Alguns casos de cretinismo parlamentar

Quem trabalha contra a democracia são alguns deputados e senadores, não os que denunciam e criticam o que eles fazem contra o país

Uma coisa é demonstrar abertamente a insatisfação, mas manter a lealdade. Outra coisa é estar insatisfeito, não abrir totalmente o jogo, fingir lealdade e trair, aproveitando-se de conversas sigilosas e do voto secreto. A reação da presidente Dilma Rousseff à derrubada de seu indicado para a direção da Agência Nacional de Transportes Terrestres é resultado da constatação de que Romero Jucá e Renan Calheiros, com a conivência de José Sarney, não jogaram limpo com ela. Jucá perdeu a liderança do governo porque articulou a rejeição a Bernardo Figueiredo.

 O caso de Cândido Vaccarezza, que perdeu a liderança do governo na Câmara, é diferente. Vaccarezza fez corpo mole em algumas situações, demonstrou incompetência em outras, mas não traiu Dilma. Pesaram contra ele a dificuldade de relacionamento com o governo e com parte da bancada do PT, mas, sobretudo, a necessidade política de não fazer apenas a substituição de Jucá no Senado. Se Jucá não caísse, Vaccarezza até poderia ficar. Mas caindo um do PMDB, tinha de cair um do PT, a pretexto de rodízio de líderes.

Jucá, Renan, Sarney e outros talvez não sejam tão poderosos e acima dos mortais como parece e eles acham que são. Dilma está pagando para ver se são, pode dar certo ou errado para ela.

Se trabalhar, dá

O já derrubado Vaccarezza e o presidente da Câmara, Marco Maia, insurgiram-se publicamente contra a decisão do Supremo Tribunal Federal de obrigar o Congresso a compor comissões mistas para examinar em 14 dias as medidas provisórias. Maia alegou ser muito difícil cumprir a decisão, por causa do ritmo da Câmara, Vaccarezza disse que essa é uma questão interna do Congresso e os juízes não têm de interferir.

Esses dois petistas são bons exemplos de ex-militantes combativos que se renderam ao cretinismo parlamentar e às práticas viciadas e acomodadas do Congresso. Se no Congresso se trabalhasse de verdade, e não dois dias por semana, seria possível aprovar uma medida em 14 dias. E, gostem ou não os Vaccarezzas, o Supremo tem mesmo de impedir que os parlamentares desrespeitem a Constituição, como têm feito há anos.

Roubo legalizado

Por falar em cretinismo parlamentar, é muito cretino o argumento de parlamentares para justificar os 14º e 15º salários, as verbas indenizatórias ou a manutenção de dezenas de servidores comissionados em seus estados. Dizem, sem cerimônia, que precisam dar dinheiro aos eleitores e que os funcionários fazem os contatos com as “bases”. Consideram normal usar o dinheiro público para comprar ou cooptar eleitores e para dar empregos a cabos eleitorais e pagar aos que lhes prestam serviços privados. Falam como se isso fosse parte da atividade parlamentar e não roubo descarado, mas “legal”, aos cofres públicos. 

Autodestruição

Algumas pessoas acham que criticar o Congresso e os parlamentares, ou dizer que o Senado é inútil, pode levar ao fim da democracia, ou ao autoritarismo do Executivo. É o contrário: o que prejudica a democracia é ser conivente com os absurdos praticados pela maioria dos parlamentares, aceitar passivamente a corrupção e os gastos imensos e inúteis que grassam nas casas legislativas, omitir-se diante de tantas irregularidades e tratar bandidos de gravata e broche da Câmara ou do Senado como pessoas sérias e respeitáveis.

Quanto mais os parlamentos e alguns de seus membros zombam do país com sua cara de pau, mais a democracia é ameaçada. Eles mesmos é que trabalham contra a democracia.

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