"Viagem a Berlim é uma história maliciosa"

"Vivo o pior momento da minha vida", diz o senador Demóstenes Torres diante da Comissão de Ética do Senado; "espero me soerguer", completou; ele agora responde a perguntas dos senadores, a começar pelo relator Humberto Costa, que preparou 100 previamente; "o senhor representou a decência e a ética", disse presidente Antonio Carlos Valadares

"Viagem a Berlim é uma história maliciosa"
"Viagem a Berlim é uma história maliciosa" (Foto: WILSON DIAS/ABR)
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247 – A hora da verdade começou para o senador Demóstenes Torres, um mestre da mentira. Pouco depois das dez da manhã, teve início a sessão da Comissão de Ética do Senado que julga a quebra de decoro pelo político, agente mais vistoso e elevado do esquema do contraventor Carlinhos Cachoeira.

Nos primeiros minutos de seu depoimento, Demóstenes procurou uma linha emocional para abordar a Comissão."Eu vivo o pior momento da minha vida. Tive depressão, tomei remédios para dormir que não funcionam, pensei em renunciar ao meu mandato", iniciou.

Ele não negou a amizade com o contraventor Carlinhos Cachoeira, mas sustentou que não sabia das atividades ilegais dele:

"Eu não tinha lanterna na popa, o que eu sabia é que me relacionava com um empresário que tinha contato com vários governadores, que tinha vida social. Hoje, com lanterna na popa, é possível ver o que há, mas antes, com lanterna na proa, era impossível ver". E completou: "Reafirmo que tinha amizade com ele, sim".

Demóstenes, em seguida, lembrou sua atuação como senador. "Relatei mais de 200 proposições legislativas, relatei projetos importantes como o Estatuto do Idoso, a Lei da Ficha Limpa, a Lei de Acesso a Documentos Públicos. Se resisti até esse momento para chegar aqui é porque eu queria responder as senhoras e aos senhoras, as dúvidas que o Brasil tem, que a minha família também tem. Eu só pude chegar até hoje porque redescobri Deus".

Em sua defesa, o senador negou qualquer relação com o jogo ilegal. "Quero dizer que não tive relação com o jogo", garantiu.

CITAÇÕES DO INQUÉRITO - Sob o argumento de que teria sido investigado ilegalmente, a respeito de temas não diretamente relacionados ao objetivo da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, Demóstenes citou diferentes passagens do inquérito, nas quais delegados afirmam que conversas telefônicas grampeadas não se referiam à investigação. Ele leu declarações desse tipo, sempre indicando o número de cada página do inquérito. Demonstrou, ao menos, que seu advogado leu detidamente as mais de 10 mil páginas do trabalho da PF. Houve registros, por exemplo, extraídos da página 1.371 do apenso um, volume sete, nos quais constam que "as pessoas citadas", ele incluído, não haviam pago propina para agentes públicos do Estado de Goiás fazerem vistas grossas para explorar máquinas caça-níqueis, praticar contrabando, fazer corrupção ativa e descaminho. Ele insistiu lendo frases de procuradores, segundo as quais não tinha relação com o jogo ilegal.

Em sua defesa, um jornalista já foi citado por Demóstenes: Cláudio Humberto. E um veículo de comunicação: a revista Carta Capital, esta como tendo publicado uma declaração negada posteriormente. Demóstenes citou frase do advogado Rui Cruvinel à coluna de Humberto, negando o teor de uma entrevista que ele dera à Carta Capital, em que teria feito acusações de que o senador faria parte de um esquema de jogos ilegais. Frase da subprocuradora Claudia Sampaio, também isentando Demóstenes, igualmente foi citada por ele. Após as leituras, o próprio Demóstenes concluiu: "Eles (os citados) podem até brigar, mas convergem num ponto: Eu jamais tive qualquer participação em esquema de jogos ilegais".

USO DO RÁDIO NEXTEL - "Recebi um rádio que me foi dado para a minha comodidade", disse Demóstenes, sem citar diretamente de quem ganhou o aparelho. "Eu não tinha como advinhar que isso (o rádio) era usado para outras finalidades", completou. "Eu não poderia imaginar que quarenta ou mais pessoas tinham esses rádios", avançou, depois de uma frase ao pé do ouvido do advogado Kakay.

LIGAÇÕES PARA CACHOEIRA - "Eu fiz mais de 26 mil ligações, recebi mais de 200 mil, mas como o grampo aconteceu em relação a um só interlocutor (Carlinhos Cachoeira), não há um padrão de comparação a fazer", disse ele, para se defender do fato de que a Operação Monte Carlos realizou mais de 200 ligações entre ele e Cachoeira. Demóstenes sustentou que conversava com o contraventor como fazia com quaisquer outras pessoas. "Não há quebra de decoro em comentar uma projeto de lei com alguém", resumiu o senador.

VIAGEM A BERLIM - Com quase quarenta minutos de depoimento, Demóstenes entrou na assunto da viagem a Berlim. Iniciou dizendo que iria a Praga, enquanto o ministro Gilmar Mendes, do STF, tinha um compromisso num evento jurídico em Granada. "Como os senhores sabem, Praga fica perto de Berlim", assinalou. Ele citou trechos das páginas 249 e 265 do inquérito para garantir que Carlinhos Cachoeira não esteve lá. Mais, não disse, deixando no ar a frase: "A viagem a Berlim é uma história maliciosa".

"VOU TE DAR UM IPAD NOVO" - O senador Demóstenes procurou dizer que jamais fez pressão sobre ministros do STF, apesar de ter vários encontros com eles. "Eu fui aqui um interlocutor privilegiado dos magistrados", sublinhou após negar ter travado "qualquer conversa atravessada com qualquer membro do Judiciário". "Pleito zero", acrescentou. Neste momento, negou abordagem não republicana aos ministros Luiz Fux e Dias Toffoli. Sobre ele, disse que o levou, em Goiânia, ao atelier do artista plástico Siron Franco, assistiu com ele o jogo Brasil contra a Holanda e ainda almoçou. "Então, nada, nada, nada em relação ao ministro Toffoli". Com Toffoli ao seu lado, no início desse périplo, Demóstenes chegou ao ponto queria: um iPad que lhe teria sido de presente por Carlinhos Cachoeira. "Ele me ligou e perguntou se eu tinha lido uma entrevista minha que acabara de sair nas páginas amarelas da revista Veja", resgatou. "Eu avisei que meu iPad tinha dado pau, que a minha filha havia mexido na senha", explicou. "Então, ele disse 'eu vou te mandar um iPad novo'". Na tese que defende, Demóstenes procura sustentar que esse gesto não é um crime.

Demóstenes concluiu sua defesa afirmando que muitas das acusações foram feitas com o intuito de destruí-lo. O senador adimtiu ter andado em aviões de empresários de Goiás e ter arrumado emprego para pessoas no Congresso. O senador negou que seja "sócio oculto" da empresa Delta, suspeita de integrar suposto esquema comandado por Cachoeira. "O sócio oculto da Delta não sou eu. Se tem algum sócio oculto da Delta procurem com uma lupa maior aí, porque não sou eu", disse o senador, ao responder questões do relator do processo, Humberto Costa.

O relator do processo, senador Humberto Costa (PT-PE), sustentou em seu relatório preliminar, apresentado no dia 3 de maio, que Demóstenes entrou em contradição com relação à posição sobre a legalização de jogos no Brasil. Hoje, Demóstenes negou que tenha votado a favor da legalização de jogos quando o Senado apreciou uma medida provisória sobre o assunto editada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Não estávamos votando o mérito. Tratava-se de matéria preliminar de cunho constitucional e acompanhei orientação partidária", explicou Demóstenes, que leu a relação dos demais senadores que votaram com ele, contra a urgência da votação. "Nenhum deles pode ser acusado de ter votado a favor do jogo", disse o senador.

Ao se defender da acusação de ter tentado influenciar ministros do governo e de tribunais superiores do Judiciário com pleitos de interesse de Cachoeira, Demóstenes confirmou a relação com os ministros citados no inquérito da Polícia Federal, mas negou que tivesse feito pedidos de interesse pessoal. "Fui a praticamente todos os ministro [do governo], ainda que sendo de oposição. Quase sempre  a resposta era não. Entendi que esse era meu papel.  Mas nunca com um pleito escuso", defendeu-se.

Após a conclusão do depoimento de Demóstenes, os senadores dão início às perguntas, a começar pelo relator do caso, Humberto Costa (PT-PE).

Com informações da Agência Brasil

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