Dilma deve Temer os "aliados"

Eis que o vice-presidente Michel Temer, de uma hora para outra, começa a fazer coro com a mídia e a oposição em relação ao número de ministérios do governo federal e à reforma política

O esfacelamento da política ao longo do junho negro que transformou um país cheio de expectativas promissoras em um país em transe, malvisto internacionalmente e tão cheio de dúvidas sobre o futuro que a economia já se ressente – conforme dados preliminares sobre esse mês fatídico –, tem potencial parar gerar uma onda de traições entre a base aliada.

Com efeito, se a presidente Dilma Rousseff, tendo altíssima aprovação, já vinha enfrentando problemas com essa base parlamentar que apoia seu governo oficialmente, a partir de sua queda nas pesquisas, e com os problemas que sobrevirão na economia por conta do terremoto do mês passado, a real natureza dos partidos fisiológicos que a apoiam tende a aflorar.

Pouco se fala, mas nos cantos e nas bocas já se comenta que os setores mais radicais da coalizão destro-midiática acalentam um sonho: impedir Dilma. Com isso, as "reformas" oposicionistas – desmonte das políticas da era Lula – poderiam começar a ser feitas antes de janeiro de 2015 – para que esperar tanto para assumir o poder, certo?

Se algum escândalo – que, em um momento como este, teria o condão de remobilizar "as massas" – for atirado contra a presidente por alguma Veja da vida, a "solução" do impeachment se tornaria até óbvia e saciaria o desejo de sangue "das ruas".

A esperança desses setores da oposição se concentra, conforme reza a boataria, no vice-presidente da República, Michel Temer – quem conhece a sua história sabe por que. Ele assumiria o lugar da presidente defenestrada por um golpe "paraguaio" e trataria de seguir os ditames do golpismo tucano-midiático.

As informações sobre o golpismo oposicionista chegaram com um roteiro, durante a semana passada. Os primeiros sinais se dariam através de declarações do vice-presidente da República que contrariariam a presidente e as suas políticas.

Eis que Temer, de uma hora para outra, começa a fazer coro com a mídia e a oposição em relação ao número de ministérios do governo federal e à reforma política.

Leia, abaixo, trecho de nota do site Brasil 247 sobre as declarações de Temer:

"Após longa reunião comandada pelo vice-presidente Michel Temer, o maior partido aliado do governo sugeriu à presidente Dilma Rousseff a redução do número de ministérios com "vistas à redução de custos e à austeridade"; até então, as críticas sobre as 39 pastas do governo federal vinham da oposição, protagonizada pelo senador Aécio Neves (PSDB); nota diz ainda que a legenda apoia a consulta popular sobre reforma política, mas não necessariamente por plebiscito, e sugere incluir pergunta sobre reeleição no Executivo"

É grave a declaração de Temer. Instar Dilma a reduzir ministérios e, ainda por cima, dizendo isso pela imprensa, não é comportamento de aliado. Mesmo que a presidente apoiasse a medida a fim de acalmar a oposição e a mídia, concedendo-lhes a vitória de reconhecer que suas críticas tinham fundamento, a primazia do anúncio da medida deveria ser dela.

Não há dúvida de que Temer deu uma declaração unilateral, ou seja, sem combinar com a titular do Executivo federal. Tal conduta se adequa à perfeição aos boatos sobre o risco de o PMDB assumir a sua natureza, de partido que sempre fica do lado que estiver ganhando, pouco importando as traições que tiver que fazer.

Há pouco o que recomendar à presidente, mesmo que ela ouvisse aqueles que tanto avisaram que o rumo de seu governo o levaria a isso. Só o que poderia acalmar seus "aliados" seria alguma demonstração de força política. Todavia, o governo está imobilizado. Aposta suas fichas em uma reforma política que não sairá tão facilmente sendo bombardeada até por aliados.

Se ainda resta alguma arma ao governismo, portanto, essa arma é o ex-presidente Lula. Sua popularidade foi das que sofreu menos abalo e pesquisa recente mostra que é visto como o mais preparado para conduzir o país em meio ao caos político que se criou.

O problema é que a interferência dele poderia desmoralizar Dilma ainda mais. Poderia se tornar um recado de que ela não está à altura de conduzir o país como sua líder política. A menos que tal interferência encontre um tom que não passe essa impressão ao público.

Vivemos um momento muito delicado. Quanto maior a incerteza sobre a chance de continuidade do atual projeto político-administrativo, maior será a retração dos investidores e do empresariado, o que terá inegáveis efeitos sobre a atividade econômica e o nível de emprego, sendo este a boia salva-vidas do governo durante a tempestade em curso.

O governo e a economia, portanto, tornaram-se reféns do imprevisível. Só o que se pode esperar é que, caso os protestos de rua percam força, os danos que causaram à economia fiquem restritos a junho.

Se, nos próximos meses, o governo conseguir alguma margem de manobra para reerguer a economia e para impedir que o nível de emprego sofra, o ânimo da população pode melhorar. Seja como for, o Brasil precisa urgentemente de boas notícias.

A oposição e a mídia, sem saber, estão se preparando para assumir o Poder, convencidas de que Dilma está morta – premissa para lá de precipitada. Mas, mesmo se for verdade, essa gente corre o risco de assumir um país em convulsão social e mergulhado em crise. Quebrar o Brasil só para vencer a eleição do ano que vem se mostrará um tiro no pé.

Adianta avisar? Não. Mas pelo menos fica registrado o aviso, aqui, para que, lá na frente, todos se lembrem quem viu o que antes.

Em resumo, não se sabe o que fazer com a base aliada. As declarações de Michel Temer devem ter acendido a luz vermelha no Planalto. O risco de alguma "temeridade" se tornou insuportável, conhecendo a natureza traiçoeira do maior partido aliado ao governo. Se esse tipo de declarações do vice-presidente prosseguirem, a traição será questão de tempo.

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