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02.06.2017, 09:52

Puberdade precoce. Perturbações hormonais causadas por pesticidas e poluição

A cada ano, na França, cerca de mil meninas e cem meninos são vítimas dessa patologia rara. Há pouco, no entanto, novas estatísticas mostram que nas regiões de Lyon e Toulouse esse número aumentou de modo preocupante. Provável causa: contato com pesticidas e substâncias poluidoras.

 

 

Por: Tristan Vey - Le Figaro Santé 

A puberdade precoce é uma patologia relativamente rara, definida pela aceleração da curva de crescimento e a aparição de pelos pubianos em meninas de até 8 anos e meninos de até 9 anos, acompanhada por um aumento do volume dos seios ou dos testículos.

O maior suspeito de ser a causa do fenômeno são os perturbadores endócrinos (moléculas que modificam o sistema de comunicação interna dos seres vivos baseado nos hormônios).

A agência nacional de saúde pública francesa (Santé Publique France) acaba de produzir um primeiro mapa dessa patologia na França, a partir de dados coletados entre 2011 e 2013. “Detectamos 1173 novos casos anuais no conjunto do nosso território para as meninas, e um número dez vezes menor para os meninos”, explica Joëlle Le Moal, epidemiologista da Santé Publique France. “Ainda não temos uma explicação clara para essa diferença entre os sexos, mas o sistema hormonal dos meninos e o das meninas não é o mesmo. Existe também o fato de que o desenvolvimento dos seios é mais visível e mais vigiado do que o dos testículos. Uma das suspeitas é que os cosméticos ou os produtos para cabelos contendo estrógenos possam exercer um papel nesse fenômeno”.

 

“Vamos começar nossas investigações pela viticultura e a arboricultura, pois pensamos que elas exercem um impacto mais direto sobre as populações que moram nas imediações”, diz Joëlle Le Moal, epidemiologista da Santé Publique France

 

A repartição geográfica é idêntica entre os dois sexos, porém muito desigual sobre o território. Nas regiões de Toulouse e Lyon, por exemplo, a incidência do fenômeno é de dez a doze vezes mais importante do que na maior parte dos outros departamentos franceses. “Trata-se de uma grande surpresa, muito complicada para se explicar”, reconhece Joëlle Le Moal. “Sabemos que o excesso de peso e a origem étnica podem desempenhar um papel, ou que o número de puberdades precoces aumenta à medida que descemos para as regiões mais ao sul, talvez com uma ligação à maior exposição aos raios ultravioletas. O nível de exposição aos perturbadores endocrinológicos deve também, com toda probabilidade, ser levado em conta, mas ainda não sabemos em qual medida”.

O papel dos pesticidas

Os pesquisadores tentam estabelecer um indicador de proximidade às plantações agrícolas, já que os pesticidas que presumivelmente se encontram no ambiente são uma fonte importante de perturbações endocrinológicas. “Começaremos pela viticultura e a arboricultura, pois pensamos que elas exercem um impacto mais direto sobre as populações que moram nas imediações”, diz Joëlle Le Moal.

Por outro lado, outras patologias potencialmente ligadas aos perturbadores endocrinológicos, tais como as más formações da uretra (hipospadias), e os defeitos de migração testicular para as bolsas escrotais (criptorquidias), não apresentam as mesmas disparidades geográficas, nem as mesmas evoluções temporais.

Embora seja certo que os perturbadores endocrinológicos, hoje onipresentes no meio ambiente, desempenham um papel nessas patologias, ainda não é evidente o estabelecimento de uma relação clara de causa e efeito no plano epidemiológico.