Fora da Rede, Marina perde todo o charme

Tese é da colunista Denise Rothenburg, do Correio, que afirma que a candidatura não será a mesma, se Marina se vir forçada a buscar uma legenda tradicional

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247 - Fora da Rede Sustentabilidade, que ainda não tem assinaturas necessárias para ser criada, Marina Silva terá poucas chances de sucesso. É o alerta feito pela colunista Denise Rothenburg, do Correio Braziliense. Leia abaixo:

Marina na tempestade - DENISE ROTHENBURG


Um dos trunfos da ex-senadora, confirmado depois dos protestos de junho, é encarnar o novo, algo descolado da política tradicional. Buscar outra legenda, mesmo diante da impossibilidade de registrar a Rede, poderá ser o mesmo que vestir uma camisa partidária fora de moda



É frustrante e quase injusto que Marina Silva fique de fora da campanha ao Palácio do Planalto. E não estou aqui a falar de prazos judiciais ou mesmo da incapacidade da Rede Sustentabilidade em validar assinaturas necessárias para formalizar o partido. Refiro-me aos eleitores dispostos a chancelar a ex-senadora no próximo ano, um número verificado na última eleição, em 2010, e nas atuais pesquisas de intenção de votos. Marina partiria, segundo os correligionários e a partir das projeções, com pelo menos 20 milhões de votos. Um número considerável para levá-la ao segundo turno.

É evidente que a tal conta vale absolutamente nada caso Marina não consiga validar as assinaturas suficientes para a Rede Sustentabilidade. Na prática, o que atrapalha a ex-senadora é a legenda, ou melhor, a não existência dela. Seria até possível abrir um debate sobre a real importância da coleta de apoios para oficializar um partido para Marina, afinal as agremiações brasileiras são tão fracas e distantes da população que faria pouca diferença ter 500 mil assinaturas para anunciá-las. Nada, entretanto, é tão simples. Sem a chancela popular, o mercado das legendas seria ainda mais agressivo.

Uma nota: Marina está jogando dentro das regras, mesmo com a pressão para oficializar a Rede. Há uma fila de validações de assinaturas de outras legendas nos cartórios e, por mais simpática que a ex-senadora possa ser, parece impossível transpor a burocracia do serviço público. Aqui é o teto das reclamações dos correligionários da Rede. Sim, porque o plano mais efetivo contra Marina foi, por ora, abortado: o Projeto de Lei nº 4.470/2012, esse sim um tiro na candidatura dela, caso disparado.

Tramitação
A proposta impede a parlamentares que migrem para novos partidos levarem junto as verbas do fundo partidário e o tempo de propaganda partidária em rádio e tevê, o que inviabilizaria qualquer troca de legenda. O texto recebeu apoio e assinaturas de todos os líderes partidários e, até gorar, teve, enquanto durou, uma tramitação recorde. Os mais empolgados com o projeto eram os cacique petistas, incluindo o de mais alta patente, Luiz Inácio Lula da Silva, que, como observador político privilegiado sabe do poder de Marina para assustar a presidente Dilma Rousseff na campanha de 2014. Depois da tal pressão das ruas, prevaleceu o bom senso. Esqueceram o texto. Nada mais justo, pois.

Assim, Marina tem contra ela apenas a burocracia. O papel de vítima, que poderia ser um dia encenado, não está mais disponível. O prazo da própria Rede — uma espécie de limite psicológico — venceu na quinta-feira, quando esperava-se que a legenda anunciasse todo o êxito na coleta de assinaturas. Como ainda é preciso a tramitação nos gabinetes e plenários do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o tempo de Marina se esgota a cada minuto. Pelo menos o tempo da Rede. E aí, por mais que Marina possa buscar um partido já formalizado para se candidatar, nunca será a mesma coisa.

Um dos trunfos de Marina, confirmado depois dos protestos de junho, é encarnar o novo, algo descolado da política tradicional. Recuar, mesmo diante da impossibilidade de registrar a Rede no TSE, seria o mesmo que vestir uma ultrapassada camisa partidária. Isso não significa que tal gesto a levaria a perder votos, é cedo e desnecessário prever tal coisa. No entanto, atrapalharia o atual discurso, já um tanto torto à medida em que mistura meio ambiente e, quando perguntada, pautas contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, a legalização da maconha ou do aborto.

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