Desenvolvimento maduro

Segundo os articulistas que enxergam o "avanço" de Marina Silva, a atual condução desenvolvimentista do nosso país estaria desmoralizada pelos "frustrantes resultados entregues". Frustrantes na visão de quem?

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É verdade que a grande mídia não precisa de fatos novos para tentar impedir a realização das políticas empreendidas nos últimos dez anos, principalmente as da área econômica. Mas como um gancho sempre facilita a tarefa de renovação das críticas, a recente entrevista concedida pela ex-senadora e presidenciável Marina Silva (sem partido) à Folha de S.Paulo foi o mote encontrado pelos articulistas dos jornalões para decretarem, no auge de sua torcida contra as reformas em curso no país, o fim do desenvolvimentismo.

As declarações um tanto turvas feitas pela ex-ministra que, pouco a pouco, incorpora em seu discurso exatamente o que a mídia conservadora e o rentismo desejam ouvir, bem como sua aproximação de economistas afeitos à ortodoxia, foram saudados por alguns colunistas como "mostras de amadurecimento".

Se endossar o ideário neoliberal é sinal de amadurecimento, mesmo diante de um mundo em crise justamente devido a escolhas guiadas pelo liberalismo econômico levado ao extremo, pergunto o que seria então promover mobilidade social de 40 milhões de pessoas, gerar 19 milhões de empregos com aumento real da renda salarial e mobilizar investimentos em infraestrutura jamais vistos no nosso país, dentre tantos outros avanços alcançados nos governos de Lula e Dilma?

Mas, segundo os mesmos articulistas que enxergam o "avanço" de Marina, a atual condução desenvolvimentista do nosso país estaria desmoralizada pelos "frustrantes resultados entregues". Outra dúvida que surge é: frustrantes na visão de quem? Daqueles que desejam ver pesar a mão invisível do mercado e que sonham com a total desregulamentação da nossa economia para voltar a lucrar com os juros altos e a especulação, em detrimento da produção, do emprego e de um projeto de desenvolvimento que inclui os mais pobres, diminuiu desigualdades e cria oportunidades?

Indiferentes às conquistas concretas obtidas a partir de 2003, através da implantação de um modelo de desenvolvimento econômico e social inclusivo, insistem em pregar diuturnamente suas teorias, alardeando o baixo crescimento sem contextualizá-lo à realidade global, como se o Brasil fosse uma ilha e não estivesse sujeito aos efeitos sofridos no restante do mundo.

Falam em fracasso econômico e apontam a intervenção do Estado como causa, martelam temas como guerra cambial, mas desaprovam que o governo se posicione e adote medidas de defesa comercial, enxergam suposta leniência para com a inflação e se opõem a medidas que estão desafogando os custos da nossa produção, como a redução do preço da energia e as desonerações tributárias, ou seja, comportam-se como franco-atiradores.

O importante para os saudosos do rentismo não é fazer a crítica construtiva, nem apresentar plano alternativo, mas deslegitimar o trabalho de construção de um Estado que combina bem-estar econômico com justiça social.

Nem os bancos públicos e a Petrobras, empresas que se fortaleceram imensamente na última década, incorporadas como instrumentos a serviço do desenvolvimento do país, escapam de sua sanha liberal. Em inúmeras reportagens, colunas e entrevistas replicam os mesmos argumentos e a mesma ladainha, em um movimento articulado e acrítico, que se presta a defender a redução de gastos sociais, do custo da mão de obra, ou seja, a amarga receita do desemprego e da estagnação que nos é tão familiar.

Seria interessante se, ao menos uma vez, fizessem o exercício inverso, ou seja, se procurassem responder como estaria o Brasil, caso a estratégia desenvolvimentista não tivesse sido utilizada pelo ex-presidente Lula e pela presidenta, Dilma Rousseff. Se as políticas anticíclicas e de defesa comercial, de distribuição de renda, de extensão do crédito e de estimulo à industria não tivessem sido adotadas, se o Banco do Brasil não financiasse a agricultura familiar e empresarial, se a Caixa Econômica Federal não financiasse a habitação popular e se o BNDES deixasse de financiar a indústria e a infraestrutura, o Brasil estaria em melhor situação?

Não se questionam sobre isso porque a resposta não convém, ou porque novamente seria preciso relativizar e perguntar: "melhor para quem?". Para os rentistas, financistas e mercadistas é provável que sim. Mas para a grande maioria do povo brasileiro, certamente não.

Hoje, o Estado brasileiro tem, de fato, um papel central na oferta de serviços sociais e na indução do nosso crescimento como nação, o que significa conjugar crescimento econômico ao mesmo tempo em que promove a igualdade de direitos e repara as injustiças histórias que, por séculos, vigoraram em nosso país. Negar esse caminho seria um retrocesso imensurável.

O que os brasileiros querem —essa sim a pergunta que importa e cuja resposta podemos retirar das manifestações de rua, movimentos populares e até mesmo de estudos conduzidos poro institutos de pesquisa— é avançar na construção de um país mais justo, com melhores serviços públicos de Saúde, Educação, mais espaços de participação e melhores formas de representação. Esse trajeto por mais direitos e mais e melhores oportunidades para todos é o verdadeiro amadurecimento que todos aqueles realmente comprometidos com o interesse coletivo deveriam trilhar.

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