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04.12.2017, 17:47

Enfermeiros sob pressão. Agressões e sobrecarga de trabalho é o que não falta na profissão

No momento, em todo o mundo, os enfermeiros cuidam de um número excessivo de pacientes. Se o número de doentes a gerenciar diminuir de dez para seis, a mortalidade irá diminuir em 20%. No Brasil, pesquisa feita pelo Conselho Federal de Enfermagem e pela Fundação Oswaldo Cruz para conhecer o perfil de 1,6 milhão de enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem do país revela que 70% desses profissionais brasileiros se sentem inseguros e cansados no seu ambiente de trabalho. 

 

Por Anne Prigent – Le Figaro

 

Na maior parte dos países, vivemos um momento de restrições orçamentárias e de cuidadores na beira do burn-out (esgotamento). Recente estudo mostra que a pressão sobre as equipes de enfermagem em unidades de saúde é muito prejudicial também para os pacientes. De fato, de acordo com dados publicados no site do British Medical Journal, em hospitais onde os enfermeiros cuidam de até seis pacientes, a taxa de mortalidade é 20% menor em relação a dos hospitais onde cada enfermeiro é responsável por dez pacientes.

Tais resultados confirmam os que foram obtidos em estudos anteriores. Em 2014, um grande estudo publicado no The Lancet, mostrou que em hospitais onde cada enfermeira (ou enfermeiro) é responsável por seis pacientes, em média, e onde a maioria da equipe tem o nível secundário completo, o risco de morte de um paciente no prazo de 30 dias é praticamente inferior de um terço em relação ao de estabelecimentos onde cada enfermeiro tem oito pacientes sob sua responsabilidade e onde apenas 30% deles têm este nível de ensino. Este estudo revelou especialmente que cada paciente adicional por enfermeiro aumentava o risco de mortalidade em 7%.

Cotas na Austrália e na Califórnia

Existe uma cota de pacientes por enfermeiro que poderia assegurar um limite seguro? Os autores do estudo do BMJ permanecem muito cautelosos e acreditam que seu estudo não permita determinar essa cota com precisão. Apenas a Austrália e a Califórnia implementaram cotas de um enfermeiro para cada quatro pacientes.

«Eles têm demonstrado o valor das cotas sobre a qualidade dos cuidados. Claro, isso aumenta o custo em termos de funcionários, mas que é compensado pela diminuição das complicações, dos tempos de internação e da mortalidade», diz Thierry Amouroux, secretário geral do Sindicato nacional francês dos profissionais enfermeiros (SNPI). Na França, as cotas de enfermeiros existem apenas para determinados serviços, especialmente sensíveis, como os serviços de reanimação (duas enfermeiras para cinco pacientes).

Deveríamos ter tempo para dialogar

Podemos estimar que a quantidade de pacientes por enfermeiro tornou-se muito importante? Certamente, responde Thierry Amouroux. Para o representante sindical, se o número de pacientes que um enfermeiro deve cuidar não evoluiu há dez anos, a carga de trabalho tem aumentado consideravelmente. «Por causa da diminuição das durações de estadia e de desenvolvimento de alternativas para a internação, os pacientes que estão internados são casos mais graves que há dez anos», diz ele.

Resultado: os enfermeiros tornaram-se técnicos de atendimento em detrimento da relação com os pacientes. «Mas não estamos apenas aí para alinhar cuidados. Deveríamos ter tempo para dialogar com o paciente. É muitas vezes a equipe de enfermeiros que traduz as palavras do residente que lhe explicou seus tratamentos », diz o representante do SNPI, que alerta sobre o cansaço das equipes. Em cada 25 mil pessoas formadas, um quarto delas troca de profissão depois de cinco anos. O risco consiste em enfrentar uma escassez de enfermeiros nos próximos anos.«Substituí-los por pessoas menos treinadas talvez seja imprudente», alertam os autores do estudo do BMJ.

No Brasil, agressões são frequentes

Muitos enfermeiros no Brasil relatam que já foram ofendidos e até agredidos por pacientes e acompanhantes, e maior parte das agressões é por falta de estrutura. Ao todo, 70% dos enfermeiros no Brasil se sentem inseguros no ambiente de trabalho. Muitos relatam que já foram ofendidos e até agredidos por pacientes e acompanhantes. Os enfermeiros contaram que em muitos casos, o motivo das agressões que eles sofrem de pacientes ou parentes é justamente a falta de estrutura. O atendimento demora por causa da falta de médicos, por exemplo, e as pessoas acabam descontando no enfermeiro. Vários desses casos vão parar na delegacia.

Pesquisa foi feita pelo Conselho Federal de Enfermagem e pela Fundação Oswaldo Cruz para conhecer o perfil de 1,6 milhão de enfermeiros, técnicos de enfermagem e auxiliares de enfermagem do país. Ao todo, 19% responderam que existe violência nos lugares que trabalham e 71% afirmam que há pouca segurança. Já 66% sofrem algum tipo de desgaste profissional, seja por exposição ao risco de agressão, excesso de trabalho ou falta de estrutura para desempenharem bem suas funções.

“O cidadão já chega com uma representação que ele vai ser mal atendido, que o SUS não é bom, é deficitário, então ele já chega com uma pré-disposição de exigir o melhor possível para o atendimento dele. Ele entende que o direito dele também é chegar com violência na exigência dos seus direitos, e o primeiro a receber esse tipo de reivindicação é o profissional de enfermagem”, afirma o vice-presidente do Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo, Mauro Dias da Silva.

O conselho acredita que mudanças na profissão e no atendimento público de saúde podem mudar o cenário, mas a longo prazo. Por enquanto, tem certeza de que enfermeiros, técnicos e auxiliares vão continuar sendo vítimas, como uma profissional que tem medo de ser identificada. “Às vezes do nada, a gente leva um soco, um empurrão. Acontece bastante”, diz.

Entre aqueles que responderam que já sofreram violência no trabalho, 66% disseram que a violência psicológica é a mais frequente. A pesquisa também mostrou que 84,6% dos profissionais de enfermagem são mulheres.