Roberto Civita não é Murdoch

A revista demorou a perceber que Lula não é Collor. Mas de novo: a cobertura dura da administração Lula não trouxe vantagens à Abril

(este artigo foi postado originalmente no site Diário do Centro do Mundo)

Roberto Civita não é Murdoch, como escreveu em sua capa a revista Carta Capital. Mino Carta, assinalou corretamente Alberto Dines, fez vendetta, e não jornalismo. Mino jamais superou sua saída da Veja, que ele montou em 1968 e fez andar com talento, brilho e alguns tropeços até o final dos anos 1970. Divergências com a família Civita levaram à saída de Mino, e desse episódio ele guardou um ódio insuperável.

A única coisa claramente comum entre Civita e Murdoch é a ideologia conservadora, a fé absoluta em que o mercado salva e o Estado mata se intervier.

Mas as diferenças são enormes.

Primeiro, Roberto Civita, ao contrário de Murdoch, jamais manteve relações comprometedoramente próximas com os governantes. No Brasil, quem fez isso foi Roberto Marinho, este sim extremamente parecido, nos métodos, com Murdoch. Murdoch e Marinho utilizaram a proximidade com o poder para barganhar, na sombra, vantagens para seus negócios. Este traço é vital para entender por que a Globo ganhou uma concessão de televisão que a fez mudar de patamar como corporação e a Abril não.

Também são completamente diferentes na forma de tocar um negócio. Murdoch ajudou a criar uma cultura de vale tudo em sua organização. Recentemente, a BBC mostrou que a BSkyB, a tv por assinatura de Murdoch no Reino Unido, virtualmente eliminou um concorrente ao contratar hackers que tornaram fácil ao público ver a programação sem pagar. Essa cultura conduziu o tablóide de Murdoch News of the World ao escândalo das violações de caixas postais de celulares. É um episódio que Murdoch admite ter provocado um “estrago” em sua reputação — e que pode comprometer seriamente o futuro de sua News Corp, uma das maiores empresas de mídia do mundo.

A Editora Abril é conhecida pelos elevados padrões éticos em sua administração. Quando quase todas as empresas de mídia – da Globo à Folha – começaram a adotar a entratégia de transformar funcionários mais bem pagos em pessoas jurídicas para pagar menos impostos, a Abril recusou essa saída moralmente indefensável. Este é apenas um exemplo entre muitos de que fui testemunha pessoal em meus 25 anos de Abril.

No Brasil, foi a Abril que trouxe o conceito americano de separação entre Igreja (jornalismo) e Estado (administração). Isso fez a Abril ser guiada pelo conteúdo. Na Globo, ao contrário, á a área comercial que tem o comando. Isso se vê na bizarrice de você não poder dizer o nome de empresas no Jornal Nacional mesmo quando se trata de puro jornalismo porque isso poderia significar “propaganda” não paga. Uma vez, presenciei uma discussão patética no Conselho Editorial da Globo sobre como fazer para, numa transmissão de futebol, se referir a um time gaúcho que tinha o nome da faculdade que o comprara.

Coisas assim seriam inconcebíveis na Abril.

Lembro que uma vez, pouco antes de eu sair da empresa, fiz uma pergunta a Roberto Civita num almoço. Eu queria saber por que, diante de uma mesma situação, dívidas asfixiantes, a Abril tomara um caminho e a Globo outro. A Abril foi ao limite dos sacrifícios para honrar as contas. A Globo preferiu parar de pagar para forçar os credores a renegociar condições mais amenas. “Cresci vendo meu pai pagar todas as contas”, respondeu Civita depois de suspirar longamente.  Esse episódio, para mim, simboliza o espírito da Abril, primeiro sob o fundador Victor Civita e depois com seu filho e sucessor Roberto.

E então chegamos ao caso específico das denúncias passadas à Veja por um contraventor. Logo aprendemos nas redações que muitas vezes as melhores informações são dadas pelas piores pessoas. O público se beneficia com a publicação de furos dados por pessoas de baixa estatura moral? Se sim, o editor em geral tapa o nariz e vai adiante. Parece claro, além disso, que a revista não tinha conhecimento da folha corrida de Carlinhos Cachoeira quando publicou denúncias originárias dele.

A discussão mais proveitosa sobre o que Cachoeira passou à Veja gira em torno do interesse público.  Se o que foi publicado com base em informações de Cachoeira atendeu ao interesse público, a situação é uma. Se não, é outra. Sair desse campo objetivo de avaliação é um erro.

Como jornalista e como leitor, finalmente, acho que a Veja foi dura demais com Lula, principalmente no primeiro mandato. O colunista Diego Mainardi várias vezes ultrapassou os limites do bom senso, bem como Reinaldo de Azevedo em seu blogue movido a ódio e não a idéias. Na minha interpretação pessoal, a Veja imaginou estar diante de um novo Collor – uma percepção que se acentuaria com o caso do Mensalão. Certa ou errada, e fico, repito, com a segunda alternativa, a posição da Veja diante de Lula foi puramente editorial. É importante não esquecer isso.

A revista demorou a perceber que Lula não é Collor. Mas de novo: a cobertura dura da administração Lula não trouxe vantagens à Abril. Não aumentou – longe disso — os anúncios de estatais e nem a venda de livros educativos para o governo federal. Assim como Lula não é Collor, Roberto Civita não é Murdoch. Se fosse, a presidenta Dilma não teria recebido há pouco  uma equipe da Veja para uma entrevista de capa. E nem a Editora Abril seria o que é – uma referência em limpidez ética na administração e uma casa que provoca orgulho em seus funcionários, entre os quais me orgulho de ter figurado por tantos anos.

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