Apontamentos para 2019 em Minas

Rapidamente, tudo indica, Zema vai aprender que a política mineira, mais que em qualquer outro estado, se faz menos com técnica e mais com negociação. É isso que, no início de 2019, esta coluna pretende acompanhar

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Mal se encerra o Governo de Fernando Pimentel (PT, 2015-2018) e Minas Gerais já pode se ver às portas de novas crises institucionais à medida que se desvelarem os objetivos da Administração do autoproclamado "Partido Novo" (PN) de Romeu Zema. Um dos primeiros desafios do novo Governo será compor com os deputados estaduais empossados em 1o de janeiro a eleição do presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) para o biênio 2019-2020, apresentando aos mineiros o sucessor de Adalclever Lopes (MDB).

Se a entrega de Minas ao ultraliberalismo vigente desde 2016 não veio com o golpe, dado o enfraquecimento do PSDB e do MDB locais após o escândalo dos grampos da JBS, a migração da agenda nacional para o estado conseguiu parear-se à onda Bolsonaro nas eleições presidenciais e está chancelada para os próximos quatro anos através de Romeu Zema. Entretanto, ainda não se tem certeza sobre que resistência ela encontrará no Legislativo local, que assume em janeiro contornos diferentes daquele que toma o Congresso Nacional, tanto Câmara quanto Senado, com uma invasão de novatos conservadores que encontram nas bancadas de PT e PSOL sua única resistência, ainda assim neutralizada pelo próprio número de deputados do PSL, que sozinho praticamente iguala o partido de Lula e Dilma.

Na Assembleia Legislativa mineira, o PT terá a maior bancada, com 10 deputados estaduais, reforçando a constatação de que a operação de anulação do debate público via "fake news" foi determinante nas eleições majoritárias. O contraponto do bom desempenho de PT e PSOL na Câmara dos Deputados e nos Legislativos estaduais Brasil afora, pleitos que transcorreram fora dos holofotes e terminaram por passar à margem dos interesses empresariais em 2018, dá pistas de que potencial a esquerda teria nas eleições pós-Temer.

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Mas não apenas a bancada petista é grande, como a do PSL é proporcionalmente menor que na cena nacional, com seis deputados, portanto quase a metade dos 11 de PT mais PSOL, que tem um. O bloco MDB-PSDB, que, hoje enfraquecido, compõe o núcleo herdeiro do golpismo Temer-Aécio, faz 14 parlamentares, sete cada legenda. O PN de Zema tem apenas três, assim como o amorfo PTB. Atrás de PT, MDB, PSDB e PSL há ainda o igualmente insólito Partido "Verde", que em prol do fisiologismo já expeliu nacionalmente quadros ideológicos como Alfredo Sirkis e, vá lá, Marina Silva. O PV conta com cinco deputados. Depois, o artificial PSD do ex-prefeito de São Paulo Gilberto Kassab tem quatro. Daí por diante, siglas de menor importância que percorrem boa parte da sopa de letrinhas da política brasileira acumulam três, dois ou um dos 77 deputados estaduais, sendo representados mesmo os nanicos Avante e Democracia Cristã (ela mesma, de José Maria Eymael).

Em meio a essa pulverização que se configurou no Legislativo mineiro para o quadriênio 2019-2022, o primeiro desafio do PN é assumir, por si mesmo ou por meio de um aliado, o comando da Mesa Diretora da Casa. Não e difícil para Governos recém-empossados, sobretudo com a legitimidade de 70% dos votos, emplacarem o Presidente da Câmara ou Assembleia correspondente ao ente federado em questão. O problema é que o atalho percorrido pelo Executivo em "lua de mel com o poder", como se costuma chamar os primeiros 90 dias de Governo, passa pelas promessas de composição e oferecimento de verbas e cargos a deputados e prefeitos aliados, só para ficar nas conversas mais ortodoxas. Logo elas se desfazem na medida em que o governante não dá conta de cumprir com a infinidade de acordos que lhe garantem três meses de paz e boas expectativas, e aí começa o Governo real.

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Se o PN e seu primeiro chefe de Executivo gozam ainda da benesse de afirmarem-se diferentes dos demais, refutando as negociações muitas vezes escusas da política tradicional (o que, justiça seja feita, à esquerda ainda vale para a postura política do PSOL, que ainda não debutou de fato no poder Executivo), logo terá de enfrentar o desafio de ser testado no poder, obrigando-se a mostrar aos mineiros que estratégias traz de diferente para ter o comando da Assembleia Legislativa ou, no mínimo, manter com a mesma uma relação cordial que lhe garanta governabilidade. Com tantos deputados estaduais de diferentes afiliações partidárias, a maioria com mais interesses políticos que ideológicos, esta coluna aposta que não haverá outro caminho senão a boa e velha barganha de cargos e verbas, no que o PN e Zema podem se complicar. Uma possibilidade em contrário é arregimentar o maior número possível de parlamentares num bloco antipetista, trazendo à tona o inimigo imaginário em comum para atrair pela consciência de classe uma imensa bancada de deputados estaduais ligados à oligarquia e à plutocracia mineira.

Por fim, vale lembrar que Minas enfrenta problemas financeiros deixados pelo golpe, cuja votação para aprovação de um fundo extraordinário para compensação de dívidas, proposto por Pimentel, esquentou o clima na penúltima semana de trabalhos da ALMG, com bate-boca no plenário e boicote da bancada petista à votação, que provavelmente se encerraria com a rejeição do projeto. Com a obstrução, a decisão ficou no mínimo para terça-feira (18), podendo tornar-se um problema para o primeiro mês da gestão Zema caso a questão siga emperrada.

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Em meio a tudo isso, 40 municípios mineiros protestam oficialmente contra o Palácio da Liberdade e a falta de repasses de verbas, no que recebem o apoio da Associação Mineira dos Municípios (AMM), hipertrofiada em seu poder na comparação com entidades correspondentes de outros estados, visto que Minas tem 853 municípios (o Rio de Janeiro, 92, São Paulo, 645, Rio Grande do Sul, 497), todos representando algum campo de atuação e negociação para um deputado federal, estadual ou senador e, portanto, para o Governo estadual.

Rapidamente, tudo indica, Zema vai aprender que a política mineira, mais que em qualquer outro estado, se faz menos com técnica e mais com negociação. É isso que, no início de 2019, esta coluna pretende acompanhar.

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