A decolagem do Boeing

Intenções de voto em março não indicam quem será vitorioso e quem será derrotado se a eleição é em outubro

Em 1994 o candidato do PT ao governo do Distrito Federal era o professor Cristovam Buarque, que havia sido reitor da Universidade de Brasília. Na verdade, quase ninguém no PT acreditava que Cristovam seria eleito, pois só era conhecido em meios muito restritos, não tinha carisma e a única eleição que havia disputado era para reitor. Além disso, o então governador Joaquim Roriz gozava de grande popularidade, especialmente nos segmentos mais pobres, e teria um candidato forte: ou o secretário de Obras, José Roberto Arruda, ou o senador Valmir Campelo, que acabou sendo o escolhido.

Nas pesquisas realizadas nos primeiros meses de 1994, Cristovam aparecia com 2%, 3% das intenções de voto. Seu nível de conhecimento era baixíssimo. A opinião geral em Brasília, inclusive na oposição a Roriz, era de que a eleição seria decidida pelo candidato do governador, fosse quem fosse, ainda no primeiro turno. E Cristovam, como se dizia, não decolava. Lembrava-se que, quatro anos antes, o candidato do PT, um médico desconhecido da população, havia ficado em segundo lugar com 24% dos votos

Começou então um movimento no PT para substituir Cristovam por um candidato mais conhecido e que tivesse maior intenção de votos naquele momento. O mais falado era o deputado Chico Vigilante, bastante identificado com o PT, sindicalista, atuante, muito conhecido em todo o DF. Ele geralmente aparecia com 20% a 25% das intenções de voto. A movimentação de alguns petistas e de dirigentes de outros partidos de esquerda, para mudar de candidato, repercutiu na imprensa e alguns colunistas, que não gostavam nem de Cristovam, nem do PT, passaram a publicar notas defendendo a mudança.

O deputado, porém, em nenhum momento concordou com a mudança e alguns outros dirigentes do PT impediram que a movimentação avançasse. Foi feita a eles uma leitura mais completa e mais correta das pesquisas, inclusive da única realizada, em todo o primeiro turno, pela campanha de Cristovam. Essa leitura não se restringe a uma suposta interpretação das intenções de voto seis meses antes da data da eleição. Por que esse dado, tanto tempo antes, é quase irrelevante.

Uma leitura levando em conta também os índices de conhecimento e de rejeição de cada candidato, as expectativas dos eleitores, o perfil do governador que queriam e outras informações, mostrava com clareza que Cristovam tinha condições de sair dos 3% para o segundo turno, e que Chico Vigilante – e outros menos cotados para substituir o ex-reitor – começaria bem na frente, mas pararia, no limite, em 30%. E assim sequer iria para o segundo turno, quando, como se sabe, começa uma nova eleição.

Cristovam continuou candidato e Roriz escolheu Valmir Campelo como, praticamente, seu sucessor. Sem dinheiro e com pouca mobilização do PT e aliados à época (PDT, PSB, PCdoB, PPS, PCB, PSTU), Cristovam demorou a decolar, mesmo com Lula liderando as pesquisas para presidente da República. E assim, no meio da campanha, surgiu de novo a ideia de substituí-lo, que não foi à frente porque ninguém queria entrar naquela que parecia uma grande fria. A derrota era dada como certa.

Alguém, porém, fez a comparação que se mostrou acertada. Disse que o PT era como um Boeing, que precisa de muita pista e demora a decolar. Quando decola, voa alto e em velocidade. Um teco-teco decola rapidamente e com pouca pista, mas voa baixo e devagar. E assim Cristovam continuou candidato, decolou no último mês de campanha, foi para o segundo turno e se elegeu governador. O favoritíssimo Valmir Campelo acabou indo para o Tribunal de Contas da União e Roriz saiu de cena para voltar em 1998 e se eleger governador novamente, derrotando o então favoritíssimo Cristovam, que tentava a reeleição depois de um governo muito bem avaliado.

Há inúmeras histórias como essa em eleições brasileiras. Candidatos que largam na frente e ficam na rabeira, sequer indo para o segundo turno. Candidatos que parecem não ter a menor chance e se elegem. Definir vitoriosos e derrotados com base em intenção de votos tanto tempo antes da eleição é uma enorme bobagem. Muita coisa pode acontecer até outubro, e neste período há até mesmo uma campanha eleitoral...

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