

E no caso das drogas, para amenizar o medo e o preconceito em torno dessa questão, conseguimos coletar e apresentar dados que mostram que essas políticas de drogas causam muito mais danos que o uso de drogas, e as pessoas estão começando a entender.

 

 

Minha quarta lição é: não tenha medo de reunir pessoas antagônicas. O que aprendemos no Brasil, e isso não se aplica apenas ao meu país, é a importância de reunir pessoas diversas e ecléticas. Se quiserem mudar o mundo, é de grande ajuda ter uma boa amostra da sociedade ao seu lado. Em ambos os casos, das drogas e das armas, reunimos uma maravilhosa combinação de pessoas. Mobilizamos a elite e conseguimos apoio maciço da mídia. Juntamos vítimas, heróis dos direitos humanos e ícones culturais. Também reunimos as classes profissionais, médicos, advogados, acadêmicos e mais.

O que aprendi ao longo dos anos é que precisamos de apoio dos dispostos e dos relutantes para ter mudanças. No caso das drogas, precisávamos dos libertários, legalizadores, antiproibicionistas e políticos liberais. Eles podem não concordar em tudo. Na verdade, eles discordam em quase tudo. Mas a legitimidade de uma campanha é baseada nesses diversos pontos de vista.

Há mais de uma década, eu tinha um futuro confortável trabalhando em um banco de investimentos. Eu estava o mais longe possível da diplomacia da sociedade civil que você pode imaginar. Mas eu abracei uma oportunidade. Eu mudei minha rota e, no caminho, ajudei a criar movimentos sociais que acredito terem feito suas partes em deixar o mundo mais seguro. Cada um de nós tem o poder de mudar o mundo. Não importa qual a questão, nem a dificuldade da luta; a sociedade civil é o cerne do planejamento para a mudança.

Obrigada.

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