Anarcodemocracia?!

São tantos os problemas a serem resolvidos e são tantas e tamanhas as demandas e insatisfações que, a continuar nessa toada, as manifestações nunca terão fim. E não ficará pauta sobre pauta, digo, não ficará pedra sobre pedra

Nem me venha com essa cara de estranheza e nem me faça indagações do tipo: o quê?! Eu também não sei ao certo o que vem a ser essa "coisa" aí em cima que serve como título a mais um – sim, mais um! – artigo publicado sobre esse assunto das manifestações que ainda insistem em pulular, aqui e acolá pelo país. Sim, mais um artigo! Mais uma manifestação e... mais uma OPINIÃO. Embora muitos, como eu, já estejam, digamos, de "embornal cheio" dessas manifestações e protestos.

Para ser honesto, nem sei se existe tal palavra ou se é um neologismo essa tal de "anarcodemocracia" que ora se apresenta. Escreve-se junto ou separado? Não, não sei. Não fui eu quem inventou. Quem inventou foi o povo num "repente", indo às ruas com uma bandeira na mão e, pelo visto, nenhuma ideologia na cabeça. Ideologia? Eu quero uma pra viver!

E não só aqui no Brasil: na Islândia, no Egito, na Tunísia, na Argélia, no Bahrein, em Macondo – e até, possivelmente, em Dias D'Ávila e em Quixeramobim! E a coisa, ao que parece, promete. Pode até se espalhar pelo mundo todo novamente como uma espécie de "epidemia". Com o perdão da palavra fora de lugar.

Em minha modesta opinião, já disse em artigo anterior, foi mais um pequeno e essencial passo no caminho da utopia. Como se pode ver, ainda não perdi a fé e a esperança; perdi o medo – não o medo de barata, mas da repressão, da opressão, do totalitarismo.

Muita coisa de sua/nossa vastíssima pauta os caóticos insurrectos já conquistaram: reduziram o valor da passagem em várias cidades importantes por todo o país; impediram a majoração dos pedágios em SP; tiraram a "cura gay" da infame pauta dos deputados; derrubaram a PEC 37; colocaram a importante pauta da reforma política dentre as prioridades da nação; fizeram o voto secreto cair em desgraça finalmente no Congresso etc. e etc.

Mas, e principalmente, reitero o mais importante: colocaram os governantes, e os políticos em geral, contra a parede. Estes, por sua fez, perderam um pouco da pose, da arrogância, da desfaçatez e do sorriso cínico, imperial. O poder perdeu um pouco de sua soberba. Ganhamos todos.

Mas perderam mesmo? Assim esperamos. Senão virá por aí outra "cacetada" cívica na fuça, outra onda – que pode ser um tsunami. E aí, podemos antever, o estrago poderá ser bem maior.

Como já sugeriu um colega de coluna aqui: Quem pariu Mateus que o embale! Melhor seria dizer: quem gestou e pariu o "monstro" que o embale! O problema é que essa "criança" ou esse "monstro", a depender da forma ou viés com que olhamos para a coisa é, ao que parece, um sem pai nem mãe. Ou não? Tem pai? Tem mãe? Tem! Não tem!

Seria o rebento do descaso, da soberba e incompetência dos maus políticos? Pode ser. Pode ser um filho bastardo das nossas elites. Pode ser o fruto legitimo de uma sociedade ilegítima, injusta. Pode ser.

Só sei que de repente o povo resolveu se manifestar. E querer tudo ao mesmo tempo agora. Tudo: aqui e agora. Quem nunca se manifestou, agora está se manifestando. Quem nunca reclamou de nada, agora está reclamando de tudo. Mas são tantas as reclamações, inúmeras.

O "detalhe" é que são tantos os problemas a serem resolvidos e são tantas e tamanhas as demandas e insatisfações que, a continuar nessa toada, as manifestações nunca terão fim. E não ficará pauta sobre pauta, digo, não ficará pedra sobre pedra; não ficará político algum sob o teto protetor de um Palácio, sob o manto legal de um mandato. Cairão todos os governos então?

Renegam a política, os políticos – é o que dizem. Renegam mesmo? Eles sabem o que á Política? Foram, de fato, apresentados a essa digna senhora? Ou conheceram apenas a sua faceta meretriz?

Afinal, são anarquistas ou democratas? Seriam anarcodemocratas? Com hífen ou sem? Juntos ou em separado? Ou apenas uns poucos seriam anarquistas e outro tanto, a maioria, democrata. Como saber? Como aferir tudo o que pretende a turba? Ou eles pretendem tudo? Aqui e agora?

E como uma nota dissonante, como vivemos em plena cultura do espetáculo, agora temos também a manifestação-espetáculo. Num dado instante, à parte o triste e deplorável espetáculo dos vândalos e saqueadores, talvez lá pelo 6º ou 7º dia de protestos, não sei ao certo, algumas manifestações pareceram ter se transformado num feérico espetáculo midiático. Manifestantes foram instados a enviar seus vídeos das manifestações para serem exibidos nas emissoras de TV! Foi cada vídeo tosco sendo acolhido e exibido pelo padrão globo de qualidade... Inacreditável. Hum... um "espetáculo" – deplorável?

Mas fiquemos todos tranquilos. Pois os "intelectuais" e os "analistas", e ainda os "especialistas", após momentânea "perplexidade", já nos esclareceram que na verdade trata-se da "reinvenção da democracia" ou de um "choque de democracia". Ah, bom. Tanto melhor.

Eles mandam nos avisar que as populações – antes completamente alienadas e alijadas do processo político – de repente, como que num surto episódico, saíram do conforto dos seus lares e das suas redes sociais, e resolveram participar da vida política do país, exigir seus direitos e condenar os seculares privilégios, atos de corrupção e mordomias dos políticos. Ah, bom. Tá vendo? Não há com o quê se preocupar.

Para completar o "surto" eis que agora um prefeito tucano resolveu fazer um plebiscito em sua cidade. Sim, você entendeu bem: ele mesmo, por sua conta e risco, vai espalhar algumas urnas pela cidade e fazer o seu plebiscito com duas dezenas de questões. Ou seja, fará a sua [dele] peculiar consulta à população do seu ["dele"] município. Disse o tal alcaide que também vai fazer consultas pela internet para saber o que a população quer/deseja. Putz – pensei e temi pelo pior – vai terminar em "espetáculo"! O curioso, vale notar, é que o seu partido, o PSDB, manifestou-se contrário à realização do plebiscito. Mas certamente não a esse plebiscito do prefeito. Vai que a moda pega...

Pegou. A Veja também, por sua vez, sugere seu próprio plebiscito. Cada sorriso, um flash; cada manifestação, um plebiscito. Mas este não tem a menor graça. Trata-se de uma arapuca, de uma esparrela – como tantas perpetradas pelo "jornobanditismo" praticado por aquele veículo. Pretende nos conduzir, por um atalho sombrio, para a direita. Quer nos confundir e atravancar nossos passos firmes rumo à utopia. A direita quer nos conduzir. A direita! Entendeu? À direita. Percebeu agora o descaminho?

Você não vai querer sugerir também o seu próprio plebiscito? Por que não fazer uma sondagem no Facebook?

Vamos fazer uma revolução, acabar com todas as injustiças do mundo e com todos os problemas do país num clique.

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E, por gentileza, queiram desculpar-lhes o transtorno.

N.A.: [Modo de usar: faça Política com "P" maiúsculo. Não faça presepadas. Tampouco caia na conversa de "presepeiros" e direitistas. "Reclame/ Se o mundo não vai bem aos seus olhos/ use lentes/ou transforme o mundo/Ótica olho vivo agradece a preferência" [By Chacal – poeta carioca, ícone da poesia marginal].

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