Marina: crítica não é declaração de guerra

Ex-senadora propõe um novo pacto e novos protagonistas na política; "Se já não confiamos naqueles que prometeram tudo, eis aí o sinal para que nossa nova promessa seja um acordo, simples e claro, naquilo que é essencial", diz ela

Marina: crítica não é declaração de guerra
Marina: crítica não é declaração de guerra (Foto: ERNESTO RODRIGUES)

247 - Num artigo rebuscado, publicado nesta sexta-feira, a ex-senadora Marina Silva propõe um novo pacto político e afirma que críticas não devem ser encaradas como declarações de guerra. Leia abaixo:

Nascer sempre

Em meio aos abraços amigos e desejos de feliz Ano-Novo, costumamos reconhecer a sinceridade dos desejos para além das palavras, pois estas são, muitas vezes, gastas e repetidas. As palavras necessitam de gestos que recuperem e sustentem seu sentido.

Releio Hannah Arendt, para melhor refletir sobre a possibilidade de restaurar a capacidade humana de lidar com as desconfianças e incertezas causadas pela ameaça do imprevisível, por meio do milagre da "promessa". Na dimensão política da crise civilizatória que vivemos, a crise de confiança é o centro do problema. O ano que passou foi didático nesse ponto: o atual sistema de representação recebeu um claro voto de desconfiança e não foi capaz sequer de manter --ainda menos cumprir-- até mesmo as promessas apressadas que faz sob pressão.

Ainda é possível refazer a confiança, dentro de um espaço de heteroestima política, social, cultural, como indivíduos e como povo? como indivíduos e como povo? Temos motivo para descrer, num mundo fragmentado em que as relações se liquefazem e escorrem, sem estabilidade. Mesmo as novas formas de relacionamento e comunicação que inventamos, muitas vezes parecem ser uma desesperada tentativa de agarrarmo-nos uns aos outros, multiplicando conexões frágeis e superficiais na ausência de laços de confiança efetivos e afetivos.

Revejo, no entanto, a importância que H. Arendt dá ao nascimento como fonte de fé e esperança (cuja expressão poética e profética ela localiza nos Evangelhos: "nasceu uma criança entre nós") capaz de renovar a confiança em nós, nos outros, no futuro. Somos, assim, impelidos a olhar o que está nascendo ao nosso redor e, sim, tem muita coisa boa começando além de um novo ano.

Podemos abandonar o pensamento defensivo, que recebe as críticas como se fossem expressões de pessimismo ou até declarações de guerra para saudar, entre nós, o nascimento --renascimento, como queiramos-- de uma consciência aguda e exigente, que já não se ilude com velhas promessas mas que pode ser base sólida para um novo pacto ético e social. Podemos nos alegrar com o surgimento de uma nova geração de protagonistas da política, iniciantes ainda, mas com enorme capacidade de aprender e evoluir rapidamente. Podemos compartilhar desse novo sentimento de poder e liberdade que se espalha dando origem a uma democracia espalhada em todos os espaços da vida.

Podemos, sim, superar a fragmentação do mundo em crise compondo novas sínteses baseadas em novas harmonias. Se já não confiamos naqueles que prometeram tudo, eis aí o sinal para que nossa nova promessa seja um acordo, simples e claro, naquilo que é essencial. A confiança vem do que é sustentável.


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