Machismo teve papel destacado no golpe contra Dilma, aponta livro lançado nos EUA

A então presidente procurou empoderar as mulheres em seu governo, muitas sem filiação partidária, e, com isso, desagradou a classe política

Dilma Rousseff e Michel Temer
Dilma Rousseff e Michel Temer (Foto: Ederson Casartelli/247 | Reuters)
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O livro “Women’s Empowerment and Disempowerment in Brazil: The Rise and Fall of President Dilma Rousseff” (empoderamento e desempoderamento das mulheres no Brasil: ascensão e queda da presidente Dilma Rousseff), lançado nos EUA, atribui ao machismo papel destacado no golpe contra Dilma Rousseff.

Para os autores da obra, Pedro A. G. dos Santos e Farida Jalalzai, a ascensão da petista à Presidência despertou uma reação desvairada que buscava não apenas tirá-la do poder, mas também enfraquecer a participação de mulheres na política, o que contribuiu para o retrocesso do combate às desigualdades nos governos seguintes.

Santos fazia pesquisa no Brasil para o seu doutorado durante a campanha eleitoral de 2010, enquanto Jalalzai já vinha estudando as experiências de mulheres em cargos executivos — inclusive Hilary Clinton. 

Juntos, eles combinam uma compreensão da burocracia institucional do governo brasileiro com uma perspectiva nítida das relações de gênero no âmbito político.

Os autores examinam duas questões principais no livro. Primeiro, como Dilma usou o seu poder para fortalecer o papel das mulheres na política brasileira. Segundo, como a questão de gênero impactou o seu governo e o processo de impeachment que a derrubou — observou Andre Pagliarini, em artigo na Folha.

Pagliani é professor de história da América Latina moderna no Dartmouth College, em Hanover (New Hampshire, EUA).

Segundo ele, os autores do livro concluíram que o empoderamento das mulheres — o processo de fornecer a elas mais poder decisório sobre políticas públicas— oferece benefícios para a sociedade como um todo.

“Embora alguns possam estar convencidos de que empoderar as mulheres é um jogo de soma zero,” sustentam os autores, “sabemos que empoderar as mulheres empodera todos nós”.

Uma lição infeliz que sobressai do estudo, contudo, é a fragilidade de avanços na área de representatividade de gênero na política.

Existem ao menos três maneiras para julgar até que ponto uma mulher na Presidência serve para empoderar as mulheres em geral na política, de acordo com os autores. A primeira e mais direta passa por uma análise de suas nomeações. 

Como reparam Santos e Jalalzai, “os chefes do Executivo possuem maior capacidade que os legisladores e membros individuais do gabinete para influenciar a composição de gênero das instituições políticas e as prioridades políticas”.

Santos e Jalalzai lembram que Dilma tanto insistiu em empoderar mulheres que acabou sacrificando possíveis apoios políticos. Nomeou dez mulheres sem filiação partidária, oito do PT e apenas uma de outro partido (Kátia Abreu, então no PMDB, hoje no Progressistas) para chefiar ministérios em seu governo. 

Os autores especulam que, dada a percepção de que mulheres são menos suscetíveis à corrupção que homens, aumentar o número delas no governo à medida que escândalos de corrupção surgissem tinha uma certa lógica política.

Santos e Jalalzai ressaltam também a complexidade do sistema de coalizões que sustentam o presidencialismo brasileiro, notando que, nos governos Lula e Dilma, mulheres foram nomeadas quase que exclusivamente para ministérios controlados pelo PT depois de negociações com partidos de sustentação do governo ou para ministérios bem próximos ao presidente (Secretaria de Relações Institucionais e Casa Civil, por exemplo).

Se a presidenta priorizasse menos a questão de gênero, poderia ter distribuído esses cargos entre os fisiologistas de plantão em troca de um aval político, que acabou se dissipando. Os resultados para o seu governo foram catastróficos, mas não parece apropriado culpá-la inteiramente por isso.

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