Caxemira, Coréia, Venezuela, Irã: guerra quente, fria e híbrida

"A fronteira mais quente da Ásia é agora a Linha de Controle, mas tentativas de mudança de regime em outros Estados também dominam o noticiário", avalia o jornalista Pepe Escobar; "Potências não-nucleares, especialmente aquelas ricas em recursos naturais e implementadoras de estratégias que permitam contornar o dólar americano, como Irã e Venezuela, enfrentam o destino de serem alvos de mudança de regime, lenta e dolorosamente devoradas por Yama, o Senhor da Morte"

Caxemira, Coréia, Venezuela, Irã: guerra quente, fria e híbrida
Caxemira, Coréia, Venezuela, Irã: guerra quente, fria e híbrida


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Traduzido por Sylvie Giraud

Girando e girando em uma espiral crescente, a geopolítica do jovem século XXI se assemelha a uma mandala psicodélica concebida por Yama, o Senhor da Morte.

Essa mesma frase, se tivesse sido pronunciada há pouco tempo, teria provocado gritos de escárnio transcontinentais.

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Contrariamente à liderança desprovida de nuclear do Irã, o presidente Kim, dono de um pequeno arsenal nuclear, é considerado como um interlocutor pela Superpotência, contradição tão mais flagrante quando se sabe que a mesma Superpotência abandonou um acordo nuclear multilateral funcional e aprovado pela ONU.

Simultaneamente, a fronteira mais quente da Ásia não é, surpreendentemente, a Zona Desmilitarizada entre as Coréias, mas, mais uma vez, a Linha de Controle entre as potências nucleares da Índia e do Paquistão na Caxemira.

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Em uma escalada de tensão, apesar de Islamabad e Delhi poderem, em teoria, vir a apontar seus mísseis nucleares entre si, a Coréia do Norte não apontará um só míssil com ponta nuclear para Guam e Teerã não direcionará os seus contra nada, já que não os possui.

Como em uma comédia de animação de mau gosto, a mudança de regime em Pyongyang deixa o palco, enquanto a mudança de regime no Irã permanece, e entra em cena a mudança de regime na Venezuela. O Irã ainda pode ser colocado no Eixo do Mal, mas o novo lema é a troika da tirania (Venezuela, Cuba, Nicarágua), já que o governo de Caracas faz "beep beep" no nariz do Wily Coyote da Superpotência.

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Uma série de duvidosos neocons e obscuras "fundações" americanas mantêm viva a chama da mudança de regime no Irã, chegando ao ponto de fabricar um eixo Teerã-Al-Qaeda, e ao mesmo tempo avança na Venezuela um cenário sub-reptício. Um assombroso briefing no Ministério das Relações Exteriores em Moscou na sexta-feira passada revelou que “forças especiais e unidades de tecnologia dos EUA serão entregues mais perto das fronteiras da Venezuela. Temos informações de que os EUA e seus parceiros da OTAN estão organizando uma entrega massiva de armas vindas de um país da Europa Oriental para a oposição na Venezuela”.

Os fatos são implacáveis. Após quase duas décadas, a OTAN, foi miseravelmente derrotada no Afeganistão. A guerra por procuração do Conselho de Cooperação OTAN-Golfo na Síria falhou. Os vencedores são Damasco, Teerã e Moscou. O conflito no Donbass está congelado. Então, a solução foi um retorno a um remix da doutrina de Monroe, ainda que a manobra humanitária - reminiscente do "imperialismo humanitário" que levou à destruição da Líbia – parece ter fracassado, por enquanto.

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O vice-presidente brasileiro, general Hamilton Mourão, introduziu uma dose de sanidade no debate ao pronunciar-se contra a mudança de regime ao estilo “todas as opções estão sobre a mesa” de seu próprio presidente, Jair Bolsonaro. Mourão ressalta com freqüência que “a questão da Venezuela deve ser decidida pelos venezuelanos”, acrescentando que as ameaças dos EUA soam “mais como retórica do que como ação”, pois um ataque militar seria “sem propósito”.

Observe esse K

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O que há em um nome? Se Paquistão em urdu significa deveras a "terra dos puros", a chave está na sigla, onde K está para Caxemira - ao lado de P para Punjab, A para Afeganistão (em realidade, as áreas tribais pashtuns), S para Sindh e T para o “tan” no Baluchistão. O K é uma questão de identidade nacional.

A Caxemira é um prêmio geoestratégico crucial. Assumindo que a Índia seguirá possuindo-a integralmente, isso representaria uma ponte direta para a Ásia Central e uma fronteira com o Afeganistão, enquanto privaria o Paquistão de uma fronteira com a China, anulando em grande medida o Corredor Econômico China-Paquistão (CPEC), um dos principais projetos da Iniciativa Um Cinturão Uma Rota (BRI).

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Se o Paquistão a possuísse integralmente, isso resolveria as preocupações do país com a segurança da água. O rio Indus começa no Himalaia, no Tibete, e passa pela Caxemira controlada pela Índia antes de entrar no Paquistão e percorrer todo o caminho até o Mar da Arábia. O Indus e seus afluentes fornecem água para dois terços do Paquistão. Nova Delhi acaba de ameaçar militarizar o fluxo de água ao Paquistão.

É difícil prever um fim às intermináveis escaramuças ou mesmo conflagrações parciais entre os jihadis - protegidos por Islamabad em diferentes níveis - e o exército indiano que permanentemente agitam o Caxemira. O islamista Jaish-e-Mohammed (JeM) aspira a anexação integral da Caxemira a um Paquistão governado pela lei da Sharia.

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A obsessão de JeM pela Caxemira também é compartilhada por seus aliados de fato Lashkar-e-Taiba (LeT). Ambos são apoiados - com graus de nuance - pela agência de inteligência do Paquistão, o ISI. Acima de tudo, ambos são fortemente apoiados financeiramente pela Família Real Saudita, de prática wahhabita, e pelos Emirados Árabes Unidos.

Não há solução para a Caxemira que não envolva cortar pela raiz o proselitismo, o financiamento e o armamento sauditas - coquetel tóxico que alimentou a famosa cultura Kalashnikov no Paquistão. E não haverá solução enquanto a habilidade da Família Real Saudita em ter as armas nucleares de Islamabad “sob encomenda” continuar sendo o principal segredo público no sul da Ásia.

Rússia e China como vozes da razão

Se este fosse um campo sensato, alheio a Yama, Índia e o Paquistão dialogariam, como o primeiro-ministro Imran Khan acaba de oferecer, através da plataforma da Organização de Cooperação de Xangai, da qual ambos são membros, com a Rússia e a China como mediadores.

Isso nos leva ao que aconteceu em Yueqing, na China, quarta-feira, totalmente sob o radar ocidental; uma reunião de nível ministerial de facto do “RIC” nos BRICS, reunindo o Ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergey Lavrov, o Ministro dos Negócios Estrangeiros chinês, Wang Yi, e o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Índia, Sushma Swaraj.

Lavrov pode ter denunciado “tentativas absolutamente descaradas” de se “criar artificialmente um pretexto para uma intervenção militar” na Venezuela. Mas no cerne da agenda géostratégica internacional estava o que Rússia, China e Índia discutiram sobre a Caxemira - tentando desarmar um cenário ainda explosivo - e que pode eventualmente ter um impacto direto tanto em Islamabad quanto em Nova Delhi.

As posições coordenadas da China e da Rússia foram absolutamente fundamentais para facilitar o diálogo da Coréia do Norte com a administração Trump. No entanto, ainda está muito distante do sonho do presidente sul-coreano Moon: Trump declarando oficialmente o fim da guerra da Coréia de 1950 a 1953, por meio de um tratado de paz que substitui o atual armistício por garantias de segurança. Afinal, essa é a condição número um para a Coréia do Norte começar a contemplar a desnuclearização.

A China e a Rússia, em teoria, também têm o que é preciso para levar Índia e Paquistão ao caminho da razão – e dispõem da influência necessária para igualmente pressionar o wahhabismo militarista da Arábia Saudita.

Ainda assim, do ponto de vista de Washington, China e Rússia são “ameaças” – opinião mantida tanto pela Estratégia Nacional de Segurança como por funcionários como o General da Força Aérea Terrence O'Shaughnessy, comandante do Northcom, que acabou de dizer ao comitê do Senado que a “intenção da Rússia para manter os EUA em risco” representa uma ameaça urgente.

Uns são mais iguais do que outros

China, Rússia e Irã são nós essenciais da integração da Eurásia, que interligam vetores-chave das Novas Rotas da Seda, por meio do acordo comercial do Irã com a União Econômica da Eurásia e expansão do Corredor Internacional de Transporte Norte-Sul (INSTC). Considerando os interesses em jogo, Lavrov e Yi não teriam como não ficar chocados com a renúncia do ministro das Relações Exteriores do Irã, Mohammad Javad Zarif, de seu cargo, via Instagram.

Fontes em Teerã afirmam que a principal razão da renúncia de Zarif foi ele não ter sido informado - e acabou por não comparecer - sobre uma reunião de alto escalão em Teerã na segunda-feira sobre a Síria de Bashar al-Assad, na qual estariam presentes o líder supremo Ayatollah Khamenei, o comandante da Força Quds do IRGC, Qassem Soleimani, e o Presidente Hassan Rouhani quando discutiram estritamente assuntos militares sírios, não diplomacia. Zarif pode não ter estado presente na sala, mas seu número dois, Abbas Araghchi, estava.

Ao final, Rouhani rejeitou a renúncia de Zarif, ressaltando que isso era contra os interesses nacionais do Irã. Essencialmente, Soleimani disse que Zarif tinha total apoio de Khamenei. Ainda que várias facções dos radicais iranianos possam estar se irritando com Zarif e Rouhani, caracterizando-os como tolos que caíram em uma armadilha americana, a última coisa que Teerã precisa no momento - sob pressão da guerra híbrida - é de divisão interna. Paralelamente, o apoio da Rússia e da China permanece o mesmo.

Washington pode implantar variações da Guerra Híbrida, mas a maioria dos reflexos seguem sendo os da Guerra Fria, sem distinção. O mecanismo permanece o mesmo. Uma fortuna do dinheiro dos contribuintes dos EUA é despejada no complexo industrial-militar, com empresas de defesa e grandes corporações pagando contribuições de campanha fabulosas para a classe política. É por isso que alguém como Tulsi Gabbard, que é contra a guerra - quente, fria e híbrida - e contrário à estratégia de mudanças de regime, será banido para o Reino por Vir pelo lobby de fabricante de armas, e impedido de concorrer à presidência.

O Sul Global aprendeu que, ao girar e girar na espiral crescente, alguns países são de fato mais iguais do que outros. Mesmo que alguns possam ser implacavelmente criticados como facilitadores de terrorismo (Paquistão), e as potências nucleares devem ser apaziguadas (RPDC) e seduzidas (a Índia como um pilar da estratégia “Indo-Pacífico”). O Presidente Kim é agora um "grande líder" que pode dar à sua nação um "tremendo futuro".

Potências não-nucleares, especialmente aquelas ricas em recursos naturais e implementadoras de estratégias que permitam contornar o dólar americano, como Irã e Venezuela, enfrentam o destino de serem alvos de mudança de regime, lenta e dolorosamente devoradas por Yama, o Senhor da Morte.

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