Bolsonaro na Canção Nova: fundamentalistas católicos são iguais aos fundamentalistas evangélicos

As religiões não se dividem mais por seus “guarda-chuvas institucionais”; Jonas Abib, o líder da católica Canção Nova, tem mais afinidade com Silas Malafia do que com o Papa Francisco; o fundamentalismo tornou-se o traço de divisão no interior do cristianismo;por isso, o Papa Francisco é mais amado pelo mundo afora do que por largos segmentos de católicos e católicas conservadores, que rezam pelo fim de seu pontificado mais ou menos abertamente; leia artigo de Mauro Lopes, editor do 247

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São constrangedoras e até chocantes as imagens da visita de Jair Bolsonaro à sede da Canção Nova na última sexta-feira (30). Foi recebido com tapete vermelho, com júbilo de reverência pelos líderes do  importante movimento carismático-pentecostal católico. Mas, para além do aspecto constrangedor e chocante, o episódio foi revelador: desnudou o fato de que hoje, especialmente dentro do cristianismo, as afinidades não se dividem mais por adesões institucionais, como no passado.

A diferença e distância não é mais pautada pela pertença, por exemplo, à Igreja Católica ou à Igreja Universal do Reino de Deus. O evento na Canção Nova é uma comprovação viva de que as afinidades estão traçadas pelo crescimento do fundamentalismo no interior das diversas denominações cristãs. Jonas Abib, o líder da Canção Nova, tem mais afinidade com Silas Malafia do que com o Papa Francisco.

Os católicos de extrema-direita apoiaram Bolsonaro nas eleições e agora recebem-no como um dos “seus”. No entanto, o presidente eleito não é católico. Antes de começar a campanha presidencial e iniciar viagens quase diárias pelo país, Bolsonaro foi batizado na  Assembleia de Deus. Isso não impede que ele seja idolatrado na Canção Nova e por outros ramos do catolicismo de direita.

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Lula, que é católico, foi casado por mais de 40 anos com Marisa Letícia, uma católica fervorosa. No entanto, os católicos de direita e extrema-direita, conservadores e fundamentalistas, devotam ódio explícito a ele, a ponto de desejarem publicamente sua morte.

A identidade entre o fundamentalismo católico e o evangélico, entre os católicos de direita e extrema-direita e seus correspondentes em outras denominações cristãs é cada dia mais patente. O cardeal do Rio de Janeiro, dom Orani Tempesta, recebeu Jair Bolsonaro em 17 de outubro em clima de intimidade. Houve festa entre funcionárias bolsonaristas na Arquidiocese, que foram flagradas diante de uma imagem do Sagrado Coração de Jesus fazendo, em êxtase, o gesto que identifica Bolsonaro: os dedos simulando um revólver, disparando contra “bandidos”, “sem terra” e “a petralhada”. Na eleição para a Prefeitura do Rio, em 2016, dom Orani apoiou abertamente o candidato Marcelo Crivella, que venceu o pleito -ele é bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus.

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Mais ainda, há uma identidade litúrgica cada vez maior entre os católicos carismáticos-fundamentalistas e os evangélicos, especialmente os neopentecostais. Quem adentrar numa Igreja Católica numas das “missas de cura e libertação” ou num dos “cercos de Jericó”, por exemplo, poderá se enganar imaginando estar num culto neopentecostal. Os ritos aproximam-se cada vez mais.

Veja a foto de Bolsonaro sendo abençoado pela cúpula da Canção Nova, no Santuário do Pai das Misericórdias, em Cachoeira Paulista (SP) cercado, entre outros, pelo fundador da comunidade, padre Jonas Abib, pela cofundadora da comunidade, Luzia Santiago e pelo presidente da Fundação João Paulo II, Wellington Silva Jardim. Não fosse pelas vestes dos homens, a cena poderia ter ocorrido em qualquer outra igreja neopentecostal.

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Os cristãos e cristãs católicos comprometidos com a mensagem original de Jesus Cristo de caminho com os pobres e que mantêm identidade com o Concílio Vaticano II estão cada dia mais distantes dos segmentos de direita e extrema-direita que aderiram ao fundamentalismo. Sua afinidade é maior com cristãos da Reforma, evangélicos e segmentos das religiões afro, budismo, espiritismo e outras, com ateus e ateias que, de acordo com sua cultura e fé, defendem um mundo de partilha, paz e compaixão.

Enquanto isso, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) sustenta um equilíbrio precário diante da realidade da divisão profunda que marca a Igreja no Brasil. Apesar de sua direção ser alinhada com o Papa Francisco, evita qualquer confronto com os poderosos fundamentalistas, enquanto é fustigada diariamente por eles. Está em silêncio, move-se com o máximo de discrição, enquanto o líder máximo da Igreja, o papa, enfrenta os conservadores em campo aberto. A direção da CNBB recebeu Haddad durante a campanha eleitoral. Mas o medo da cúpula da entidade é tamanho que não houve sequer uma foto do encontro. Lula é católico. Mas nenhum bispo ou delegação da CNBB foi até a prisão em Curitiba visitá-lo até hoje.

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Será que veremos um dia dom Orani Tempesta, Jonas Abib e outros líderes conservadores e fundamentalistas católicos celebrando uma missa ou participando de um culto ao lado de Silas Malafais e Marcos Feliciano? Uma impossibilidade completa anos atrás. Mas no futuro, quem sabe?

Não é à toa que o  Papa Francisco é mais amado pelo mundo afora por pessoas de todos os credos e geografias do que por largos segmentos de católicos e católicas conservadores, que rezam pelo fim de seu pontificado.

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