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21.08.2018, 23:03

Quociente de inteligência. Nosso QI diminui a cada dia que passa?

Alguns cientistas afirmam que o QI – quociente de inteligência – das pessoas não para de diminuir nos países ocidentais. Ainda não existem provas para se afirmar essa tese, mas um estudo norueguês relança o debate e acusa o meio ambiente e os novos hábitos das populações.

 

 

Por: Sarah Terrien – Le Figaro Santé

 

Você é menos inteligente que seus pais e seus filhos serão ainda menos inteligentes que você. Esta é, essencialmente, a ideia definida por uma minoria de cientistas nos últimos anos. Segundo eles, o QI (quociente de inteligência das pessoas) não para de diminuir nas últimas décadas nos países desenvolvidos. Um novo estudo publicado em 11 de junho último na revista norte-americana PNAS (que publica os resumos da Academia Americana de Ciências) reúne uma abundante série de constatações nesse sentido, embora os resultados finais do estudo não possam ser generalizados.

Segundo os autores, dois economistas escandinavos, o QI dos homens noruegueses nascidos entre 1962 e 1991 baixou de ano para ano. Eles atribuem o fenômeno a fatores culturais tais como o “declínio dos valores educacionais”, a “degradação dos sistemas educativos”, ou ainda a “degradação da nutrição e da saúde”.

Efeito Flynn versus Efeito Flynn negativo

A ideia de que nos países desenvolvidos está ocorrendo um processo de degradação da inteligência tem origem nos trabalhos de James Flynn, professor emérito de ciências políticas na Universidade de Otago, na Nova Zelândia. Desde 1980, Flynn estuda o nível de inteligência das populações. Segundo ele, os resultados dos testes de QI na população norte-americana teriam aumentado cerca de 3 pontos por década entre os anos 1930 e 1980. Esse fenômeno, denominado de “efeito Flynn”, foi encontrado em cerca de 30 outros países em todos os continentes. Ele é considerado pela comunidade científica mundial.

“A melhora observada nas áreas da saúde, da nutrição e da educação no decurso do século 20 explica esse incremento de pontos no QI”, diz Franck Ramus, professor de ciências cognitivas na Escola Normal Superior de Paris.

Mas, de repente, nos últimos anos, um grupo de pesquisadores tenta provar uma tendência inversa. Segundo esses, o “efeito Flynn” teria se transformado em um “efeito Flynn negativo”, uma tese segundo a qual o QI baixa continuamente nos países ocidentais desde o ano 2000.

Um dos pioneiros do estudo do “efeito Flynn negativo” é o controvertido Richard Lynn, psicólogo britânico também conhecido por suas ideias consideradas racistas e eugenistas. Nos anos 1990, Lynn sustentava por exemplo a ideia de que mais a cor da pele de uma população é escura, mais seu nível médio de inteligência é fraco.

Em abril de 1917, em entrevista ao jornal suíço Le Temps, Richard Lynn afirmou que “apenas Marine Le Pen e o governo da Hungria compreenderam que os migrantes provenientes da África e do Médio Oriente possuem uma inteligência limitada”. Assim sendo, sempre segundo Richard Lynn, a chegada desses migrantes provocaria uma baixa do QI nos países ocidentais que os acolhem. Esse cientista difunde abertamente ideias desse tipo durante as conferências que profere nos meios norte-americanos de extrema direita. É com o propósito de justificar “cientificamente” essas teorias que Lynn conduz suas pesquisas a respeito da evolução do QI nos países ocidentais.

Estudos pouco confiáveis

As posições racistas desse cientista provocam críticas e protestos acirrados vindos da maior parte dos seus colegas. Mas, à parte Lynn e os aspectos controversos de suas posições, vários outros cientistas da atualidade se interessam pela questão do QI. Entre 2005 e 2013, pelo menos uma dezena de estudos buscam demonstrar que os níveis do quociente de inteligência diminuíram  nas últimas décadas nos países escandinavos, na Grã-Bretanha e na Austrália. Tais estudos ainda não são plenamente aceitos porque lançam mão de testes cujas metodologias são muito diferentes umas das outras. Uma heterogeneidade que não permite tirar conclusões sobre uma baixa geral da inteligência.

Em 2013, e depois em 2015, Richard Lynn e Edward Dutton, um antropólogo britânico, publicaram sucessivamente dois estudos que apontam para uma baixa do QI na Finlândia e na França. Malgrado limites metodológicos importantes (o recurso a testes não convalidados para o primeiro, um número insuficiente de testes para o outro), os dois cientistas evocam, nos dois casos, a influência negativa da imigração e do “disgenismo” - uma teoria segundo a qual as pessoas menos inteligentes se reproduzem mais do que as pessoas mais inteligentes.

O QI não baixa: ele aumenta mais lentamente

Misturados a essas aproximações científicas brandidas com finalidades ideológicas, existirão estudos confiáveis que se interessam pela evolução do QI? “Os resultados obtidos por esses estudos são bastante disparatados, e é por isso que as meta-análises são indispensáveis para que se chegue a conclusões mais globais”, explica Franck Ramus. Pelo fato de examinarem os resultados e as metodologias de um grande número de estudos, as meta-análises constituem um dos melhores níveis de prova científica.

Em 2015, pesquisadores compilaram os resultados de 271 estudos sobre o QI realizados entre o início do século 20 e os anos 2010. Suas conclusões, publicadas na revista Perspectives on psychological science, não corroboram exatamente a ideia de que exista uma baixa do nível de inteligência em nível mundial. “O quociente de inteligência não diminui, mas sim é o seu índice de crescimento que agora se mostra bem mais lento do que antes”, explica Franck Ramus. E, segundo esse cientista especialista em ciências cognitivas, não há nada de alarmante nisso. “O teto do QI foi atingido”, indica Ramus, “como para a altura ou as performances esportivas, a espécie humana está atingindo os limites da sua capacidade inteligente”.

Até o momento, portanto, nenhum dado científico permite atestar a realidade de uma baixa da inteligência nos países ocidentais. “Creio ser bastante irresponsável provocar o pânico na população por causa de resultados científicos que são muito pouco conclusivos”, conclui Ramus. Para ele, parece não ser verdadeira a possibilidade de que todos formaremos, amanhã, um bando de cretinos.