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04.01.2018, 18:28

Consumo de álcool. Estudo revela como ele atinge o DNA e aumenta o risco de câncer

Uma equipe de cientistas do Reino Unido investigou uma das íntimas ligações entre o álcool e o câncer através da análise do DNA em células estaminais (células-tronco). Nas experiências feitas com ratos, os cientistas recorreram à administração de etanol nos animais e concluíram que a exposição ao álcool provoca danos genéticos permanentes. O estudo, que conta com a participação de uma cientista portuguesa, é publicado na edição desta semana da revista Nature.


Por: Equipe Saúde 247

 

“Alguns tipos de câncer surgem quando existem danos no DNA em células estaminais (células-tronco). Sabemos que alguns destes problemas ocorrem por acaso, mas os resultados do nosso estudo sugerem que beber álcool pode aumentar o risco desses estragos”, refere Ketan Patel, cientista do Laboratório de Biologia Molecular do Conselho de Investigação Médica do Reino Unido, em Cambridge, num comunicado da instituição Cancer Research UK que financiou parte do estudo. Sandra Louzada, investigadora portuguesa no Instituto Wellcome Trust Sanger, é especialista em genética molecular e uma das cientistas que assina o artigo. Ao contrário da maioria dos estudos que são feitos em culturas de células para observar os efeitos do álcool na nossa saúde, desta vez os cientistas administraram etanol a ratinhos para observar in vivo o impacto deste consumo no DNA dos animais.

Os animais foram expostos a um “tratamento agudo” com uma dose total de 5,8 gramas de etanol por quilo, dividida em duas injecções, e também a um “tratamento crônico” que consistiu na mistura de etanol diluído na água dos ratinhos durante vários dias. As atenções estiveram sobretudo viradas para o acetaldeído, o químico que é produzido pelo organismo quando o álcool é processado. Ketan Patel resume os resultados da investigação: “O álcool é processado pelo organismo através de uma toxina chamada acetaldeído, isso prejudica o DNA das células estaminais causando mudanças permanentes no genoma. Uma vez que uma célula estaminal faz muitas descendentes (células filhas), isso faz com que um genoma de células estaminais com defeito seja passado para muitas células.”

 

PÚBLICO -
 
O pesquisador Ketan Patel

Uma garrafa de whisky

Sobre as generosas quantidades de álcool servidas aos ratinhos, o cientista esclarece na resposta por email que “a maioria das experiências usou uma única e grande dose de etanol que é equivalente a colocar um ser humano a beber uma garrafa de whisky de 750 mililitros de uma só vez!” Tendo em conta o que observaram em laboratório, Ketan Patel considera que estes testes demonstraram “que os ratinhos lidaram e processam o álcool de forma muito eficaz e que não são muito afetados por isso, mostrando estar 15 minutos bêbados e perfeitamente bem passados 30 minutos”. Mas é evidente que os efeitos do consumo de álcool podem ir muito além de uma simples ressaca passageira.

Para a maioria das pessoas, o acetaldeído é um subproduto transitório do álcool que é “resolvido” (transformado em energia) por uma família de enzimas (ALDH) que, assim, funciona como um mecanismo de defesa. No estudo, os investigadores identificaram um dos membros desta família (a ALDH2) que terá um papel decisivo neste processo. Segundo concluíram, quando esta enzima não estava presente nos ratinhos que tinham sido “embriagados” os danos no ADN quadruplicavam, quando comparados com os animais com esta enzima funcionando normalmente.

Os autores do estudo sublinham no artigo que existem cerca de 540 milhões de pessoas na Ásia que carregam uma mutação no gene ALDH2, o que significa que não conseguem lidar com o acetaldeído. Sabe-se que as pessoas que têm esta mutação enfrentam um risco aumentado em desenvolver cancro esofágico se consumirem álcool. No entanto, o artigo agora publicado na Nature sugere que estes indivíduos também podem ser mais susceptíveis a outros distúrbios sanguíneos induzidos pelo álcool.

“O nosso estudo realça que não ser capaz de processar o álcool de forma eficaz pode levar a um risco ainda maior de danos no ADN relacionados com álcool e, portanto, a um risco aumentado de alguns tipos de câncer. Mas é importante lembrar que a eliminação do álcool e os sistemas de reparação do ADN não são perfeitos e que o consumo de álcool pode causar câncer de outras maneiras, mesmo em pessoas que têm estes mecanismos de defesa intactos”, refere Ketan Patel no comunicado.

Próximo passo? “O trabalho foi feito processando células estaminais do sangue porque são fáceis de estudar e analisar. Queremos saber se outras células estaminais são afetadas de forma semelhante – particularmente as que estão em tecidos onde sabemos que o câncer se desenvolve após a exposição ao álcool (boca, fígado e mama)”, adianta o investigador. Vários estudos sobre a perigosa relação entre o álcool e o câncer já demonstraram que este consumo (mesmo que seja leve ou moderado) está associado de forma clara a, pelo menos, sete tipos de câncer (faringe, laringe, esôfago, fígado, cólon, reto e mama). A Organização Mundial da Saúde coloca o álcool no grupo dos agentes cancerígenos, apoiando-se em "provas convincentes" que causa câncer em humanos.

Ketan Patel nota que o artigo publicado agora não investigou a quantidade de álcool necessária para se observar danos no DNA, mas antes “como é que o álcool pode causar danos”. “O trabalho também mostra que os seres humanos possuem um robusto mecanismo de proteção contra o álcool, conclui. “Dito isto, é provável que o "binge drinking" (consumo rápido de grandes quantidades de álcool) ultrapasse essas defesas e que os efeitos cumulativos de longo prazo também sejam importantes, já que os humanos agora vivem muito mais anos. Talvez os danos acumulados no DNA possam comprometer o bem-estar na velhice.