Aliado de Marina, Freire sinaliza união com o PSDB

Presidente do PPS, maior partido aliado do PSB e a Marina Silva na corrida presidencial, afirma que os tucanos não são tão intolerantes quanto o PT e, talvez, "seja o mais colaborativo dos partidos", sinalizando uma possível aliança em um eventual governo Marina; "É possível [construir essas alianças]. O que é impossível é continuar com essas práticas", disse o deputado

S�o Paulo, 22 de maio de 2010: Encontro Nacional do PPS em S�o Paulo. foto Milton Michida/A2
S�o Paulo, 22 de maio de 2010: Encontro Nacional do PPS em S�o Paulo. foto Milton Michida/A2 (Foto: Gisele Federicce)

Por Lara Rizério • João Sandrini

SÃO PAULO - O deputado Roberto Freire, presidente do PPS, o maior partido aliado do PSB e a Marina Silva na corrida presidencial, faz uma série de críticas aos 12 anos de governo do PT e descarta uma aliança com o partido de Dilma se Marina vencer as eleições. Em entrevista ao InfoMoney, ele sinalizou que a ideia é construir uma união com o PSDB, que se mostrou um partido bem mais colaborativo quando não esteve no poder, tanto no governo Itamar Franco quanto no início do governo Lula.

Marina Silva desponta na frente de Dilma Rousseff (PT) no segundo turno das eleições presidenciais de acordo com as últimas pesquisas eleitorais, como Datafolha e Ibope. E, segundo algumas casas de análise, haveria até mesmo condições para que a disputa fosse liquidada já na primeira etapa, em 5 de outubro, com Marina vencedora. Porém, para Freire, haverá um segundo turno nas eleições de 2014 e, pelo cenário que se desenha, será entre a ex-senadora e a atual presidente, Dilma Rousseff.

Freire defendeu a candidata do PSB, ressaltando que ela também evoluiu nos últimos anos, mas sem deixar de "sonhar na medida certa". "Ela pode continuar sendo 'sonhática', mas com os dois pés no chão. Pode sonhar um pouco, que não faz mal. Mas ela não é uma neófita. Néofita era a Dilma e deu no que deu", afirmou, em meio aos ataques dos adversários de que ela seria uma candidata sem experiência.

Para Freire, depois de uma campanha em que se que Dilma se baseou na ideia fixa de um mandato "sombrio" de 8 anos do PSDB e de 12 anos "radiosos" do PT, o novo governo terá de implementar inúmeras reformas. Marina, segundo ele, teria apoio para conseguir isso. "Pode até perder algumas batalhas, mas isso é normal em todo o governo. Foi o PT que achou que poderia ganhar tudo", afirmou.

Na agenda, reformas política, tributária, previdenciária e trabalhista, de forma a buscar uma gestão mais eficiente. Dentre as ideias apontadas por Freire, está a correção de distorções que fazem com que os impostos sejam regressivos (penalizando mais os mais pobres), além de simplificar a legislação trabalhista.

"Não podemos ser mais um governo da mediocridade como está sendo o de Dilma e como foi também o de Lula, que surfou na onda mundial e na de sua popularidade. Senão, não haveria motivos para a candidatura", afirma.

Perguntado sobre se Marina poderia fazer um governo parecido com o de Itamar Franco, que governou após o impeachment de Fernando Collor de Mello sem uma maioria no Congresso, Freire destacou que pode haver muitas semelhanças, apesar de ser um cenário bastante diferente.

Segundo Freire, as similitudes começam por se tratar do fim de um ciclo. Se antes havia a decepção por conta do impeachment do primeiro presidente eleito por voto direto desde 1960 e que levou ao movimento dos cara-pintadas, desta vez a população foi às ruas em busca de melhores condições e para destacar os anseios por uma melhor qualidade de vida.

O governo, diz Freire, pode não ter uma adesão total, mas tem que ser amplo o suficiente para conseguir reformas. Porém, o deputado reforça o coro de Marina que a questão não é tratar o Congresso como um "balcão de negócios, como fez o governo petista". "É possível [ter governabilidade sem fazer fisiologismo]. Se não, de quem é o governo? Para que ganhar a eleição? Deixaria com o PT mesmo. Não [haverá governabilidade] só porque o PMDB dá indicações. É uma questão de legitimidade. Os governos petistas que optaram pela 'safadeza'. Não podemos pensar que governabilidade só possa ser assim."

Sobre uma possível aliança com o PSDB, em terceiro lugar na corrida presidencial com Aécio Neves, Freire afirma que os tucanos não são tão intolerantes quanto o PT e, talvez, "seja o mais colaborativo dos partidos", sinalizando uma possível aliança em um eventual governo Marina. "É possível [construir essas alianças]. O que é impossível é continuar com essas práticas."

O deputado ainda afirmou que Marina ganhando no primeiro turno poderia trazer desvantagens, pois haveria uma maior dificuldade na transição e para articular alianças. A realização de um segundo turno daria tempo para Marina negociar alianças que a fortalecessem. No novo governo, aponta Freire, é preciso um outro tipo de relação quando comparado aos últimos 12 anos do PT. "Dá para mudar o que o PT fez de 'tábua rasa'; o ex- presidente [Lula] tenta desmoralizar o STF [Supremo Tribunal Federal] e não tem respeito pela democracia e pela República."

Para Freire, o PT não deve colaborar com o governo Marina, pelo contrário. O partido vai ter que se organizar em volta de algumas questões, como a má gestão da Petrobras, que "não passará em branco", segundo ele. Porém, o futuro governo não incentivará uma caça às bruxas.

Não é só a economia A economia está em baixa no governo Dilma, sendo que algumas casas de análise chegaram a revisar as projeções para a atividade econômica para crescimento zero em 2014 e com o seu governo devendo aparecer com a terceira pior média de crescimento da economia na história, só superando Collor e Floriano Peixoto. Com isso, o debate econômico ganha importância.

"Mas não é só o desastre na economia. É mais do que isso", afirma o deputado avaliando, contudo que, nestes termos, não há tanta diferença entre os programas de Marina e de Aécio. Os programas econômicos são parecidos, afirma, mas destaca que Marina acoplará à estabilidade econômica a agenda do desenvolvimento, que Fernando Henrique Cardoso não teve, enquanto Lula se aproveitou do bom momento da economia mundial, mas que se mostrou, no final, um "voo de galinha".

"Sem desenvolvimento econômico, não há melhoria de qualidade de vida e a economia para em algum momento. Ao mesmo tempo, a infraestrutura está estrangulada e tudo virou para o consumo", ressaltou.

"Lula foi de mascote do etanol a homem do pré-sal" Freire também destacou a busca de Marina por um programa que prime pela biodiversidade e uso de energias alternativas, enquanto o governo petista teria, de uma forma midiática, apropriado-se do pré-sal. Lula, que era o "mascate do etanol" virou o "homem do pré-sal", afirma Freire. "Falar que vai ser autossuficiente em petróleo dá propaganda, mas o ex- presidente não estava preocupado com o futuro."

Conforme ressalta Freire, deve-se buscar cada vez mais energias renováveis. "Não há problema no programa de Marina em relação à questão energética. Aliás, vi um avanço bastante positivo da candidata em relação aos transgênicos", afirma. Marina vem atribuindo a uma "lenda" a ideia de que seria contrária à agricultura transgênica.

Freire ressalta que o cargo de presidente da república é muito solitário e que não tem receio sobre Marina no poder, refutando totalmente as comparações feitas com Fernando Collor. Em propaganda eleitoral desta semana, Dilma questionou a governabilidade de Marina, associando-se a Collor e a Jânio Quadros. "A base de apoio de Marina Silva tem hoje 33 deputados. Sabe de quantos ela precisaria para aprovar um simples projeto de lei? No mínimo 129. E uma emenda constitucional? 308", chegou a questionar o locutor do programa de TV exibido em rede nacional.

Freire defende: "não tem chances de ser como Collor, ela é séria". O deputado ainda indicou a convicção de que Marina derrotará Dilma, o que era o objetivo do PPS, e firmar um compromisso com a democracia e com a república, "algo que eles [PT] não têm]".

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