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13.03.2018, 16:26

Doença psiquiátrica. Pais, irmãos, filhos e cônjuges também precisam de cuidados médicos

Quando casos de esquizofrenia, depressão, anorexia e outros distúrbios psiquiátricos entram no círculo da família, todos os seus membros necessitam de apoio e de informação. Essas moléstias têm o poder de desestruturar o inteiro sistema familiar. E com frequência o fazem.


 

Por: Pascale Senk – Le Figaro Santé 

 

«Ela pouco a pouco desaparece, mas são vocês que pouco a pouco param de existir”: com essas palavras, o psicólogo francês Samuel Dock exprimia em seu blog, há poucas semanas, aos familiares, o sofrimento gerado pelo distúrbio psíquico no seio da sua família – no caso, a desarmonia provocada pela anorexia mental de uma das irmãs. «É a esse paradoxo doloroso que nos arrasta o anoréxico: a busca do nada toma o lugar do todo, o vazio toma o lugar de vocês. Tanto os seus sucessos quanto os seus fracassos, tanto os seus momento de alegria e felicidade quanto as suas angústias mais secretas, a sua vida que continua, agora cinzenta e muda, pois nada mais importa quando uma pessoa do seu círculo íntimo sofre da patologia psiquiátrica mais letal de todas”.

Pascal-Henri Keller, psicanalista, professor emérito de psicologia clínica na Universidade de Poitier, se exprime de maneira análoga quando fala do sofrimento que, sob o  nome de “depressão”, levou seu irmão caçula ao suicídio. «Creio que seu suicídio tornou meu irmão onipresente em minha vida. Minha carreira profissional, a maneira como esse drama familiar tingiu com cores escuras o meu trabalho clínico, minha experiência do sofrimento psíquico, meu conhecimento dos efeitos secundários, meu conhecimento a respeito das medicações antidepressivas. Em muitos aspectos, tenho agora a impressão de reviver, com certos pacientes, aquilo que vivi com meu irmão caçula”.

Uma formação para ajudá-los a conhecer a doença

Esses testemunhos são signos do tempo em que vivemos: Até pouco tempo, na França, os pais dos doentes eram os primeiros a se exprimir e a serem ajudados, sobretudo através de associações como a Unafam (União Nacional de famílias e amigos de pessoas doentes e/ou handicapadas). Agora, a atenção das autoridades médicas e sanitárias se volta para a inteira família alargada (a fratria), que em alguns casos inclui até amigos muito próximos.

Assim sendo, a rede ProFamille, que «proporciona uma abordagem cognitivo-comportamental que objetiva levar progressivamente o paciente que sofre de esquizofrenia e sua família a passar de um sentimento de impotência e de uma posição de passividade ou de revolta a uma posição de colaboração ativa através de uma visão realista da doença”, acaba de lançar um curso e treinamento específicos destinados aos irmãos e irmãs dos doentes. Um primeiro grupo de teste reuniu, em Paris, dezesseis irmãos e irmãs durante todo um fim de semana em outubro último. Mas retomar o contato com um irmão ou uma irmã que foi violento e quase não fala não é certamente uma tarefa fácil.

Por que uma formação específica? Esses familiares muito próximos sentem necessidade de conhecer melhor a doença, de compreender os mecanismos da sua manifestação, bem como as repercussões que ela provoca em seus irmãos e irmãs, sem que isso os leva ao desejo de adquirir o know-how necessário para cuidar e acompanhar no dia-a-dia a pessoa que sofre da doença. Na grande maioria dos casos, essa tarefa é assumida e assegurada pelas mães e pelos pais.

O testemunho de Anaís

Anaís Oddoux, 25 anos, conhece bem essa ambivalência ligada aos laços que a unem a um irmão: «Meu irmão está doente há sete anos. Eu vivi o surgimento da esquizofrenia no seio da minha família ao mesmo tempo de muito perto e de muito longe”, ela explica. “Já tinha uma vida própria, independente, que isso aconteceu a ele, portanto a ruptura que vivi não é da mesma ordem daquela vivida por meus pais. Creio que para nós, que pert4ncemos à mesma geração, o perdão é mais difícil”.  Perdão? “Sim perdoar meu irmão de ter explodido por completo nossa família”, ela acrescenta. Anais agora se submete a uma psicoterapia para conseguir superar essa provação. «Esqueci uma grande parte da minha vida nos últimos sete anos, abandonei meus estudos, senti-me totalmente sozinha... Retomar o contato com esse irmão que tem comportamento violento e quase não fala não é nada fácil. Mesmo assim, recomendo a todo irmão ou irmã de um doente para que conserve o contato, para que o afastamento seja evitado”.

O sofrimento psíquico sempre cria raízes numa história familiar particular

Anaís, que faz parte de um dos primeiros grupos participantes do programa «Frères et sœurs» (Irmãos e irmãs) do ProFamille, reconhece ter tirado muito proveito dele: “Aprendi a compreender como meu irmão funciona, como ele nos vê e quais são as melhores maneiras para se comunicar com ele, sobretudo porque ele não consegue interpretar nossas expressões”. Trata-se de uma aprendizagem parecida com a de uma língua estrangeira: “como a língua dos sinais com um irmão surdo-mudo”, compara Anaís. Sobretudo, esse  novo programa desenvolve de modo aprofundado todas as informações concernentes as questões de genética e de descendência, o estatuto jurídico dos pacientes e todos os outros aspectos que podem ajudar a uma tomada de decisão em caso, por exemplo, de morte dos pais.

Para Pascal-Henri Keller, que defende uma abordagem mais relacional do problema, é importante que irmãos e irmãs cheguem a se interrogar a respeito dos laços que, quando uma patologia dessas se desencadeia, são redescobertos. Keller diz que “o sofrimento psíquico se enraíza sempre numa história familiar particular”. Quando a culpabilidade, o ressentimento ou a cólera ocupam demasiado espaço, é muito importante que essas diferentes visões se integrem para completar a construção de um panorama mais claro do estado de coisas.