A economia pode derrotar Dilma ano que vem? Duvido!

Só o que pode derrotar Dilma, ano que vem, é a política. A economia será sua aliada. A direita midiática não entende de economia. Basta lembrar das previsões que vem fazendo

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Afinal de contas, a nossa economia vai bem ou vai mal? O emprego e a renda crescem sem parar, mas o PIB anda de lado, a indústria não aumenta a sua produção e a inflação não mostra sinais de acomodação.

Esse paradoxo está sendo visto como um "mistério" da economia brasileira. Como é possível haver criação de empregos e aumento na renda das famílias se o setor produtivo e boa parte da economia estão estagnados?

Você tem alguma explicação para esse fenômeno? Tem pensado nisso, está preocupado? Ou será que é tudo invenção do PIG e da oposição?

E a reeleição de Dilma? Você leu a análise de Brian Winter na Agência Reuters pintando um quadro bem difícil para ela no ano que vem justamente com base no desempenho da economia?

Em síntese, esse analista diz que Dilma não seria derrotada se o quadro econômico, que dizem ruim, se mantiver. Mas levanta sérias dúvidas sobre em que estado chegará a economia ao ano que vem, achando serem fortes as chances de chegarmos a 2014 com desemprego e inflação em alta (!?).

A economia não tem mistério algum, apesar de estar com problemas que podem, sim, tornar-se sérios. E a reeleição de Dilma, claro, não é fava contada. Mas não dá para passar da euforia ao derrotismo por uma conjuntura econômica que está longe de ser ruim.

Primeiro, falemos do paradoxo entre emprego e renda, de um lado, e estagnação econômica e inflação de outro.

Se a economia não cresce, como é possível que exista inflação? E o que é mais intrigante: como pode haver inflação de demanda (preços subindo porque há mais gente querendo comprar do que produtos sendo fabricados) se, com crescimento baixo, em tese não aumenta o contingente de consumidores?

É aí que entra o aspecto "misterioso" da questão. Pelas teorias econômicas convencionais, o PIB fraco deveria gerar competição de empresários por mercado, o que se traduz em redução de preços, mas o que se vê é o contrário: os preços sobem.

Certos preços sobem por conta da sazonalidade (produtos agrícolas sobem de preço por quebra de safra, por exemplo), mas ela não explica tudo. O consumo alto está, sim, gerando inflação de demanda.

Não há mistério algum na economia. Ela estagnou-se, sim, mas em patamar extremamente alto. Em 2002, o PIB brasileiro foi de R$ 1,32 trilhão. Em 2012, foi de R$ 4,4 trilhões. A economia brasileira, na última década, triplicou de tamanho.

Ainda que digam que não foi um grande crescimento, foi quase o dobro da década anterior. Mas isso não explica tudo. Há um fator que gerou demanda desproporcional ao crescimento do PIB: a distribuição de renda.

Em 2002, tínhamos um PIB que era um terço do de hoje, mas era distribuído de forma muito mais perversa. O índice de Gini, que mede a distribuição de renda, caiu de 0,61 em 2001 para 0,51 em 2011, ou seja, houve uma revolução nessa área no Brasil

Ainda está longe de se esgotar o processo redistributivo em curso. Com cada vez mais gente que não consumia passando a consumir, a pizza continua do mesmo tamanho, mas a maioria que dividia algumas poucas fatias agora fica com mais fatias.

Ou seja: a economia, em 2012, não cresceu (praticamente), mas a renda cresceu porque a maioria passou a consumir uma parte maior daquela pizza.

Esse processo, aliás, não terminou. A renda continua sendo distribuída. Assim, o empresariado está vendendo para mais gente.

Outro aspecto é a falta de mão-de-obra. Por força da estagnação econômica, da concentração de renda e do desemprego que imperaram até o início da década passada, o Brasil não formava profissionais que vão de encanadores a engenheiros

Com a explosão de crescimento da década passada, o país passou a requerer mão-de-obra para sustentar um patamar da economia altíssimo. Estamos importando profissionais de outros países, inclusive.

A inflação, portanto, decorre da sede de consumo da dita "nova classe média", que mal começou a consumir e que nos próximos anos irá consumir ainda mais. E como o empresariado, intimidado com o alarmismo da mídia, não investe, estamos enfrentando um processo inflacionário que pode, sim, prosseguir.

O receituário ortodoxo recomenda reduzir o crédito e aumentar os juros. Todavia, se levarmos em conta o processo redistributivo em curso, com políticas públicas voltadas a incluir consumidores ao mercado, a inflação não irá ceder com taxa de juro, a menos que aumente tanto que produza uma recessão.

Do contrário, a falta de mão-de-obra necessária para sustentar o atual patamar da economia certamente continuará elevando a renda das famílias, até equilibrar a demanda por essa mão-de-obra com a oferta.

Nesse ponto entra a análise de Brian Winter, na Reuters. Um ano e meio é suficiente para se atingir o equilíbrio entre oferta e procura por mão-de-obra e o estímulo ao consumismo que a busca por ela produz de forma a produzir falta de emprego?

Falar em desemprego, nesse quadro, é absurdo. O contingente de brasileiros que há para ser integrado ao mercado de consumo é imenso, ainda. Mal começamos o processo inclusivo. E para contrabalançar a falta de investimento do setor privado, há a liderança do processo pelo Estado.

Há um pacote incrivelmente amplo de obras de infraestrutura (PAC) em curso. Essas obras por certo sustentarão o crescimento (que é até bom que não seja tão alto, por conta da inflação) e continuarão gerando demanda por mão-de-obra em todos os setores.

Dilma pode ser derrotada pela estratégia política que está sendo armada, como escrevi recentemente aqui, com várias "Marinas" em 2014 no lugar de uma Marina só em 2010. Com Eduardo Campos, Marina Silva e o anti-Lula tucano da vez (Aécio Neves?), o arranjo político pode criar uma situação difícil para a atual presidente.

Um segundo fator é a criminalização de Lula, que, mais uma vez, pretende anular a sua imensa influência eleitoral.

O segundo turno de 2014 está cada vez mais garantido, a despeito das pesquisas que mostram que se a eleição fosse hoje Dilma venceria no primeiro turno – como se sabe, nos períodos eleitorais as pessoas são influenciadas por fatores não-racionais, como religião, moralismo relativo a "corrupção" etc.

Todavia, no segundo turno um só candidato terá que enfrentar todo o bem-estar social que há hoje no Brasil. E terá a seu dispor a única arma de sempre, a das denúncias de corrupção que serão feitas sobretudo a Lula, que acaba de ser indiciado em processos armados pelo procurador-geral da República visando unicamente a eleição do ano que vem.

Funcionará desta vez? Parece difícil, mas, claro, não é impossível.

Contudo, apostar no mal-estar social para o ano que vem, como fez Brian Winter, é uma estupidez e um alheamento da realidade.

A economia brasileira vai bem. Está em um patamar altíssimo de funcionamento e a distribuição de renda em curso está sendo subestimada em um processo de autoengano das elites destro-midiáticas.

Em resumo: só o que pode derrotar Dilma, ano que vem, é a política. A economia será sua aliada. A direita midiática não entende de economia. Basta lembrar das previsões que vem fazendo – e errando feio – ao longo da última década.

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